Segunda-feira, 24 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº950

IMPRENSA EM QUESTãO > TAM, VÔO 3054

O caldo que a imprensa faz

Por Pedro Eduardo Portilho de Nader em 31/07/2007 na edição 444

Nos últimos dias, o mainstream da imprensa sobre a tragédia do Airbus em Congonhas, ocorrida em 17/7, tem repetido a idéia de que o comportamento correto adequado é esperar o resultado do relatório pericial referente às caixas-pretas – as legítimas, não aquilo (seja lá o que aquilo fosse) que os peritos da Aeronáutica levaram para ser periciado.

No entanto, pelo seu efetivo comportamento, parece que a cobertura da imprensa limitou-se a acompanhar o relatório da perícia que se faz e repetir as notícias a respeito da perícia: a caixa-preta, primeiro, mostra que o piloto não tentou arremeter o avião; depois, que o avião estava na pista a uma velocidade superior à adequada; ainda, e mais importante, que não é possível concluir se a falta de desaceleração se deveu à falha humana, falha mecânica, combinação das duas ou por eventual defeito na pista que pudesse existir.

Então, o comportamento da imprensa parece se restringir à repetição dos relatos parciais que vêm dos que acompanham os andamentos da perícia. A tal ponto que sumiu da imprensa qualquer menção às evidências mostradas pela própria imprensa nos dias que se seguiram ao desastre. Mostrou-se que, na antevéspera da tragédia, vários pilotos que aterrissaram na pista relataram para a torre de controle dificuldades em pousar devido à falta de aderência da pista. Na véspera do desastre, duas aeronaves deslizaram na pista, uma parando na grama, a outra conseguindo parar no final, muito depois do que seria normal. Novamente, houve relatos à torre de que a pista estava ‘dando trabalho’. Nos dias seguintes à tragédia, a imprensa falou muito do grooving das pistas de pouso – e praticamente cada órgão de imprensa tinha o seu próprio especialista em segurança aeroportuária para explicar o tal grooving.

Afoiteza e açodamento

Após esses dias, a imprensa passou a se comportar de maneira que parece que ela só poderia mencionar aquilo que o relatório sobre as caixas-pretas verdadeiras permitisse. A impressão é que a imprensa não só está em compasso de espera, aguardando o relatório, mas que, daqui para frente, a caixa-preta será tratada como se fosse tudo e o relatório a seu respeito como autoridade inquestionável e absoluta. Daqui para a frente, a imprensa se restringirá a acompanhar e repetir o relatório? No entanto, a caixa-preta trata do vôo, do pouso, das condições do pouso e do acidente estritamente, mas não abrange os antecedentes que sugerem que a tragédia não foi fortuita. A imprensa tem falado de tudo relacionado à tragédia e seu entorno (da demora na identificação dos corpos, das mudanças anunciadas referentes ao sistema aeroportuário, dos gestos de assessores, do desmoronamento da pista, da troca de ministro, de um novo aeroporto que se quer construir, de quem deve pagar indenização, de quem tem medo de avião etc.), exceto das causas que provocaram o desastre: sobre essas causas, só o relatório pode falar e qualquer enunciado fora do relatório parece ser especulação necessariamente inadequada e gravemente condenável, como se fosse sordidez tratar, por exemplo, daquelas evidências referentes aos dias que antecederam o desastre. A impressão que se tem é que, no mainstream da imprensa, o jornalismo foi abatido naquilo que deve ser sua índole talvez porque a imprensa queira evitar ser acusada de açodada ou de inconveniente.

Ter precaução, certamente, é mais do que correto, sempre imprescindível, mas – sem querer fazer, aqui, menção ao ditado que associa cautela a um tipo bastante conhecido de caldo – não dá para deixar de lembrar do estereótipo que apresenta como medrosas as galinhas.

O comportamento recente do mainstream da imprensa indica que ela própria passou recibo de ter sido açodada nos primeiros dias após a tragédia. Entre posição açodada, de um lado, e postura de galinha, de outro, certamente há outras atitudes possíveis. A melhor, conforme a índole que se deve esperar do jornalismo, é aquela que tanto evita a postura excessivamente acanhada quanto não confunde afoiteza com açodamento.

******

Historiador e doutor em Filosofia, Campinas, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/07/2007 Fábio Carvalho

    Nada entendo de avião, tampouco de acidentes aéreos, mas sei que todas as informações sobre um vôo ficam guardadas na caixa-preta. Elas são, sim, essenciais à investigação de um desastre. Foi assim, por exemplo, com o jatinho Legacy. A caixa-preta trouxe prova material de que os pilotos voavam com o tal transponder desligado. Revelou ainda os contatos com o Cindacta de Brasília, onde trabalham controladores de vôo que deram informação errada aos pilotos norte-americanos. Está sendo assim com a tragédia do Airbus da TAM (a rigor, ainda não sabemos todo o conteúdo da caixa-preta e ainda é cedo para descartar hipóteses, inclusive a de aquaplanagem e falha mecânica). O autor parece se esquecer que a caixa-preta é tão importante que se insere até na gíria popular. ‘Precisamos abrir essa caixa-preta’ ou ‘Tomara que seja aberta a caixa-preta das licitações fraudulentas’ são frases que que o brasileiro médio compreende. A caixa-preta é, sim, reveladora. A imprensa errou ao noticiar a crônica da tragédia anunciada, mas está só passando o recibo desse erro, quando deveria publicar um digno ‘erramos’. Em tempo: o laudo pericial da derrapagem da aeronave da Pantanal, na mesma pista molhada de Congonhas, sustenta que o acidente (felizmente, sem vítimas) decorreu de um estouro de pneu.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem