Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

O economista fake de Wall Street

Por Luís Nassif em 20/03/2007 na edição 425

É infinita capacidade de personagens de mercado criar fatos falsos e ciência fake. Esta semana esteve no Brasil Jim O’Neill, chefe da divisão de pesquisa econômica do banco de investimento Goldman Sachs.

Foi apresentado ao distinto público como criador do termo BRIC (grupo de países formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China).

No meu Blog, o leitor André Araújo, autor de livros relevantes, desmentiu a autoria. BRIC é apenas um acrônimo, não um conceito. E o conceito de grandes países emergentes foi criado por três eminentes professores da Yale University, Robert Chase, Emily Hill e Paul Kennedy, o primeiro professor de economia e os outros dois de História, em um famoso artigo publicado no número de Janeiro/Fevereiro de 1996 da Revista ‘Foreing Affairs’, a mais respeitada dos EUA em assuntos internacionais.

Em cima de uma falsificação histórica, O’Neill ganhou autoridade para falar o que ganhar e ganhar tons de oráculo.

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Em relação ao crescimento, disse que até 2050 o Brasil passará os grandes países crescendo apenas 3,5% ao ano. E que não deveria haver obsessão com o crescimento do PIB. Ora, se crescesse a 5% ao ano, em vez de 40 anos se alcançaria a mesma marca em 28 anos. Se crescesse a 7% ao ano (como em outros tempos) levaria apenas 20 anos.

Não se trata apenas de corrida de obstáculos. Significaria que em 20 anos o país poderia ter um padrão de vida que, com o crescimento a 3,5% ao ano, levaria 40 anos para obter.

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Não apenas isso. O’Neill teve a ousadia de afirmar que um câmbio a R$ 2 (suficiente para arrebentar com muitos setores empregadores e mão-de-obra, ‘não é necessariamente ruim para as exportações brasileiras’. Como fazer? Simples: basta fazer como a economia alemã, que investiu em produtos de alto valor agregado e tem vendido cada vez mais para a Índia e para a China. ‘Para certos produtos, o câmbio não é um fator de impedimento´´, diz.

A questão central é: o Brasil dispõe desses produtos? Todos esses países cresceram, inicialmente, apostando em uma moeda competitiva. Depois de enriquecer com o câmbio desvalorizado, passaram a investir em produtos de maior valor tecnológico, e puderam conviver com moeda nacional apreciada.

Como é que um gênio da lâmpada desses apresenta como alternativa para o Brasil algo de que ele não dispõe? E como os entrevistadores aceitam esse tipo de argumento primário, que depõe contra a própria inteligência da mídia?

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Em relação ao que ele chama de ‘obsessão’ de certos setores com o crescimento do PIB, foi curto e grosso como um bom ianque: ‘A manutenção das metas de inflação parece ser mais importante, pois vai garantir segurança para o investidor no longo prazo´´. Nada contra, desde que fique bem claro o que ele colocou: é bom para o investidor.

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No fundo, O’Neill representa um tipo específico de economista que é replicado no país. São pessoas que utilizam o conhecimento especificamente para defender interesses específicos – nada contra. O problema maior é o tratamento conferido por parte expressiva da mídia, de considerá-los além das chinelas. A maior parte não é respeitado pela academia, não tem obra teórica relevante. E o que dizem servem exclusivamente para que analistas de verdade entendam os humores do mercado.

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Jornalista

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