Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > NOTAS DE UM LEITOR

O caráter dos políticos – e o dos jornalistas

Por Luiz Weis em 17/10/2005 na edição 351

Paul Krugman, o economista americano que rivaliza com os melhores críticos de mídia dos Estados Unidos, usou a sua coluna no New York Times da sexta-feira (14/10) para discutir a capacidade dos jornalistas de julgar figuras públicas – e para comentar, com mordaz ironia, por que esses julgamentos são frequentemente errados.


No centro do problema está o presidente Bush: aquele do pós-11 de setembro e de hoje. O primeiro, o destemido líder da luta contra o terror. O segundo, o governante frio e mal-humorado, cujos assessores têm medo de lhe dar más notícias.


O primeiro chegou a bater todos os recordes de popularidade no país. O segundo é aprovado apenas por 1/3 dos americanos em geral – e, em consequência do Katrina, por negligíveis 2% da população negra.


No artigo intitulado ‘Questões de caráter’, Krugman diz aquilo que muito mais estrangeiros do que americanos, como ele, sabiam desde a primeira hora: Bush, o verdadeiro Bush, é o segundo e sempre foi. O primeiro é uma criação da mídia. ‘Ou alguém acha que os jornalistas só agora descobriram’, pergunta o crítico, a pequenez do presidente?


Boa parte da resposta pode estar no caráter – dos jornalistas. A Casa Branca, atenta ao ‘carreirismo jornalístico’, fez sábio uso do afago e do chicote. Um para os que vendiam docilmente ao público a imagem de um Bush que nunca existiu, outro para os que ousavam pôr em dúvida as excelsas virtudes de W. (como gosta de chamá-lo outra impiedosa crítica do governo, a colunista Maureen Dowd, do mesmo jornal).


A saída para esse problema que, com inumeráveis variações, afeta a imprensa no mundo inteiro, não há de ser arranjar jornalistas mais aptos a julgar o caráter alheio. ‘Afinal, quem julgará os seus julgamentos?’, pergunta Krugman, para concluir:




‘O que precisamos realmente é um jornalismo político baseado menos na percepção de personalidades e mais em fatos. Pense como o mundo está diferente se, durante a campanha presidencial de 2000, as reportagens focalizassem antes as políticas fiscais dos candidatos do que os seus guarda-roupas.’


Operação sórdida


É improvável que, ao escrever esse artigo, Krugman soubesse o que sairia no Times duas edições depois – uma reportagem assinada a seis mãos, começando na primeira página, com 5.800 palavras (como os americanos medem o tamanho de matérias) ou 34 mil toques (como medimos nós).


O seu assunto, em última análise, é o caráter. De uma jornalista, de um jornal – sem falar da Casa de Bush, que não tem nenhum e que, na frase bem-torneada de outro colunista ainda do jornal, Frank Rich, ‘seqüestrou nossa democracia a caminho da guerra’ [ao Iraque].


A jornalista é a repórter Judith Miller. O jornal, o próprio New York Times.


Judith é figura carimbada. Tem 57 anos, 30 deles no jornal e fama de desobedecer a seus chefes. Integrante da equipe que ganhou o Pulitzer de reportagem em 2002 por suas histórias sobre a al-Qaeda, ela assinou no começo do ano seguinte, só ou acompanhada, cinco das seis matérias sobre a guerra então em preparo, pelas quais, tardiamente, em 26 de maio de 2004, o Times se desculparia numa ‘nota do editor’, criticada, aliás, por sua tibieza.


Porque os textos, que os fatos desmentiriam de cabo a rabo, ecoavam rigorosamente o pretexto número 1 do governo – o perigo representado pelos arsenais e programas de armas de destruição em massa de Saddam Hussein, afinal inexistentes.


No materião deste domingo (16/10), o caráter de Judith pode ser flagrado em várias passagens. Numa delas, ela volta ao assunto. ‘Se as suas fontes estão erradas, você está errado. Eu fiz o melhor que pude.’


As fontes de Judith e dos outros jornalistas a quem venderam a mesma falsidade não estavam erradas. Elas sabiam que as suas alegações eram no mínimo exageradas.


O agora famoso ‘Memorando de Downing Street [sede do governo britânico], de 23 de julho de 2002, registra que, por ato deliberado do governo Bush, ‘os fatos e as informações da espionagem’ sobre as tais armas ‘estavam sendo arranjados’ para fortalecer a decisão já tomada de atacar o Iraque.


Pouco depois, em agosto, sete meses antes da invasão, recorda o colunista Frank Rich, reuniu-se pela primeira vez o Grupo do Iraque da Casa Branca (ou Whig, nas suas iniciais em inglês), raramente mencionado pela imprensa americana.


