Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > CASO ISABELLA NARDONI

O espetáculo do júri

Por Luciano Martins Costa em 23/03/2010 na edição 582

Os jornais de terça-feira (23/3) procuram reproduzir o que foi o primeiro dia do julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Trotta Jatobá. Eles são personagens centrais no caso do assassinato da menina Isabella, que foi atirada do sexto andar de um edifício em São Paulo, no dia 29 de março de 2008.


A imprensa escrita não tem como competir em emoções com o rádio e a televisão. Também tem menos recursos para reproduzir o escândalo, o mau gosto e a exploração do emocionalismo que marcaram praticamente todo o dia em que se instalou o júri no Fórum de Santana, zona norte da capital paulista.


Na falta de informação de verdade, âncoras, apresentadores e repórteres de rádio e televisão disputaram até vendedor de amendoim. Palpiteiros de todo tipo pontificaram no noticiário em busca do seu quinhão de celebridade.


O noticiário é homogeneamente dramático e, nos jornais, a tentativa de dar alguma objetividade à cobertura resvala a todo momento para o contexto inevitável: uma criança é assassinada e seu pai é um dos principais suspeitos. No mais, as opiniões de juristas sobre a validade ou não dos tribunais de júri abrem a possibilidade de algum debate mais proveitoso sobre a aplicação da Justiça no Brasil.


Emoções inevitáveis


Os especialistas contrários ao instituto do júri argumentam que o cidadão comum é muito mais influenciável pela repercussão social de um evento a ser julgado do que os juízes togados, e que os júris podem ser manipulados antes de entrarem em confinamento para suas deliberações, sendo induzidos a prejulgamento pelo barulho feito pela imprensa.


Os especialistas favoráveis ao tribunal do júri observam que essa instituição ajuda a sociedade a entender a necessidade de Justiça e de comunicar os valores da ordem jurídica aos cidadãos comuns.


Se depender dos programas populares da televisão, difícil concordar. Se for levado em conta o esforço dos jornais, sim, alguma coisa se pode aprender da transformação do julgamento em espetáculo público.


De qualquer maneira, seja qual for o veredicto, não haverá como assegurar que a Justiça terá sido feita. A invasão do local do acontecimento por policiais sem nenhuma coordenação, a demora na lacração do apartamento, a ação indiscriminada de repórteres e populares nas redondezas podem ter prejudicado as provas periciais.


E no meio das emoções inevitáveis provocadas pelo assassinato de uma criança, a Justiça dependerá principalmente dessas evidências.


***


Ainda o petróleo


Os jornais do Rio fizeram muito barulho, mas a imprensa paulista ficou na muda. E o escândalo provocado pela emenda do deputado gaúcho Ibsen Pinheiro, que tenta mudar as regras na distribuição dos royalties do petróleo, tende a se diluir em um acordo que pode ser fechado no Senado.


No fim das contas, os quinhões de cada estado estarão assegurados, o que não significa que a população tenha o que comemorar.


Conforme já foi devidamente esclarecido neste Observatório, os recursos do petróleo não têm produzido grandes melhorias na qualidade de vida das populações que vivem nos municípios beneficiados pelos royalties, e os jornais parecem dar mais importância ao bate-boca sobre quem recebe o dinheiro do que sobre o destino desses recursos.


Da mesma forma, nada se lê sobre os cuidados ambientais que deve demandar a retirada do óleo a grandes profundidades.


Como sempre, a imprensa fica de olho nos valores econômicos e nas disputas políticas, mas esquece de questionar as responsabilidades sociais e ambientais da exploração do petróleo.




Alberto Dines:


O Rio de Janeiro está mais sossegado, o fantasma da perda dos royalties do petróleo foi embora. De repente, os ânimos serenaram, mas permanecem algumas dúvidas na novela do pré-sal: quem apressou a votação e de onde partiu a idéia de que era preciso mudar tudo em matéria de exploração petrolífera? Quem orquestrou a veemente reação da imprensa carioca à salgada emenda do deputado Ibsen Pinheiro? E por que os jornais de São Paulo não se agitaram apesar de que o estado também estivesse ameaçado de perder os royalties? Assista ao Observatório da Imprensa nesta terça-feira (23/3), às 23h, ao vivo, pela TV Brasil, em rede nacional. Em São Paulo, pelo Canal 4 da Net e 181, da TVA.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/03/2010 Igor M. Rodrigues

    “No fim das contas, os quinhões de cada estado estarão assegurados, o que não significa que a população tenha o que comemorar.” – e desde quando tender é sinônimo de assegurado? Mesmo que Lula tenha feito a primeira reunião para tentar fazer com que haja negociação sobre a Emenda, a questão não foi votada e muito menos alterada no Senado, portanto, não há nada assegurado para cada estado, e muito menos o que comemorar, pois a situação encontra-se a mesma (aprovado na Câmara)! Entendo o otimismo, e concordo plenamente quanto à crítica em cima da mídia por não mostrar onde – e se – os recursos estão sendo ou não revertidos em prol da população (afirmar categoricamente que não é incidir opinião pessoal na notícia), mas não pode se colocar o carro na frente dos bois e assim minimizar o tema. Também concordo com a crítica anterior, acrescentando que o nosso Tribunal do Júri não contribui em nada para a justiça democrática! Dificilmente os acusados sairão inocentados, mesmo que se apresentem provas inequívocas de sua inocência – e até a defesa sabe disso, já se preparando para os recursos.

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