Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & POLÍTICA

O disse-que-disse da TV Globo

Por Gilson Caroni Filho em 04/02/2008 na edição 471

A cobertura dada pela TV Globo ao depoimento do publicitário Marcos Valério, acusado de ser o principal operador daquilo que a imprensa chama de ‘o esquema do mensalão’, merece um breve registro sobre o tipo de jornalismo praticado pela emissora da família Marinho.

Estamos diante de um noticiário que, objetivando reforçar axiomas, abre espaço para temas repisados, subtraindo qualquer coisa que contrarie a coerência interna das premissas construídas para ‘explicar’ crises políticas recentes. É o reforço necessário para reiterar o dogma da ‘infalibilidade global’.

Trata-se de um jogo de espelho que, confundindo o leitor/telespectador, busca colonizar o seu imaginário através de representações simplificadoras. É o que chamamos de persuasão pelo reducionismo. Um procedimento que tem marcado a prática narrativa do campo informativo de tal forma que, aos profissionais mais jovens, já afeitos à ideologia do jornalismo de mercado, soa com ‘operação técnica’ admissível.

Em seu clássico Ideologia e técnica da notícia, Nilson Lage chama a atenção para dois aspectos constitutivos básicos que não devem ser esquecidos quando se busca uma definição correta da produção noticiosa: a) ‘uma organização relativamente estável, ou componente lógico’; e, b) ‘elementos escolhidos, segundo critérios de valor essencialmente cambiáveis, que se organizam na notícia – o componente ideológico’.

Omissão de dado crucial

O telejornalismo global ilustra bem como se dá a seleção de elementos e como eles conformam proposições seqüenciadas pelos interesses políticos do veículo. Mostra, com clareza cristalina, a que estão sujeitos os que já foram condenados pelo tribunal midiático, sem qualquer direito a apelação em colunas ou editoriais.

Interrogado pela Justiça Federal, em Belo Horizonte, Marcos Valério disse, como registra a Folha de S.Paulo (2/2), que ‘que nunca conversou sobre empréstimos com o ex-presidente do PT, José Genoíno, nem tratou do tema com Dirceu, cuja trajetória política disse respeitar e admirar’. Não está em questão a credibilidade ou não do depoente, mas o objeto do fato noticiado.

Preferindo omitir esse trecho do depoimento, o Jornal Nacional de sexta-feira (1/2), informa que ‘segundo Marcos Valério, o ex-secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, disse a ele que o ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, sabia dos empréstimos ao PT’. Mas, tal como destaca o ex-ministro em seu blog, a edição se esqueceu de um dado crucial: Sílvio Pereira nega que tenha dito qualquer coisa.

Ideologia tosca

O ‘disse-que-disse’ e a supressão de algo favorável a um desafeto político não constam das boas regras de cobertura jornalística. Corroboram mais ainda a tese que aponta para a crescente partidarização da imprensa, com destaque para a emissora hegemônica e monopolista.

É sempre bom destacar que o contexto da notícia se dá em lugar, espaço e tempo definidos. Relatos que prescindem de exigência de demonstração têm sentido no campo religioso. Quando se trata de jornalismo, é procedimento ideológico tosco. E de eficácia duvidosa.

******

Professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/04/2009 Maria Yznel

    apenas avisar que está dando erro na pagina.

  2. Comentou em 10/02/2008 Fernando Pinto

    Vejo que o Marsallis leu melhor e se deu conta de que, até para ser reacionário, é preciso reconhecer a qualidade de um artigo. É a melhor forma de combatê-lo. Caso contrário, cai no discurso oco da mídia-partido.

  3. Comentou em 07/02/2008 João Marsallis

    Já deu para perceber que há certos pit bulls aqui que não toleram opiniões que não se amoldem ao jogo de espelho deles. Deveriam,antes de sair à caça, tomar um banho de democracia, pois não é rosnando que irão impor suas idéias.Bem tacanhas,por sinal.O sr Pinto,por exemplo,que se diz jornalista, mal dá para entender o que ele escreve.

