Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & PODER

O deputado e o colunista

Por Deonisio da Silva em 03/02/2004 na edição 262

O Brasil meridional começou com escolas e igrejas que deram grande valor à palavra, principalmente nas modalidades da leitura e da escrita. Pouco a pouco surgiram, para repercutir púlpitos e cátedras, ou para combatê-los, pequenos jornais que fortaleceram a cidadania.

Os católicos davam mais valor às homilias ou sermões, nos quais a leitura da Bíblia era privilégio do padre. Já os protestantes e outros ramos de confissões luteranas partilhavam outros mirantes, pois os fiéis tinham em casa exemplares da mesma Bíblia dos pastores.

Até hoje, escolas e universidades espelham a rica e complexa contribuição de igrejas, ordens religiosas e congregações ao ensino nos três estados do Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A imprensa do Brasil meridional tem suas peculiaridades, uma das quais é, proporcionalmente, a alta tiragem, quando comparada à maioria dos jornais sediados fora do eixo Rio-São Paulo.

O Diário Catarinense e A Notícia, em Santa Catarina; O Estado do Paraná e a Gazeta do Povo, no Paraná; e Zero Hora e o Correio do Povo, no Rio Grande do Sul, são referências solares deste quadro.

‘Sentimento antinordestino’

Quando o escritor Josué Guimarães quis denunciar a ditadura, na década de 1970, inventou o alegórico município de Lagoa Branca, cenário das tramas de Os Tambores Silenciosos, um de seus romances mais lidos. Ali pontifica um prefeito-ditador que, entre as armas da censura que adota como método de governo, proíbe a entrada do Correio do Povo. Recolhe também aparelhos de rádio. Para informar-se, a comunidade recorre aos antigos rádios galena.

A imprensa brasileira também viceja em arquipélagos, à semelhança do que ocorre com os livros. Por isso antecedi o que segue deste mínimo quadro de referências para que os leitores entendam o que ocorreu na última quinzena de janeiro em Santa Catarina com o jornal Diário Catarinense.

Deu-se o seguinte. Os colunistas de qualquer veículo, como é óbvio, não espelham as opiniões dos proprietários, nem dos editores dos veículos para os quais escrevem. Se assim fosse, as colaborações seriam perfeitamente dispensáveis.

E o Brasil meridional tem uma tradição de colunistas talentosos, alguns dos quais foram pinçados por editores esclarecidos entre escritores. Moacyr Scliar, Luís Fernando Veríssimo, Martha Medeiros, Décio Freitas e Voltaire Schilling, no Rio Grande do Sul; Sérgio da Costa Ramos, Urda Alice Klueger e Salim Miguel, em Santa Catarina, e Walmor Marcelino, Fábio Campana e Miguel Sanches Neto, no Paraná, são exemplos do que afirmo. [Recentemente este Observatório, aliás, repercutiu um bom livro da jornalista e escritora Maria Odete Olsen, que apresenta programa de televisão em que autores e livros são sempre destacados (veja remissão abaixo).]

Quem está na chuva é para se molhar. Um deles, Sérgio da Costa Ramos, sob o título ‘O país extra’ (Diário Catarinense, 22/1/04) abrigou a seguinte resposta do deputado federal Inocêncio de Oliveira.

‘Respondo, em respeito à opinião pública, à sociedade que represento e à instituição da qual tenho a honra de ser 1. Vice-Presidente.

Cumpri com um dever constitucional ao presidir a abertura dos trabalhos parlamentares em convocação extraordinária , na condição de 1. Vice-Presidente da Câmara dos Deputados e do Congresso Nacional e na ausência dos titulares das Casas.

Como é do conhecimento público, a convocação extraordinária ocorreu por iniciativa do Poder Executivo, cabendo aos deputados e senadores o cumprimento dos seus deveres constitucionais e regimentares. Integrante da Mesa Diretora, atendi à convocação e desincumbi-me das obrigações que me couberam. Parlamentar assíduo e responsável, faço jus à remuneração estabelecida nos termos legais, em contrapartida ao desencargo das minhas atribuições.

Sem ser responsável pela convocação extraordinária do Congresso Nacional, entendo que não mereço servir de bode expiatório aos que se opõem a essa medida e seus efeitos. Equivale a ser condenado por ter cumprido meu dever de casa.

A propósito de convocação extraordinária, informo ao jornalista que estou apoiando uma PEC reduzindo o período de recesso parlamentar para 45 dias ao ano. A proposta encontra-se em tramitação na Câmara dos Deputados ao lado de outros projetos similares.’

Conforme testemunho do colunista, “o deputado encerra sua carta vendo em trechos de meu ‘panfleto’ um sentimento antinordestino, quando terá havido, se tanto, algum exercício retórico”.

Os alvos são outros

É esta pequena alusão, mais do que indevida, que destaco neste comentário. Por quê? Porque o deputado foi ardiloso na sua resposta. Não exerceu mais do que o direito de discordar enquanto discordou da crítica do colunista – aliás, do colunista? O Brasil inteiro clamou contra esta convocação extraordinária em tempos de desemprego galopante e redução de salários, e se o deputado fosse responder a todas, precisaria tirar licença e escrever em tempo integral e dedicação exclusiva em período bem superior ao recesso parlamentar.

Porém, ao invocar os habitantes de um de nossos arquipélagos culturais mais impressionantes pelas notórias contribuições que dá ao Brasil em todos os campos, ele quer mudar o alvo da crítica. Quer fazer parecer que não é a ele e nem ao Congresso que a crítica é endereçada, mas, mais do que aos eleitores, aos habitantes da região que dá a entender que representa exclusivamente, como se todos pensassem como ele.

Ora, os leitores conhecem Sérgio da Costa Ramos há décadas. Não começou a escrever ontem. Nas colunas e nos livros que publicou, jamais esposou qualquer preconceito, muito menos étnico ou geográfico.

Este detalhe é indício de tumor que precisa ser lancetado antes que se alastre e dê maus exemplos. Do contrário, justamente do Parlamento (e de alta figura que o estava presidindo no dia de sua resposta) viria uma tremenda e pavorosa lição: a de que façam o que façam, parlamentares não podem ser criticados.

Se o forem por um dublê de escritor e colunista, que saiba manejar as armas da ironia e da verve, tanto pior. Se esse colunista está radicado fora do Rio ou de São Paulo, pior ainda. Se não publicou sua coluna num dos grandes jornais nacionais, aí, sim, a coisa fica preta, pois seus algozes poderão pensar que o atingido não tem defesa no exercício de sua liberdade de escrever sem temer a perda do emprego.

É direito do deputado enviar sua carta, seu direito de resposta, pois a controvérsia é saudável e o contraditório marca a democracia. É estranho, porém, alistar seus conterrâneos nas tropas que pensa manobrar em defesa de privilégios parlamentares que dão engulhos insuportáveis em qualquer cidadão.

Se o colunista fizesse jus à remuneração mensal extra que criticou (R$ 37.620), ele incomodaria os poderosos do mesmo jeito. Quem escreve, não pode abdicar da liberdade. O deputado disse em entrevista que a Constituição não permite devolver o ganho extra que escandaliza o país. Ela também ainda impede a mordaça.

Como nos contos de fada, entretanto, houve um final feliz, pois o juízo final coube aos leitores. Sérgio da Costa Ramos criticou o deputado. Este, exercendo o direito de resposta, replicou. E Sérgio fez a tréplica. E, ao contrário do deputado, não tentou fazer com que os alvos das críticas fossem os conterrâneos do colunista. Não. Nem os nordestinos e nem os catarinenses estavam ou estão em guerra.

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