Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O circuit breaker da imprensa

Por Gilson Caroni Filho em 07/10/2008 na edição 506

A imagem jornalística predominante a respeito do resultado de processos eleitorais continua a obedecer a duas velhas vertentes. De um lado, os leitores (e eleitores) são vistos como uma massa atomizada, incapaz de mediações próprias, expostos pura e simplesmente aos estímulos da grande imprensa. De outro, temos a visão do eleitorado como uma assembléia de cidadãos esclarecidos, figuras rousseaunianas, capazes de cálculos racionais e aptas ao julgamento crítico. Dependendo do objetivo editorial, a roupagem adequada é escolhida.


O aparente paradoxo, no entanto, esconde um descontentamento com o jogo democrático. Uma necessidade urgente de definir derrotado e vencedor em uma batalha que, tal como a de Itararé, nem chegou a ocorrer. Um expediente de pura prestidigitação, sem qualquer ligação com o correto exercício do jornalismo. Apenas um recurso para agradar aos velhos sócios nos negócios e na política.


A primeira página de O Globo de segunda-feira (6/10), um dia após o primeiro turno da eleição municipal, não resiste ao menor exercício de lógica elementar. Com um infográfico indigente apresenta ‘quem perdeu’ e ‘quem ganhou’. Sob a justificativa da síntese, o falseamento. O deslize a serviço de uma crônica anunciada, escrita antes mesmo do acontecimento do fato que finge explicar. A pretexto de facilitar o entendimento do processo, o que é servido ao leitor é pura realidade invertida.


Evidência conclusiva


Na dobra superior, encimando os ‘derrotados’ pelos resultados das urnas, está, como não poderia deixar de ser, o presidente Lula. O texto é simplório: ‘Sua imensa popularidade não se traduziu em votos. Marta Suplicy e Luiz Marinho não se beneficiaram dela. Em Natal, Lula fez uma cruzada contra a candidata do PV e ela ganhou no primeiro turno. A baixa capacidade de transferir votos pode prejudicar os planos de Dilma Rousseff para 2010’.


No espaço destinado aos ‘vencedores’, encontramos o governador José Serra. A mensagem é categórica: ‘Leva Gilberto Kassab para o segundo turno em São Paulo e dá um passo importante para consolidar a aliança com o DEM para a sucessão presidencial em 2010’.


O fato de o Partido dos Trabalhadores ter vencido em seis capitais, e disputar o segundo turno em outras três de inequívoco peso político, é explicado por três fatores. O primeiro, como cálculo racional do eleitor, preocupado tão-somente com questões paroquiais. O segundo, a boa avaliação das administrações locais. E o terceiro é a facilidade que o instrumento da reeleição dá a quem já ocupa o cargo. Nesses casos, estamos diante de uma eleição que não pode ser federalizada. Perfeito. Nenhum mérito para o governo federal.


Se não houve pleno sucesso, a lógica se inverte. Em situações assim, o presidente Lula é uma liderança carismática incapaz de transferir votos. E, tal como o governador de Minas Gerais Aécio Neves, um ator político que se equivocou ao confundir prestígio pessoal com perspectiva de fazer o sucessor. Não peçam um conjunto coerente de indícios e hipóteses que sustentem essa evidência conclusiva. O que temos aqui é uma peça ideológica tão tosca como tantas outras que a grande imprensa se esmera em apresentar diariamente


Cotação da credibilidade


O importante é mostrar José Serra como exímio enxadrista, e Rio de Janeiro e São Paulo como amostras das tendências que dominarão o cenário político nas eleições presidenciais de 2010. Aqui as clivagens do eleitorado mudam e o pleito passa a indicar um realinhamento global nos três maiores colégios eleitorais do país.


Para isso, a mixagem deve ser preparada com dois ingredientes: ignorância das especificidades político-culturais dos estados e o esquecimento de que inexiste correlação entre resultados em eleições municipais e a corrida presidencial.


Uma volta a 2004 faria bem a editores apressados. Naquele ano, os tucanos ganharam as eleições de São Paulo e os então pefelistas, a do Rio de Janeiro. Pelo resultado de 2006, ao contrário do que apregoa a torcida da editoria de arte do Globo, ‘não foi um passo tão importante assim’. Se é certo que o passado não se repete senão como farsa, como qualificar a repetição de táticas e expectativas?


Quando as ações despencam, as bolsas costumam acionar o circuit breaker, interrompendo o negócio. Seria o caso de o jornalismo brasileiro pensar em adotar mecanismo semelhante quando o que está em queda é a cotação da credibilidade daquilo que informa? Quem sabe não seria um grande negócio tanto para ‘comprados’ quanto para ‘vendidos’?

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Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

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