Sábado, 14 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O dia seguinte não demorou

Por Alberto Dines em 20/10/2009 na edição 560

Apenas duas semanas depois da explosão de alegria, a hora da verdade. A decisão de apresentar a candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 foi temerária, arriscada, imprudente. No sábado (17/10), a realidade escancarou-se quando o helicóptero da Polícia Militar do Rio foi abatido pelos narcoterroristas na Zona Norte do Rio.


A mídia internacional não poderia perder um prato desses: com raríssimas exceções todos noticiaram a batalha do Morro dos Macacos e lembraram a recente escolha da Cidade Maravilhosa pelo Comitê Olímpico Internacional.


Imperioso relembrar que o grosso da mídia brasileira embarcou na quimera de que dentro de sete anos o Rio será uma cidade absolutamente segura. Apenas dois jornalistas, Juca Kfouri e Janio de Freitas, tiveram a coragem de manifestar-se antes da votação contra a candidatura carioca.


Nossa mídia é basicamente torcedora e não se diferencia do torcedor que consome suas informações e impulsos. Cautela é uma palavra eliminada dos manuais de Redação. Ceticismo é um conceito banido há anos porque ‘não vende’, não provoca estímulos às vendas. O jornalismo neste início do século 21 tornou-se essencialmente vendedor. Não é uma indústria, é um comércio de ilusões.


Ameaça principal


Quando o jornalista americano Jon Lee Anderson ousou descrever na prestigiosa New Yorker o sub-Rio que ele conheceu, foi linchado como ‘gringo’ a serviço da candidatura de Chicago [ver remissões abaixo].


A ousadia e força do narcoterrorismo paulista não é menor. A imprensa paulistana é que não gosta de lembrar esta evidência. Cerca de dez dias antes da derrubada do helicóptero perto de Vila Isabel, bandidos atacaram com uma metralhadora pesada um carro-forte e roubaram mais de um milhão de reais, em São Paulo. Foram ainda mais ousados e competentes do que os colegas além-Paraíba: retiraram o vidro traseiro de um carro comum e assim puderam atingir o carro-forte como se estivessem num carro de assalto. Os jornais paulistanos registraram o episódio com discrição e não o lembraram ao noticiar a derrubada do helicóptero.


A profissão de jornalista está seriamente ameaçada e não apenas pelos censores, togados ou não: a decisão dos meritíssimos do STF em ‘universalizar’ o exercício da profissão está sendo incorporada pelos próprios profissionais ao relaxarem seus padrões de exigência e seus compromissos públicos em defesa da sociedade.


O jornalismo oba-oba, torcedor e xenófobo, abateu o helicóptero da polícia carioca e explodiu o carro-forte de um banco paulistano. Ele é a principal ameaça aos Jogos Olímpicos de 2016.

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