Quando a ofensiva estava próxima, a experiente repórter, deliciada, comeu das mãos de suas fontes – na realidade, de seus mentores – e não há o menor indício de que ela tivesse tentado checar a fundo a validade do que lhe diziam, por exemplo, o escroque iraquiano exilado Ahmad Chalabi e o seu protetor em Washington, o ideólogo neocon Paul Wolfowitz, à época o segundo homem do Pentágono, hoje presidente do Banco Mundial.


Os desastres da guerra iraquiana nada parecem ter ensinado a Judith. Ela era e continua sendo facciosa, por patrioteira. Aparece dizendo na matéria XL do Times de domingo que espera continuar cobrindo ‘o que sempre cobri – ameaças ao nosso país’.


A reportagem, ‘O caso Miller: um caderninho, uma causa, uma cela de prisão e um acerto’, busca reconstruir a conduta de Judith diante de uma das mais sórdidas operações da Casa Branca – que tem o potencial de ser o Watergate de Bush –, os seus 85 dias na cadeia por ter se recusado a identificar uma fonte envolvida na infâmia, a sua decisão de voltar atrás e de abrir o nome de Lewis Libby, o chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, e por último, mas não o menos importante, o papel do New York Times na história.


Amnésia seletiva


Em 2002, Bush precisava desesperadamente de qualquer coisa que pudesse passar por indício das ambições nucleares de Saddam. Com base em documentos que depois se veio a saber terem sido forjados, surgiu a suspeita de que o ditador iraquiano tentava comprar urânio no Níger.


Para checar a história, despacharam um conhecedor do país, o ex-embaixador Joseph Wilson. Ele voltou seguro de que era tudo mentira e preparou um relatório honesto do que apurou. Ainda assim, a CIA incluiu no discurso de Bush do Estado da União, de janeiro de 2003, as famosas ’16 palavras’ que davam crédito à patranha (atribuída, convenientemente, à Inteligência britânica).


Wilson esperou até 6 de julho para soltar os cachorros. Nesse dia, publicou no Times um artigo devastador contra o governo Bush. Uma semana depois, o colunista de direita Robert Novak, cujos textos aparecem em mais de 300 jornais americanos, escreveu, citando ‘duas fontes da administração’ que a idéia de mandar Wilson ao Níger partiu da mulher dele. E acrescentou que ela, Valerie Plame, ‘é uma operadora da CIA, no setor de armas de destruição em massa’.


Revelar a identidade de um funcionário clandestino da espionagem americana pode dar cadeia, mas, estranhamente, nada aconteceu a Novak. A investigação criminal aberta no fim de 2003 concentrou-se em descobrir quais eram os dois altos funcionários da Casa Branca que, segundo o Washington Post, entregaram Valerie a pelo menos seis jornalistas da capital.


Suspeita de ser uma deles, Judith negou que fosse, em conversa com o chefe da sucursal de Washington. E se recusou a colaborar com o promotor especial Patrick Fitzgerald. Alegou, com integral apoio do Times, que tinha o direito constitucional de não revelar as suas fontes. [Em 1972 a Suprema Corte decidiu que esse direito não se aplica nem a jornalistas quando intimados numa investigação criminal de um Grande Júri.]


Ameaçada de prisão, Judith se manteve firme. Condenada, tornou-se uma espécie de mártir da liberdade de imprensa – embora os críticos argumentassem que ela não estava protegendo alguém que denunciava o governo e precisava ficar no anonimato, mas um ‘alto funcionário’ do governo que havia cometido uma torpeza com uma servidora pública para se vingar do seu marido, porque ele mostrara que o rei estava nu.


O New York Times fechou com Judith e não abriu. Como diz a matéria a respeito, publicou pelo menos 15 editoriais, gastou milhões de dólares em sua defesa e ‘limitou a sua própria capacidade de cobrir aspectos de um dos maiores escândalos do dia. Pediu o apoio do público, mas foi incapaz de responder às suas questões’.


Na segunda-feira (17/10), o jornal publicou sete cartas de leitores sobre a reportagem que a rigor o acusa de ter transformado um caso numa causa. Três o atacam e três o elogiam. A sétima limita-se a dizer que ‘se Judith Miller investigasse a história de Judith Miller, mesmo ela concordaria que estava cheia de lacunas e não fazia sentido’.


A primeira lacuna, apontada desde o início pelos advogados de Libby, o sub de Cheney, é que eles a tinham liberado do sigilo da fonte há um ano. Ela foi para a cadeia porque queria que ele, pessoalmente, a desobrigasse – o que finalmente obteve numa teleconferência, em 19 de setembro último. Dez dias depois, foi libertada. Se continuasse quieta, sairia no próximo 28, prazo para o fim da investigação.


