Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 4 E 5/11/06

O Estado de S. Paulo

07/11/2006 na edição 406

THE WAY TO WIN
Caio Blinder

Os segredos das dinastias Clinton e Bush

‘Faça as contas: um Bush foi eleito presidente dos EUA em novembro de 1988. Depois veio um Clinton (dois mandatos). Na seqüência, um filho de Bush, também reeleito. Em 2008, talvez seja Hillary, a mulher de um Clinton. Lá em 2016, quem sabe emplaque Jeb, um irmão de um Bush. Até a década de 20, pode ser este troca-troca.

Pelas contas, no poder da República norte-americana por uma geração estarão as dinastias Bush e Clinton. Deus nos acuda ou que pelo menos alguém nos ajude a impedir esta corrupção política. Nas súplicas não podemos depender de Mark Halperin (diretor de política da rede de televisão ABC) e John Harris (editor de política nacional do jornal Washington Post). No seu livro The Way to Win (A Forma de Vencer ou O Caminho da Vitória), eles fazem uma análise dos ‘trade secrets’ (segredos do negócio) que permitiram a duas famílias governarem os EUA por quase 20 anos e como isto pode se alongar.

A guerra entre estas duas famílias divide e define a política americana. As duas dinastias estão tão entrelaçadas que hoje em dia – por frio calculismo político e quem sabe afeto genuíno – há ligações íntimas entre seus integrantes. Basta ver como os ex-presidentes Bush e Clinton se tornaram companheiros de causas e de viagens.

Mesmo sem esta intimidade pessoal, há familiaridade. Cada clã estuda minuciosamente as vitórias e os vexames do outro, tirando ensinamentos para aperfeiçoar as estratégias políticas e ganhar batalhas eleitorais. Na dinastia Clinton, o cérebro é o próprio ex-presidente Bill Clinton. Na família Bush, a função cabe ao bruxo eleitoral Karl Rove. Obviamente não significa, como acreditam os incautos, que George W. Bush, seja um idiota manipulado.

No jargão de Halperin e Harris, um segredo do negócio para o clã Clinton sempre foi o seguinte: como um político progressista pode ganhar o apoio de eleitores instintivamente conservadores? A estratégia é tentar embaçar as diferenças ideológicas, articulando pelo centro ou fazendo triangulação.

A família Bush aprendeu com a derrota do patriarca para o jovem democrata Clinton em 1992, quando ele foi complacente e não entusiasmou os fiéis do Partido Republicano na fracassada campanha de reeleição. O segredo do negócio Bush é ativar a base conservadora e afiar as diferenças ideológicas.

George W. também aprendeu com os fiascos de Clinton – que não honrou sua própria lição de autodisciplina no escândalo sexual – que os americanos, por mais cínicos que sejam, querem um presidente que eles possam respeitar, mesmo quando mente. Bill Clinton se dobrou à realidade quando admitiu, sem citar o nome do atual presidente, que ‘quando as pessoas estão inseguras, elas preferem alguém que seja forte e errado a alguém que seja fraco e certo’.

Claro que os segredos do negócio são esquemáticos. Ironicamente, Bill Clinton hoje está por cima e George W. Bush, por baixo. No fim das contas, um dos segredos do negócio é roubar abordagens bem-sucedidas dos rivais. Mais do que isto, é preciso absorver como o outro lado opera e prever seus lances. O livro tem um exemplo do que Hillary Clinton estaria fazendo de olho na campanha presidencial de 2008 (embora ela ainda não tenha formalizado que será candidata). Seus marqueteiros e churrasqueiros precisam se antecipar a dossiês do outro lado. Hillary recrutou o ex-presidente do Partido Democrata, Terry McAuliffe, para confrontar o marido. Bill Clinton teria assegurado que ele não tem outras Monicas Lewinskis escondidas no armário ou debaixo da mesa.

Halperin e Harris não estão aí para fazer profecias eleitorais. Por exemplo, no meio do caminho de Hillary poderá estar o meteoro Barack (quem?) Obama, o senador-sensação do Partido Democrata. E os dois autores deixam claro que a intenção não é elogiar ou condenar as práticas e convicções (ou falta de) das duas dinastias dominantes da política americana. Ambos são ‘insiders’ e protagonistas importantes do que eles próprios definem como o ‘circo de horrores’, que, além de jornalistas, inclui marqueteiros, lobistas e ativistas partidários.

Tal circo é vital para manter a hegemonia destas duas dinastias, que operam através do cuidadoso controle do estrago às suas imagens públicas, enquanto estraçalham as imagens dos oponentes. Por seu próprio título The Way to Win (Random House, 454 págs., US$ 26.95), o livro é um manual ou um guia de auto-ajuda político. Por esta razão consegue ser irritantemente didático como quando os ‘segredos do negócio’ são destacados em itálico. Mas, de fato, é um livro que infelizmente ajuda a entender como funciona o circo, algumas vezes sob administração Bush e, em outras, sob Clinton.’