  4. Comentou em 06/02/2008 Fernando Pinto

    Parece que uma leitura apressada foi feita pelo sr Marsallis quando afirma que ‘ Atacar a Globo a pretexto de defender o Marcos Valério ‘. Basta ler o artigo para ver o autor afirmar’Não está em questão a credibilidade ou não do depoente, mas o objeto do fato noticiado’ Ler com vagar é a melhor forma de leitura.

  5. Comentou em 05/02/2008 Gilberto Piho

    ‘O ‘disse-que-disse’ e a supressão de algo favorável a um desafeto político não constam das boas regras de cobertura jornalística. Corroboram mais ainda a tese que aponta para a crescente partidarização da imprensa, com destaque para a emissora hegemônica e monopolista’. Quem acha que os pequenos desvios são menos danosos que os grandes é co-autor da Globo. Não se trata de simpatia por essa ou aquela pessoa, mas não cabe ã TV editar a seu bel-prazer os fatos. Mas, justiça seja feita, sempre que a ela procurou noticiar com um mínimo de isenção, seus fãs mais ardorosos promoveram uma gritaria ensurdecedora em cartas e comentários de blogs ligados à oposicão acusando a GLOBO DE DEFENDER O GOVERNO DO LULA. ESTÁ EXPLICADO PORQUE SÀO’ADMIRADORES FIÉIS’

  6. Comentou em 05/02/2008 Gilberto Piho

    ‘O ‘disse-que-disse’ e a supressão de algo favorável a um desafeto político não constam das boas regras de cobertura jornalística. Corroboram mais ainda a tese que aponta para a crescente partidarização da imprensa, com destaque para a emissora hegemônica e monopolista’. Quem acha que os pequenos desvios são menos danosos que os grandes é co-autor da Globo. Não se trata de simpatia por essa ou aquela pessoa, mas não cabe ã TV editar a seu bel-prazer os fatos. Mas, justiça seja feita, sempre que a ela procurou noticiar com um mínimo de isenção, seus fãs mais ardorosos promoveram uma gritaria ensurdecedora em cartas e comentários de blogs ligados à oposicão acusando a GLOBO DE DEFENDER O GOVERNO DO LULA. ESTÁ EXPLICADO PORQUE SÀO’ADMIRADORES FIÉIS’

  7. Comentou em 04/02/2008 Carolina Dias

    Eu parabenizo o autor e lanço uma questão para todos os articulistas do Observatório. Não estaria a degradação da nossa imprensa inserida na degradação mais ampla, de ordem moral, que atravessa o país desde a chegada do pensamento neoliberal? Acho que vale a pena pensar.

  8. Comentou em 04/02/2008 Carlos N Mendes

    Demônios e detalhes, na telinha da Globo. É quando uma metade (a metade que interessa) vira um inteiro. Meia verdade é uma mentira inteira ? Quando você descobrir, José Dirceu talvez esteja fazendo outra plástica em Cuba, ACM ressuscitou e José Serra já terá assumido o que é dele por herança. Paulo Henrique Amorim foi muito feliz quando cunhou o termo PIG.

  9. Comentou em 04/02/2008 Carlos N Mendes

    Demônios e detalhes, na telinha da Globo. É quando uma metade (a metade que interessa) vira um inteiro. Meia verdade é uma mentira inteira ? Quando você descobrir, José Dirceu talvez esteja fazendo outra plástica em Cuba, ACM ressuscitou e José Serra já terá assumido o que é dele por herança. Paulo Henrique Amorim foi muito feliz quando cunhou o termo PIG.

  10. Comentou em 04/02/2008 Fernando Pinto

    Êpa! Olha a Globo de calças curtas de novo. O autor está afiado, já pegou a Folha e a Globo. Abre o olho, Estadão……

  11. Comentou em 01/01/2007 marcos aurelio carneiro

    Sun, 31 Dec 2006 09:58:04 -0300 (ART)

  12. Comentou em 01/01/2007 marcos aurelio carneiro

    Sun, 31 Dec 2006 09:58:04 -0300 (ART)

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem