Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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DOSSIê MURDOCH - PARTE 2 >

O descrédito da imprensa e os jornalistas

Por José Cleves em 29/11/2011 na edição 670

O momento vivido pela imprensa brasileira não é bom em todos os aspectos, devido à falta de credibilidade de nossos veículos de comunicação. Não é só a imprensa que está na lista negra do povo. Até os Correios, sempre muito acreditados, hoje não merecem mais a confiança de antes.

O descrédito é geral. Antigamente, as pessoas acreditavam nas instituições e nos seus superiores. Toda autoridade ou profissional de certa linhagem, ainda que de uma insignificante repartição ou profissão, era chamada de doutor, tinha status e argumentos crédulos porque fazia parte da cultura da família brasileira respeitar os mais graduados. As pessoas mais velhas, pelo simples fato de serem idosas, eram respeitadas e a hierarquia familiar determinava que tios, avós, pais e padrinhos deveriam ser ouvidos. Essa coisa funcionou assim no Brasil até que duas instituições – a política e a polícia – resolveram estragar tudo.

A batata da polícia começou a assar quando ela passou a servir à ditadura. Batia porque mandavam. Depois, tomou gosto pela coisa e passou a bater por prazer e, finalmente, bate e mata para ganhar dinheiro. Com a política aconteceu o inverso. Tolhido de fazer o que o povo mandava, por conta do regime de exceção, o político brasileiro se acostumou a não cumprir as suas obrigações e caiu na vagabundagem. Enfiou as mãos pelos pés. É corrupto por natureza. O sistema ficou tão viciado que fez do vaticínio de Rui Barbosa uma profecia: o político de hoje tem vergonha de ser honesto. Algo parecido com o comportamento dos jovens moderninhos dos anos 1970, que não tinham coragem de falar que não fumavam maconha porque isso era caretice.

Moral da história: o errado virou coisa normal no Brasil.

Emocional a mil

Infelizmente, os donos da imprensa entraram na dança e hoje não negam fogo a políticos corruptos: vendem a opinião por dinheiro. É bom que se diga que a opinião de um jornalista não pode ser comparada à de um cidadão comum, que fala o que quer e o que pensa, pelo fato de ser este é um direito sacramentado pela nossa Constituição. A opinião do jornalista é multiplicada pelo poder de penetração do veículo em que ele trabalha, de modo que o que ele escreve ou fala forma opinião, pois se trata de um profissional da comunicação que tem o dever de se informar para informar bem o público.

Aos olhos e ouvidos do leigo, presume-se que a imprensa e, consequentemente, o seu comunicador, são competentes o bastante para opinarem sobre a notícia. Esta é a grande responsabilidade da classe jornalística que, infelizmente, não tem correspondido à altura. O meu grande temor, como profissional rodado, já aos 61 anos de idade, é que o mal que hoje aflige mais de 90% dos veículos de comunicação de massa do país, contamine toda a classe jornalística.

Já não bastam as reportagens malfeitas, as matérias apressadas, mal apuradas, sem o devido contraditório ou reconstituídas conforme o salário que se recebe. A coisa piorou quando a televisão passou a adotar espaços de opinião na fala de seus âncoras. O apresentador dá a notícia e a seguir opina. Claro que o Ibope aumentou porque se a notícia é polêmica e o cara atiça a coisa, o emocional do público vai a mil e essa interatividade telepática, do tipo, “o cara falou o que pensei”, arrebenta. No rastro disso, vieram os Datena da vida levantando o Ibope da empresa para disparar o faturamento.

A sobrevivência digna

Esse mal atingiu também os impressos, ao veicularem notícias bombásticas – e convenientes – desacompanhadas de uma opinião equilibrada – aquele espaço crítico onde o jornalista reconhece que o jornal tinha que informar o público do ocorrido, mas é bom anotar que os fatos ainda estão em apuração e coisa e tal. Pode até o articulista ser mais incisivo em suas considerações. Até porque se ele tem espaço no veículo é porque é competente.

O importante é que o profissional seja autêntico. Ou seja, escreve ou fala o que pensa, com base no que apurou e nas suas convicções, sem desvirtuar os fatos para atender o interesse privado em detrimento do público.

A minha maior preocupação é que esse efeito dominó derrube a classe jornalística que tem a obrigação de fiscalizar o poder constituído. Não podemos vergar diante desse descalabro, sob pena de colocarmos em risco a nossa democracia. Já escrevi neste espaço que os hábitos de vida de um jornalista devem ser metódicos e bem reservados. É preciso ser arisco, fugir dos assédios, evitar dividir segredos com autoridades e ter coragem para dizer a verdade porque a independência é tudo na vida de um repórter.

Depois de tudo que passei na vida, sempre servindo a notícia, posso dizer do fundo da alma que o investimento na independência jornalística é algo que compensa, não apenas para satisfazer o ego, mas para a sobrevivência. Se hoje tenho espaço no Observatório da Imprensa – que namoro deste a sua criação, pelo Alberto Dines – é porque sou um profissional confiável.

Para fechar o assunto, devo dizer que trato dos meus filhos com um jornal que praticamente me foi doado por um amigo rico para que eu pudesse continuar a minha vida de repórter independente. Ficamos seis meses rejeitando publicidade oficial, no vermelho total, para demonstrar que estávamos, de fato, a serviço do interesse público.

Isso me dá mais do que satisfação pessoal: é a minha sobrevivência digna.

***

[José Cleves é jornalista, Belo Horizonte, MG]

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