ENSAIOS
Antonio Gonçalves Filho

Um Machado ainda oculto

‘Escritos ao longo dos últimos 20 anos, os ensaios que compõem o livro Por um Novo Machado de Assis, do professor inglês de literatura John Gledson, não recusam o diálogo com críticos e ensaístas brasileiros que analisaram a obra literária do nosso mais reconhecido escritor. No entanto, abrem-se para uma discussão sobre aspectos pouco explorados na literatura de Machado, especialmente a sexualidade e seu posicionamento ideológico, diverso do jacobinismo de seus contemporâneos. Gledson, doutor em literatura comparada pela Universidade de Princeton, concedeu por correio eletrônico uma entrevista exclusiva ao Estado, em que fala desses e outros temas.

Nos últimos 20 anos o senhor vem revelando aos leitores um novo e diferente Machado, escancarando, por exemplo, a sexualidade escamoteada em sua literatura. Por que os críticos brasileiros não tocam no assunto? O senhor considera a crítica literária brasileira conservadora?

Acho que, no caso específico da sexualidade, há uma combinação de dois ou mais fatores. Uma parte da crítica brasileira pode talvez ser chamada de ‘conservadora’ – veja a mistificação que Raymundo Magalhães Júnior perante a menção do estupro homossexual em Casa Velha (mas ele ao menos teve a honestidade de admitir essa mistificação). Mais importante, e mais interessante, talvez seja a própria posição de Machado perante o sexo, e as suas conseqüências para o leitor. Não esqueçamos que na época a sexualidade andava solta, aberta, nos romances naturalistas franceses e brasileiros. Há um sentido em que a atitude de Machado perante essas questões seja mais realista – o sexo é uma coisa (e na época vitoriana ainda mais) ao mesmo tempo central e escamoteado nas nossas vidas cotidianas. Não era assunto que se pudesse tratar facilmente em público. O sexo na ficção machadiana reconhece essa realidade, e quando fala, fala encobertamente – isto é, por razões realistas e ‘diplomáticas’, digamos. O curioso também (em contraste com romances naturalistas como A Carne ou Bom Crioulo, mais ‘exóticos’ nesse sentido ) é que Machado fala do nosso sexo de cada dia, coisas como a masturbação (Dom Casmurro, cap. 61), a conexão entre as necessidades emocional e sexual (Singular Ocorrência), uma pitada de sadomasoquismo para dar variedade ao casamento (Quincas Borba, cap. 71), etc. O resultado, algo paradoxal, é que sendo ao mesmo tempo um sexo corriqueiro, que faz parte da nossa vida cotidiana, e não sendo tratado como uma coisa à parte, o leitor (e os críticos) nem notam. Este fenômeno do óbvio que não se nota repete-se com muitos outros aspectos da ficção de Machado, faz parte integrante da sua ironia, e tem tido um efeito considerável na crítica (que às vezes não entende a ironia).

O senhor define a biografia de Jean-Michel Massa, A Juventude de Machado de Assis, de 1971, como a melhor escrita até hoje. Em que Massa se diferencia dos outros biógrafos do escritor?

Para responder a esta pergunta, reli rapidamente a introdução ao livro de Massa, e confesso que fiquei pasmo, sobretudo diante da franqueza dele. Massa fala, nessa introdução, das enormes dificuldades em termos de pesquisa que ele teve de enfrentar, e que o fizeram abandonar o projeto de escrever uma biografia total (parou em 1870, pouco antes de Machado publicar seu primeiro romance); da ingenuidade da crítica, na sua imensa maioria brasileira; dos mitos e lugares-comuns de todo tipo que circundam a vida do autor; das conexões ilegítimas que se fazem entre vida e obra, etc., etc. Escrever uma biografia de Machado é muito diferente que escrever sobre Jane Austen, Henry James, Flaubert ou Dostoievski, todos autores que tiveram biografias a anos-luz de qualquer versão da vida de Machado – sei disso, porque sou leitor assíduo delas. Perguntava-me o tempo todo – até que ponto as coisas mudaram? Não sejamos pessimistas demais – com o projeto Pró-Memória da Biblioteca Nacional, o acesso aos jornais da época melhorou, e muito; a própria geração de Massa, de escritores e pesquisadores brasileiros, mudou o panorama (sobretudo não nos esqueçamos de José Galante de Sousa, autor da Bibliografia de Machado de Assis, que o próprio Massa chama de ‘Bíblia dos especialistas de Machado de Assis’). Também a crítica se fez bem menos ingênua – pensemos só nas aportações de Roberto Schwarz, outras análises da obra que vão descobrindo as suas estruturas, motivações e condicionamentos fundamentais. Nossa visão da história do Brasil no período mudou, há muitos livros excelentes sobre o século 19 de que Massa não beneficiou. O panorama mudou muito. Mas, respondendo diretamente à sua pergunta, A Juventude de Machado de Assis se diferencia das outras biografias – inclusive da de Raymundo Magalhães Júnior, em quatro volumes, que lhe é posterior – pela combinação de pesquisa teimosa, ceticismo, e nítida divisão entre o homem e a obra. Sem dúvida as coisas melhoraram desde 1971, mas em termos de pesquisa sobretudo, de atenção às obras menores, de edição inclusive das obras (verdadeiramente) completas, há muito caminho a andar.

O senhor reconhece que Machado é um escritor de estatura internacional, mas que é difícil justificar isso a um leitor estrangeiro. Por que o mundo se curva a Proust e a Joyce, e não a Machado? Problemas de tradução ou de interpretação?

Andei pensando neste problema ao escrever um ensaio sobre a tradução de Machado para um concurso, e ao dar aula na UFSC em Florianópolis sobre tradução no ano passado. Há muitos fatores, e a tradução faz parte, sem dúvida – falando só do inglês, há ao menos duas traduções vergonhosas, uma de Dom Casmurro (que omite 8 ou 9 capítulos), e outra, mais recente, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, pelo famoso tradutor Gregory Rabassa, que cochilou em grande estilo. Mas as traduções dos anos 50, as primeiras, são boas, melhoráveis sem dúvida, mas boas. Não sei até que ponto a interpretação afeta a divulgação do autor – seria legal pensar que a publicação em tradução inglesa do livro de Roberto Schwarz sobre Brás Cubas afetasse, e pode ser que afete, mas a longo prazo. Para simplificar, podemos comparar Machado, não com escritores do século 20, mas com os russos contemporâneos dele. Esses escritores também vinham da periferia do mundo cultural da época, mas tiveram enorme impacto na civilização ocidental – Gogol, Turgueniev, Tolstoi, Dostoievski, Chekhov… – um dos segredos pode ser justamente o fato de serem muitos, e de Machado ser um só. Os russos se entreiluminam, podemos dizer, e o leitor pouco a pouco vai entrando nesse mundo social e político (a servidão, a burocracia, o regime autoritário…) e no âmbito cultural, de ideologias como o eslavofilismo, o niilismo, etc. Todos entraram em conjunto, vamos dizer, e um escritor reduzia a estranheza do outro. Machado não só está praticamente sozinho – nem na América Latina há nada parecido -, ele é encoberto, esconde as coisas de um jeito necessário, constitutivo podemos dizer, à ficção dele, e que dificulta a sua abordagem.’



A MORTE
Antonio Gonçalves Filho

O marco zero do ousado Bertolucci

‘Ao atingir a maioridade, o cineasta italiano Bernardo Bertolucci ganhou a chance de dirigir seu primeiro longa-metragem com roteiro do mentor Pier Paolo Pasolini (1922-1975), amigo de seu pai, o grande poeta Atillio Bertolucci (1911-2000). A Morte (La Commare Secca,1962), que está sendo lançado pela Versátil Home Vídeo, é uma estréia desconcertante. Bertolucci, assistente de direção de Pasolini em Desajuste Social (Accatone, 1961), também lançado no Brasil pela Versátil, aproveitou bem essa experiência e retratou o submundo romano segundo o espírito pasoliniano, embora com um discurso surpreendentemente maduro para um garoto de 21 anos.

O argumento original de Pasolini elege a história da investigação do assassinato de uma prostituta num parque romano. Os suspeitos são cinco párias presentes na noite do crime: um cafetão, dois garotos prontos a extorquir dinheiro de um homossexual, um pequeno ladrão que surpreende casais em pleno ato sexual e um soldado sulista e provinciano flanando pela cidade grande. Desnecessário dizer que nenhum deles assume ter visto o crime, embora sejam todos potenciais criminosos. Essa é justamente a tese de Pasolini: não existem inocentes numa cidade que empurra seus deserdados para as margens. No centro, um corpo sem vida. Na periferia, apenas almas mortas.

O fascínio que exerciam sobre Pasolini os ‘ragazzi di vita’, ou seja, os vadios de Roma, não é dividido por Bertolucci, a despeito de sua compaixão pelos desajustados. Bertolucci, filho pródigo de grandes proprietários de terra na província, aponta o dedo para esses cinco suspeitos e não livra nenhum da culpa. Mesmo que o rufião Bustelli (Alfredo Leggi) não tenha cometido o crime, é um perverso delinqüente que explora miseráveis locatários de sua amante mais velha, igualmente usada. Vagabundo por vocação, Bustelli não difere muito do larápio que rouba casais ou dos dois meninos que seguem o homossexual atrás de dinheiro. O pequeno ladrão de Bertolucci, aliás, é parente não muito distante do marginal de Mamma Roma, que Pasolini rodava simultaneamente ao filme de seu pupilo.

Bertolucci, um cinéfilo desde os 15 anos, certamente conhecia o projeto do mestre, embora insista em afirmar até hoje que ignorava o clássico filme de Kurosawa, Rashomon (1950), ao iniciar as filmagens de La Commare Secca. Sua obra de estréia guarda impressionante semelhança com o filme japonês, sobre um estupro e um assassinato relatados segundo quatro diferentes pontos de vista. Não que isso diminua a importância e o impacto de La Commare Secca. Ao contrário. Uma comparação entre os dois explica como o Oriente se distancia do Ocidente em questões éticas. Se Kurosawa fala de uma verdade subjetiva impossível de virar objetiva, Bertolucci, ainda marcado pelo ímpeto juvenil, deixa-se seduzir ocasionalmente pelo cinismo de seus jovens marginais e sucumbe a uma solução legal provisória, ao localizar o autor do crime.

