Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > NOTAS DE UM LEITOR

O carro do senador e a pimenta no título

Por Luiz Weis em 20/02/2007 na edição 421

A coluna ‘Na Folia’, do Estado de S.Paulo (domingo, 18/2) abriu com o seguinte nota:




‘No total, houve 69 atendimentos médicos no Anhembi. O caso mais grave foi o de Michel Mota, de 26 anos, integrante da equipe de apoio da Tom Maior, que foi prensado entre as duas partes do carro alegórico em que estava o senador Eduardo Suplicy. Ele foi encaminhado ao Hospital do Mandaqui, na zona norte’.


O pirulito chama a atenção menos pela sua capenga construção do que pelo título: ‘Sambista prensado no carro de Suplicy’.


Como é óbvio, títulos – e outros recursos de texto ou de apresentação gráfica – existem para atrair a atenção do leitor para as matérias a que se referem. São o que em jornalês americano se chama eye-catchers, de onde parece ter vindo o termo ‘olho’ para designar um daqueles recursos, que aparece logo acima ou logo abaixo do título propriamente dito.


É óbvio também que ‘Sambista prensado no carro de Suplicy’ captura o olho do leitor muito mais facilmente do que, por exemplo, ‘Sambista prensado em carro alegórico’.


Aqui se começa a entrar nas águas turvas do ofício. Nelas, a informação inexata, imprecisa ou francamente errada, porém apimentada, afoga a informação correta, porém insossa.


No caso do Estado, salta aos olhos, depois que se lê a nota, que não havia nenhum ‘carro de Suplicy’ no Sambódromo paulistano. Nem o senador teve qualquer coisa a ver com o acidente noticiado. Mas aí já se leu a nota – que é o que interessa por definição ao redator, ao seu chefe, ao chefe do seu chefe, até onde a vista alcança.


Todo cuidado


Decerto quem escreveu o título torto, mas chamativo, nem parou para pensar no que fazia, ou, muito menos, para consultar o chefe. Digitou pavlovianamente ‘carro de Suplicy’ porque aprendeu, desde o dia em que pôs os pés na primeira redação de sua vida, que jornal que não se lê é jornal que não se compra.


O que expõe todo jornalista, em especial todo tituleiro ao perigo de se transformar em um maquiador da realidade, para dramatizá-la – se não por má-fé, por (de)formação profissional. Os mais conscienciosos até que tentam não carregar nos cosméticos a ponto de esconder inteiramente a face dos fatos. Mas, em regra, a tentação de tentar o leitor é uma presença permanente nas mesas de trabalho de uma redação.


Ela condiciona, quando não determina, a escolha das palavras que formarão desde a manchete da primeira página até o tituleto de uma notícia de uma dúzia de linhas sobre fatos periféricos de uma grande cobertura.


Que mal há, poderia pensar o redator, se parasse para pensar antes de redigir, em dar uma viesada nos fatos para deixá-los mais temperados? Ninguém perde com isso, perde?


Talvez ele também poderia se lembrar, se fosse cinéfilo, do jornalista Maxwell Scott, do imaginário The Star, da obra-prima do diretor John Ford, The man who shot Liberty Valance [‘O homem que matou o facínora’, na versão brasileira], de 1962.


Diz Scott, no fecho do filme: ‘Quando uma lenda se transforma em fato, publique-se a lenda.’ [A frase também costuma ser citada como sendo ‘Quando a lenda é mais interessante do que o fato, publique-se a lenda’.]


E quantas e quantas vezes a imprensa não dá uma ajeitada nos fatos – ou até os tortura – para fazê-los caber nas idéias defendidas nos seus editoriais?


O leitor da última edição do último jornal que existir na face da terra pode apostar que encontrará ali uma ou mais provas daquele jogo de sedução.


Ler um jornal com atenção, portanto, é antes de tudo tomar cuidado com o que se lê.

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