Solta, prestou dois depoimentos ao Grande Júri, num total de 4 horas – e publicou sobre isso uma matéria na primeira pessoa, que também saiu no domingo. Como opinou a leitora, está cheia de lacunas e não faz sentido. Para não dizer coisa pior.


Segundo suas próprias palavras, ele disse que não conseguia se lembrar se alguma vez ouviu [de Libby] o nome da mulher do diplomata Joseph Wilson – embora ela tenha anotado no seu caderninho ‘Valerie Flame’ (deve ter entendido errado o sobrenome Plame).


Posição de princípio


Haja caráter, diria o economista crítico de mídia Paul Krugman. ‘Eu falei a Fitzgerald [o promotor especial] que simplesmente não conseguia me lembrar de onde veio isso, quando o escrevei e porque errei a grafia do nome’, escreveu Judith.


Mais do mesmo: ‘Testemunhei que não acreditava que o nome viesse de Libby, em parte porque a anotação não aparece na mesma parte do meu caderninho da notas de minhas entrevistas com ele’. [Judith falou com Libby três vezes em junho-julho de 2003. Uma delas, dois dias depois da publicação do artigo de Wilson.]


E ainda: ‘Fitzgerald perguntou se eu conseguia lembrar de ter tratado da conexão Wilson-Plame com outras fontes. Disse que sim, embora não consiga lembrar de nenhuma pelo nome ou quando essas conversas ocorreram’.


Por fim: ‘Fitzgerald perguntou se Libby tinha me dado o nome Wilson. [Outra anotação dela era de uma inexistente Victoria Wilson.] Eu lhe disse que não sabia e que não queria chutar’.


Um despacho da Associated Press, do mesmo domingo, teve a boa idéia de citar outros casos de amnésia em Washington: o do assessor militar Oliver North, no escândalo Irã-Contras, no governo Reagan, e o da atual senadora Hillary Rodham Clinton, que de quase nada se recordava das transações imobiliárias provadas fraudulentas no Arkansas, antes de seu marido Bill se eleger presidente dos EUA.


Um dos argumentos de Judith para não ser obrigada a revelar a sua fonte é que ela, além do mais, não tinha escrito uma única matéria sobre o assunto. Ao Times ela diz agora que foi proibida de escrever, mas não se lembra por quem.


O publisher do jornal, Arthur Sulzberger, e o chefe de redação, Bill Keller, nunca apertaram Judith. Nem mesmo depois de saber que a sua fonte era Libby – informação que guardaram para si. Keller só este mês ficou sabendo da anotação ‘Valerie Flame’. Sulzberger, só na quinta-feira (13/10).


Em tese, isso honra o jornal. Na prática, nem tanto – considerando a folha corrida da sua repórter e o precedente de Jayson Blair, que pintou e bordou as suas fabulações no mais reputado diário do mundo, livre de qualquer controle efetivo, o que, ao ser descoberto, no mesmo fatídico ano de 2003, fez o chão ceder debaixo dos pés da ‘velha dama cinzenta’.


O patrão ser o último a saber e o chefe de redação não estabelecer um rigoroso sistema de freios válidos para todo o pessoal, em defesa da credibilidade do seu noticiário, sugere um debate talvez insolúvel. Em essência, como diria o falecido Mendonça Falcão, é uma faca de dois legumes.


De todo modo, a autonomia de que Judith desfrutava é incomum no Times. Um ex-editor do jornal, Douglas Frantz, hoje no Los Angeles Times, disse ter ouvido dela certa vez: ‘Eu faço o que eu quero’.


Perguntada no materião de domingo se lamentava alguma coisa sobre a maneira como o Times lidou com a questão, uma das editoras-executivas, Jill Abramson, resumiu: ‘A coisa toda’.


O que inclui o fato de o jornal não publicar o nome de Libby, mesmo depois de outros o terem feito. Só em 30 de setembro, na matéria sobre a libertação de Judith, os seus leitores foram informados de que o segundo do segundo de Bush era a fonte da repórter. [Aliás, foi o Philadelphia Enquirer, e não o New York Times, o primeiro a noticiar, na sua edição online, a saída dela da cadeia.]


Do caráter de Judith Miller, o que se sabe fala por si. Mas o que sabe não autoriza crucificar o Times por ter adotado uma posição de princípio em defesa de um dos seus repórteres. O máximo que talvez se possa dizer é que ela não merecia essa defesa – e o seu jornal, conhecendo-a como a conhecia, ao menos poderia desconfiar de que os seus motivos não eram exatamente tão sublimes como ela fez crer.


Por fim, raros jornais da mesma liga, em qualquer lugar do mundo, desnudariam os seus problemas em público numa reportagem como a que o Times acabou de dar.


[Texto fechado às 19h10 de 17/10]

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