Evidentemente, trata-se de uma solução fácil, uma concessão, talvez sugerida pelo produtor Antonio Cervi, que teria preferido Pasolini na direção. Isso não compromete o resultado final de La Commare Secca, econômico na compacta montagem de Nino Baragli e na interpretação neo-realista de atores anônimos. Bem diferente do filme seguinte de Bertolucci, A Estratégia da Aranha – este mais próximo de uma alegoria política godardiana (ou glaube-rochiana)-, seu primeiro filme anuncia um esteta que valoriza cenas intimistas, aparentemente fora do contexto da história. A dança entre as duas adolescentes ante a recusa dos tímidos pretendentes é apenas um exemplo, repetido anos mais tarde numa seqüência antológica de O Conformista, em que Stefania Sandrelli dança com a bela Dominique Sanda.

Muitos anos antes de a Itália se curvar ao ideal da comunidade européia e ficar com vergonha de seus dialetos, abraçando um cosmopolitismo falso, Bertolucci já falava desses acanhados e inocentes provincianos, jovens moldados pela cultura de seus pais, aparentemente impermeáveis a modismos alienígenas. Eles parecem imunes a ideologias, mas, em verdade, são as primeiras vítimas da opressão econômica que se rendem a forças políticas reacionárias como o fascismo, quando obrigados a resistir às tensões do sistema.

O testemunho verbal dos suspeitos, repleto de mentiras, contrapõe-se ao flashback em que Bertolucci refaz o itinerário verdadeiro dos cinco investigados . Sua câmera passeia pelo escuro parque romano como se seguisse os passos de mortos sociais condenados ao Hades. Logo no prólogo, o corpo da prostituta assassinada (Wanda Rocci) justifica os sonetos blasfemos e obscenos escritos em dialeto romano por Giuseppe Giocchino Belli, poeta do século 19. Parece um corpo destituído de alma, como se a alienação do físico da prostituta acontecesse também numa dimensão espiritual.

Até o título original, La Commare Secca, diz respeito a essa personificação da morte como uma entidade viva de fundamental influência sobre a evolução humana. Se a Morte é uma figura simbólica no clássico filme de Bergman, O Sétimo Selo, jogando com um cavaleiro já condenado antes do primeiro lance, ela assume, no filme de Bertolucci, o papel de guardiã das chaves do inferno, como no clássico poema de Milton, O Paraíso Perdido. Ela não é a libertadora, mas o espectro que ronda a periferia romana. É ela que prevalece na imagem final da ‘comare secca’ gravada para sempre na pedra, lembrando que a figura imaginada na Idade Média como representação da morte (um esqueleto com robe) pode ser mais assustadora que o anjo caído criado pelo Senhor no primeiro dia.

Bertolucci já realizou outros 22 filmes desde La Commare Secca. Conheceu o sucesso com O Último Tango em Paris (1972), ganhou nove Oscars com O Último Imperador (1987) e tentou voltar à velha forma com Os Sonhadores (1983), seu balanço da geração 68. Mas jamais teve tanta liberdade como em La Commare Secca. É outro bom motivo para revisitar seu marco zero.’



LUA DE MEL
João Ubaldo Ribeiro

O amor é lindo

‘Felizmente, parece mesmo que não há mais condições no Brasil para tentar virar o jogo na marra, como já aconteceu em outros tempos. O fato é que Lula ganhou a eleição com uma margem consagradora, a maioria dos votantes o escolheu, ele se confirmou presidente constitucionalmente eleito e legítimo, o único nessas condições. O resto é choro dos derrotados ou inconformados, o qual, como no futebol, é livre. Não interessam ponderações, explicações e até alegações de que o povo votou errado, coisa que muita gente tem a cara-de-pau de fazer. Não existe esse negócio de voto errado, a não ser na cabeça individual de quem pensa assim. Voto não pode ser errado, é sempre certo. Não se estabeleceu que a maioria escolhe o chefe do Executivo livremente, por voto direto e secreto? Pois foi isso o que aconteceu e não cabe a ninguém tirar onda de porreta (palavra baiana cujo uso geral acho que faz falta, porque é bem expressiva) e dar notas à performance popular, terminando por reprová-la. A discussão sobre se houve ‘erro’ na votação é meramente acadêmica e, claro, não pode ser proibida ou cerceada, mas é acadêmica e a essa condição deve circunscrever-se.

