Terça-feira, 23 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº942

IMPRENSA EM QUESTãO > Crise da mídia

O circulo vicioso das “fake news” e o futuro do jornalismo

Por Lucas Souza Dorta em 26/03/2017 na edição 938

Nos dias atuais, a mídia está muito presente na vida das pessoas, principalmente com a expansão da internet, que de certa forma aumentou o conteúdo comunicacional e as plataformas voltadas para a comunicação. Porém esse boom da expansão midiática não trouxe apenas pontos positivos para a área. A exigência da instantaneidade leva a uma apuração nem sempre com qualidade, o excesso de informação está deixando a sociedade confusa pelo fato de ter aumentado a divulgação de notícias falsas (fake news) como se fossem verdadeiras, ou seja, há muito menos questionamentos, além disso, as redações estão cada vez mais enxutas e os profissionais da área perdem noites de sono com medo das crescentes demissões. O grande número de demissões, as notícias falsas e o excesso de factualidade são os principais problemas que causaram uma crise na mídia contemporânea e que devem ser discutidos a seguir.

A mídia contemporânea obriga o jornalista à factualidade. Se por um lado isso deixa o consumidor da notícia informado de forma mais rápida sobre determinado fato ou serviço, por outro a apuração pode ser mal feita e acontecer uma divulgação de notícia que não seja verdadeira. Existe uma possibilidade cada vez menor de aprofundamento do conteúdo, já que há uma corrida para informar o fato o mais rápido possível. A preocupação com a qualidade da informação continua sendo importante, porém pode passar a ser secundária.

Outra mudança que essa instantaneidade pode trazer é a notícia cada vez mais curta, o que podemos classificar como uma twittertização do conteúdo jornalístico. Mesmo que a apuração apresente poucos fatos interessantes, existe a necessidade de jogar esse conteúdo o mais rápido possível na rede de informações. Além disso, o repórter pode acabar divulgando algo que foi dito de uma fonte questionável e acaba se perdendo no fluxo de informações. Mas a necessidade do factual exigida pelas empresas deixa a reflexão menor, pois tudo tem que ser feito em um curto espaço de tempo para atender a um público que exige mais velocidade em relação à qualidade. Começa a aparecer um público cada vez menos crítico e a notícia curta cria o costume de ler muito menos do que antigamente.

As novas tecnologias de mídia contemporânea também permitem uma atualização da informação de forma mais simples, o que exige ainda mais essa factualidade. É mais fácil levar novidade ao público e tudo pode ser alterado em questão de segundos. A longo prazo isso pode causar um certo relaxamento na apuração da notícia antes dela ser divulgada já que ela pode ser alterada e atualizada em pouco tempo. Uma informação com pouco conteúdo pode ser jogada na rede somente para gerar cliques e dar a sensação ao público de que ele está sendo bem informado naquele veículo somente pelo fator da notícia instantânea.

Fake news e excesso de informação

Por incrível que pareça, um dos motivos da crise da mídia contemporânea é o excesso de informações. Os veículos midiáticos atuais podem até ter trazido uma certa pluralidade e diferentes visões ideológicas sobre determinados acontecimentos; porém, em meio a tantas informações, o público acabou se perdendo sobre o que é verdadeiro e falso. Isso gerou uma indústria chamada fake news onde informações falsas com apelo emocional ganham um grande público que difunde as ideias sem contestar aquilo que foi divulgado e espalham boatos que colaboram com a crise na mídia contemporânea.

A questão da fake news gera uma crise tanto na mídia atual quanto na sociedade em geral, a prática da difusão de boatos pode se tornar cultural a longo prazo empobrecendo o debate racional e acabar sendo uma concorrência do jornalismo sério, já que os boatos tem uma grande repercussão e muitas vezes o público acaba achando mais interessante do que as informações com mais credibilidade. Esse é um fator da crise da mídia contemporânea que não será combatido de maneira simples já que hoje é mais fácil pessoas com péssimas intenções criarem seu próprio canal de comunicação.O assunto do fake news já foi até tema de discussão da ONU (Organização das Nações Unidas). De acordo com o site da Agência Brasil, no dia 3 de março deste ano, relatores da instituição disseram que esse tipo de notícia representa uma preocupação global e pode ser um risco de violência contra o jornalismo e um motivo de desconfiança pública nos jornalistas. Podemos notar que essa indústria do fake news pode ter sido uma das principais responsáveis pela crise da mídia contemporânea, já que isso diminui a credibilidade dos conteúdos midiáticos. Até a rede social Facebook se preocupou e no dia 12 de janeiro lançou o “Projeto Jornalismo” com o intuito de combater notícias falsas, porém sempre é bom desconfiarmos das intenções dessa preocupação.

O futuro

A mídia não conseguiu fugir das ondas de demissões causadas pela crise econômica no Brasil e isso é mais um ponto importante para citarmos como fator da crise da mídia contemporânea. Com redações mais enxutas, os profissionais estão ficando carregados demais e o cansaço pode gerar uma queda de qualidade da mídia. As demissões também se tornam um fator para que cada vez menos pessoas tenham o desejo de seguir a carreira na mídia, já que há a sensação de pouco mercado de trabalho, além das pessoas perdendo o emprego, também tem veículos que deixam de circular e o jornalismo de credibilidade vai perdendo espaço para os fake news, aumentando a crise da mídia contemporânea. Todas essas dificuldades podem afetar também as faculdades voltadas à comunicação.

O ano de 2016 não foi nada legal para profissionais da mídia. De acordo com a IVC (Instituto Verificador de Circulação), houve uma queda de 8% a 15% dos na circulação dos maiores jornais do país no primeiro semestre em relação ao ano anterior. Já o site ABI online registrou ao longo do ano passado o fechamento de aproximadamente 15 veículos de mídias tradicionais como rádio, TV e jornais impressos. No estado de São Paulo, os dados do Sindicato dos Jornalistas Profissionais indicaram que em 2016 houve demissão de 581 profissionais. Dados nada animadores para profissionais da mídia atual e que mostram a crise na mídia.

Não há tantos motivos para acreditar que a mídia contemporânea possa melhorar futuramente. A tentação do público pelo fake news, a preferência pela velocidade da notícia ao invés da qualidade e as demissões nas redações provam que a mídia contemporânea está cheia de problemas. Tudo isso gera um círculo vicioso, já que o fake news atraindo mais interesse do público pode ocupar o espaço das mídias contemporâneas de grande credibilidade, com isso o público ficará cada vez menos crítico e aceitará qualquer coisa como verdade diminuindo o papel do jornalista, a diminuição da figura jornalística irá gerar uma falta de interesse pela área e assim veremos menos profissionais que queiram seguir essa carreira. A crise e a queda de qualidade da mídia contemporânea só devem diminuir após trabalhos e estudos de longo prazo ou com uma educação midiática nas escolas.

Resta aos profissionais da área lutarem a cada dia para mudar um pouco a realidade.

***

Lucas Souza Dorta é estudante de Jornalismo

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