Felizmente também, certa mentalidade golpista, que ainda deixou escapar alguns gases de sua adiantada decomposição (esperamos todos, pelo menos) durante o período eleitoral, parece não ter mais terreno em que medrar. Bem verdade que o próprio PT, antes da acachapante vitória, andou querendo, de forma muito pouco convincente e até patética, invocar esse fantasma, mas não colou, está muito fora da moda. E, além de tudo, a massa de votos do presidente é tal que esse golpismo, mesmo que ainda tivesse alento, ia provavelmente dar-se muito mal. Se consideradas cabíveis, as medidas propostas contra o presidente devem ter seu trâmite normal, através das instituições adequadas. Eu sei que, no tempo em que não estava no poder, o presidente Lula era a favor, pelo menos aparentemente, ao ‘Fora FHC’, contra o qual me manifestei, como me manifestei contra o ‘Fora Lula’ que se esboçou. Continuo absolutamente contra movimentos desse tipo. Temos instituições estabelecidas, temos um ordenamento jurídico e devemos fazer tudo dentro da lei.

Até aí morreu Neves, é claro. Mas achei que tinha de repetir isso tudo, muito menos por minha causa – pois minhas opiniões sempre foram expostas aqui para quem quisesse saber delas – do que pelo fato de que parece que não entrou direito na cabeça de algumas pessoas, como as que me pediram para desancar o presidente imediatamente, clamando pela saída dele. Ou seja, preciso me cuidar, porque pensam que sou muito mais maluco do que sou. Não sei de onde alguém pode tirar a idéia (aliás, sei, mas não quero ofender ninguém) de que sabe melhor do que o povo o que é bom para ele e de querer escolher governantes dessa forma.

Estou fora dessas todas. Mas também é indispensável lembrar que, da mesma forma que a eleição não trouxe mudança alguma e sacramentou o que está aí, eu tampouco mudei de maneira de pensar e não vejo razão para mudar. Muito menos, é claro, aderi ao esquema governante, nunca aderi a esquema nenhum. Apenas não vou cometer a petulância ridícula de vir a público afirmar que o eleitor está errado e devia acatar minhas opiniões desde o começo, até mesmo para não chegar à escolha, para muitos desagradável ou inaceitável, entre Lula e Alckmin. Se estamos (não estamos, mas temos umas tinturas) numa democracia e o que vale é a vontade da maioria, o que a maioria quer é que está certo e, portanto outra vez, não existe voto errado. Temos todos direito à nossa opinião, mas não temos o direito de impô-la à maioria.

Agora, também não vou entrar nesse verdadeiro Festival da Primavera, da Flor, do Amor e das Valsas ao Luar que aparentemente se instalou. Parece assim que o presidente Lula está começando agora, que não tem quatro anos de governo nas costas, que tudo é o raiar de um novo dia, em lindo arrebol furta-cor. Até a ‘esquerda’ brasileira comemora a reeleição de seu candidato, apesar de este dizer que não é de esquerda, não saber bem o que é esquerda, nem nunca ter feito qualquer coisa de esquerda, muito pelo contrário. Quanto às ‘elites’, nem ligaram muito para a eleição e jogaram lá um candidato provinciano, sem história política nacional e sem a menor condição de ganhar. Estão muito bem servidas com Lula e, embora talvez preferissem um presidente de origem chique, de olhos azuis, alto, louro e simpático e falando 16 línguas, esse aí vem quebrando o galho dela numa boa, até alisou o cabelo e injetou botox para adequar melhor o visual ao desejável.

Dirá alguém que estou esquecendo o vasto programa social de Lula. Não, não estou, como estaria? Só que não é programa social coisa nenhuma, é a verdadeira PPP (Programa de Pobreza Progressiva), porque não está tirando dinheiro dos ricos para alimentar os pobres. Está tirando dos pobres mesmos, que pensam que barão é quem paga imposto (barão nenhum paga imposto e, quando paga, repassa), porque acham que pagar imposto é desembolsar concretamente dinheiro e não morrer em quase 50% sobre um quilo de açúcar ou de feijão. E se afana também uma boa grana da classe média, mas dos ricos nunca. Isso não é programa social, é assistencialismo mesmo e a esmola, no bom dizer de Luiz Gonzaga, vicia o cidadão.

Mas, que diabo, vamos deixar a presente nova lua-de-mel rolar, está certo, o amor é lindo, não estraguemos a festa. É verdade, fico me sentindo assim meio desmancha-prazeres, queiram por favor desculpar. Só tencionei lembrar não se tratar de começo, mas de continuação. Que dispensaria bordões novos, como ‘deixem o homem trabalhar’. Quem o estava impedindo antes?’



FILOSOFIA
Luiz Zanin Oricchio

Pílulas de sabedoria para uma vida feliz

‘Há algumas décadas, quem fazia um curso de filosofia sabia-se candidato preferencial ao desemprego. A filosofia, com o avanço tecnológico e o crescente antiintelectualismo social, era tida como a mais démodée das disciplinas. Quem iria querer estudar Platão e Kierkegaard no mundo prático que surgia pós-anos 60? Ninguém. Só um bando de pseudo-intelectuais que não tinha nada mais importante com que se ocupar.

Porém, qual não é a surpresa, quando, em pleno século 21, era da internet, dos blogs e da correria pela vida, a filosofia parece ressurgir, intacta, despertando interesse inesperado entre as pessoas. É sobre esse fenômeno que se dedica em matéria de capa a revista francesa L’Express, com um título que já entrega a conclusão: Le bonheur par la philosophie – A felicidade pela filosofia.

Segundo a revista, jamais, em toda a sua história, a filosofia conheceu tamanha popularidade. Talvez haja aí algum exagero, se pensarmos em como, na Antiguidade, a filosofia conformava a vida das pessoas e era sinônimo do próprio conhecimento, mas, enfim, a constatação da revista não deixa de ser verdadeira, em seus limites. E que limites são esses? A própria matéria responde: a popularização da filosofia se deve à sua vulgarização, em pílulas, em livros e programas de TV que mais parecem manuais de auto-ajuda que convites à reflexão. Em todo caso, tudo isso ainda continua a ser filosofia.

Essa filosofia homeopática, um ‘prêt-à-penser’, como dizem nossos irmãos franceses, chegou também ao Brasil, com o lançamento de inúmeros livros, cursos particulares e programas de televisão, que vão desde transcrições de palestras pela TV Cultura até inserções no Fantástico. É a filosofia finalmente chegando ao povo pela primeira vez na modernidade. Ou não é?

Nada mais incerto, sente-se a tentação de dizer, em especial depois de nos aventurarmos a ler alguns desses livros ou a assistir a certos ‘cafés filosóficos’ que acontecem por aí. Mas talvez mais interessante do que alimentar preconceitos elitistas, seja detectar possíveis razões do fenômeno. Uma pelo menos parece óbvia – a sociedade tecnológica trouxe muitas vantagens, mas entre elas não está o aumento da felicidade individual. O homem que consome mais, que vive rodeado de gadgets, do computador de mão ao iPod, nem por isso é mais feliz. E por que deveria ser?

Quando se pensa nisso, a cena que vem à mente é a de um filme do começo dos anos 60, 1964 para ser preciso – Oito e Meio de Federico Fellini. Na cena em questão, o cineasta Guido Anselmi (Mastroianni), se encontra, numa sauna, com um dignatário da Igreja e se queixa de que não é feliz. Ouve como resposta: ‘E quem disse a você que deveria ser feliz?’ Rigoroso catolicismo, como não se encontra mais.

Mas, como a felicidade se tornou mais que uma aspiração uma obrigação, quase um dever pessoal, é normal que as pessoas a procurem onde e como podem. No consumo? Não, porque o consumo sempre pede mais consumo, numa espiral infinita. Na própria religião? Em parte, porque a religião conforta, promete, mas num mundo laico as pessoas querem a felicidade a curto prazo, neste lado da existência e agora, se possível.

Resta, talvez, a velha sabedoria, que se ocupa de vários temas, como a possibilidade do conhecimento e as questões éticas, mas não foge também da busca pela felicidade. Por falar nisso, e a título informativo, a Nova Alexandria acaba de lançar em edição bilíngüe (latim, português) Sobre a Vida Feliz, tradução de De Vita Beata, que Sêneca escreveu nos primeiros anos da era cristã. Um trecho: ‘É feliz, portanto, quem tem um juízo reto; é feliz quem está contente com a sua sorte atual, seja ela qual for e ama o que tem; é feliz aquele para quem a razão é que faz valer todas as coisas de sua vida.’

Como não se sabe se esse é o tipo de felicidade a que aspira o homem contemporâneo, fica ainda em aberto a questão proposta pela L’Express. E que é respondida, parcialmente, através de uma série de entrevistas: ‘Jamais tivemos tanta sede de sentido como agora.’ A conclusão, parcial que seja, é das mais interessantes. Chegamos a um ponto de hiperinformação e consumo babilônico (pelo menos para quem pode). Agora temos fome de sentido. E buscamos na filosofia aplacar um pouco essa carência. Mesmo que ela nos venha diluída sob a fórmula de pílulas de sabedoria. Curioso, não?’



SÍMBOLO
O Estado de S. Paulo

Marisa põe maiô com estrela do partido

‘Depois do polêmico canteiro em forma de estrela no jardim do Palácio da Alvorada, a primeira-dama Marisa Letícia adotou o símbolo do PT como moda praia. De chapéu de palha e maiô branco com uma grande estrela vermelha na frente, ela e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomaram sol na manhã de ontem na Praia de Inema, na Base Naval de Aratu, a 40 quilômetros de Salvador.

Acompanhado de parentes e amigos, o casal está hospedado na base desde a noite de quarta-feira.

Ontem, às 9h25, os dois saíram da residência em que estão hospedados e caminharam na areia. O presidente, de camiseta branca e calção azul, passou protetor solar na primeira-dama e ainda tirou a saída de praia dela. Ontem à tarde, Lula saiu para pescar com o chefe da segurança da Presidência, general Dias.

A presença de cinegrafistas e fotógrafos no píer que fica no povoado de São Tomé de Paripe, a dois quilômetros do local em que está o presidente, chamou a atenção de moradores e freqüentadores da parte da praia aberta ao público. É pelo píer que embarcam, de 20 em 20 minutos, os passageiros das lanchas que seguem para as ilhas da Baía de Todos os Santos.

Quando Marisa foi vista pelos cinegrafistas com o maiô de estrela, os passageiros se amontoaram para tentar enxergá-la. O jogo de futebol na areia embaixo do píer parou por alguns instantes, mas sem as lentes das câmeras era impossível ver o casal. Um ambulante aproveitou o movimento para instalar barraca de buttons e camisetas de Lula e Che Guevara.

A praia é dividida por um muro. De um lado é Inema, onde fica a limpa base da Marinha. Do outro está a parte suja, de São Tomé de Paripe, lotada de ambulantes e freqüentadores das favelas próximas. Mas o mar, em ambos os lados, não é o mais limpo da Baía de Todos os Santos. Indústrias despejam resíduos e esgotos residenciais são lançados sem tratamento. A previsão é de que Lula deixe a base hoje à tarde.’



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O Estado de S. Paulo

Sábado, 4 de novembro de 2005

GOVERNO E IMPRENSA
O Estado de S. Paulo

‘Abafa’ e intimidação

‘A possibilidade de evitar que um governo populista sucumba à tentação do autoritarismo está na capacidade de a sociedade reagir, com firmeza, a todas as formas diretas ou disfarçadas de cerceamento à plena liberdade de expressão. O presidente Lula é o primeiro a reconhecer, porque tem sensibilidade para tanto, que toda a sua trajetória na vida pública dependeu, fundamentalmente, da plena liberdade que teve de expressar-se e, poderia acrescentar, da fantástica cobertura que sempre teve da mídia. Graças a Deus seu talento político pôde desabrochar em terra paulista pelo generoso espaço que sempre lhe ofertaram os veículos de comunicação. Mas, infelizmente, não é novidade alguma a liderança carismática, nascida da democracia, voltar-se contra seus próprios fundamentos – em que a liberdade de imprensa é base lapidar – quando o grau de tolerância à critica passa a estar na razão inversa da popularidade governamental.

Depois da retumbante vitória eleitoral parece que certos mentores do PT e do governo Lula não conseguiram deixar de extravasar o que lhes estava preso na garganta, ou seja: a raiva de verem o partido que se pretendia o ‘mais ético’ do Brasil submergir no mar de lama jorrado do centro de Poder da República – cuja comprovação mais evidente é o fundamentado relatório-denúncia do procurador-geral da República sobre a sofisticada quadrilha enquistada no governo e em seu partido. E, tampouco sendo isso novidade, a responsabilidade por esse revertério moral foi e tem sido, agora com mais intensidade, ultrapassada a inibição do período eleitoral, debitada à atuação da imprensa.

Péssimo seria se o governo Lula viesse a ter como marcas de seu segundo período o ‘abafa’ das investigações e a intimidação da imprensa, que foram marcas deste seu primeiro mandato. Quinta-feira falávamos aqui dos precedentes que tornaram ominosa a reação do presidente do PT às agressões de militantes do partido a jornalistas. Hoje tratamos do depoimento prestado ao Ministério Público Federal pelo delegado da Polícia Federal (PF) Edmilson Pereira Bruno, responsável pela prisão dos petistas Gedimar Passos e Valdebran Padilha – que portavam o R$ 1,75 milhão em dinheiro vivo, destinado à compra de um dossiê contra candidatos tucanos -, no qual ele reiterou a grande preocupação, de seus superiores, com o modo como o governo conduziria o caso. Disse que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, mostrou-se ‘apreensivo’ com a eventual menção, nos depoimentos, de qualquer coisa que pudesse sugerir uma ligação entre os presos e o presidente Lula e contou que em 15 de setembro, pouco antes de sair rumo ao Hotel Íbis Congonhas, onde foram feitas as prisões, recebeu do diretor da PF em São Paulo, Severino Alexandre, esta advertência: ‘Olha bem o que você vai fazer. Está mexendo com peixe grande. Tudo o que fizer será responsabilidade sua.’ Ele deveria agir como ‘o macaco que não fala, não vê e não ouve’. Além disso, Bruno conta que Gedimar e Valdebran quiseram – e conseguiram – alterar as declarações que fizeram quando foram presos no hotel.

Também deixou claro, o delegado, que o diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, pretendia que houvesse as prisões em flagrante e as fotos da dinheirama apreendida, procedimento semelhante ao que fora feito no famoso caso dos dólares na cueca. Mas o ministro da Justiça não concordava com isso porque estava preocupado com os riscos à campanha reeleitoral do presidente, enquanto o diretor-geral mais pensava em preservar a imagem institucional da Polícia Federal.

O ‘abafa’ de investigações e intimidação de investigadores são formas interligadas de tentar ‘proteger’ o governo da opinião divergente, do contraditório, da crítica e, sobretudo, do direito de a sociedade ser informada em relação aos que a governam, quaisquer que sejam os temas, sob exame, de interesse público.

Em outras palavras, o que o delegado da Polícia Federal Edmilson Pereira denuncia em seu depoimento é também uma forma de cerceamento da liberdade de informar. Uma confirmação das ameaças explícitas contidas nas palavras de Marco Aurélio Garcia, concitando os jornalistas à ‘auto-reflexão’ sobre a divulgação dos escândalos petistas durante a campanha eleitoral, assim como no projeto petista de ‘democratização dos meios de comunicação’.’



ENTREVISTA / JOSÉ SARAMAGO
Antonio Gonçalves Filho

‘Eu fui salazarista’

‘Em ensaio autobiográfico, o escritor português Saramago, Nobel de 1998, assume ter pertencido à Mocidade Portuguesa que apoiou Salazar

A aldeia chama-se Azinhaga, mas nada ficou dela além do escritor português que lá nasceu, José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, que comemora seus 84 anos no próximo dia 16 com o lançamento de As Pequenas Memórias (Companhia das Letras, 138 págs., ainda sem preço definido), pequeno ensaio autobiográfico em que revela ter pertencido, aos 14 anos, à Mocidade Portuguesa, ou seja, à juventude salazarista que apoiou o ditador português. Solidário com outro Nobel, o alemão Günter Grass, que confessou, na autobiografia Beim Hauten der Zwiebel (Descascando a Cebola), ter pertencido à Juventude Hitlerista, Saramago concedeu, por correio eletrônico, uma entrevista ao Estado, em que explica sua adesão compulsória à Mocidade Portuguesa, que apoiava Salazar.O episódio está descrito na página 131 da pequena autobiografia, que conta a infância e juventude de Saramago. Em 1936, quando começava a Guerra Civil Espanhola, ele, jovem estudante de uma escola industrial, leu nos jornais sobre o conflito, acompanhou o desenrolar dos combates e percebeu que estava sendo ludibriado pelos militares reformados que censuravam a imprensa. Essa foi a razão por que, mandado pelos colegas ao Liceu de Camões para apanhar sua farda verde e castanha da Mocidade Portuguesa, deu um jeito de ficar no fim da fila até que se esgotasse o estoque das malditos barretes e calções de Salazar.

Na entrevista de Saramago, nesta edição, o escritor fala ainda da adaptação de seu Ensaio sobre a Cegueira pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, o aclamado diretor de Cidade de Deus. Espera dele ‘que consiga dizer com mais força’ o que tentou dizer no livro, ou seja, ‘que há demasiado absurdo no modo como a humanidade está vivendo’.

O politizado Saramago também fala de seu amigo Lula, reeleito presidente. Diz que exige muito mais dele neste segundo mandato, aconselhando que abra os olhos, ‘porque era preciso tê-los fechados para não ver o que se passava no PT’.

‘Chegou a hora da minha confissão’

Saramago foi obrigado pelos colegas a aderir à Mocidade Portuguesa, mas escapou por um triz de usar a farda salazarista

O escritor José Saramago conta, em seu ensaio autobiográfico As Pequenas Memórias, a origem de seu sobrenome. Acoplado ao ‘lacônico’ José de Sousa que seu pai pretendia que fosse, Saramago foi batizado por um funcionário bêbado do Registro Civil de Golegã, e agradeceu a vida toda a ele por não ter carregado, como os outros habitantes de sua aldeia, Azinhaga, um sobrenome ‘obsceno’ como Pichatada, Curroto ou Caralhana. O pai, subchefe da Polícia de Segurança Pública, jamais admitiu chamá-lo de Saramago. Em contrapartida, o mundo inteiro repete o nome do Nobel de Literatura, que afirma, nesta entrevista ao Estado, jamais pretender escrever algo pessoal sobre sua vida adulta, por considerar ‘ridícula’ a idéia.

Em As Pequenas Memórias o senhor diz que, assim como Leandro, o senhor teve os seus toques de dislexia. O que parecia ser algo incomum entre os escritores, hoje parece muito freqüente, considerando o número de autores que confessa ter algumas dificuldades com algumas palavras. Como o senhor analisa esse fenômeno e qual a importância que ele teve em sua formação?

Os meus problemas não foram os de uma simples e passageira dislexia. O meu problema foi, e continua a ser, o tartamudeio, a gagueira. Aqueles que gozam da sorte de uma palavra solta, de uma frase fluida, não podem imaginar o sofrimento dos outros, esses que no mesmo instante em que abrem a boca para falar já sabem que irão ser objeto da estranheza ou, pior ainda, do riso do interlocutor. Com a passagem do tempo acabei por criar, sem ajuda, pequenos truques de elocução, usar os bloqueios leves como pausas propositadas, perceber com antecipação a sílaba onde irei ter dificuldades e mudar a construção da frase, etc. Curiosamente, se tiver de falar para cinco mil pessoas estarei mais à vontade do que a falar com uma só. Salvo em situações de extremo cansaço nervoso, hoje sou capaz de controlar adequadamente o meu débito verbal. A gagueira, no meu caso, passou a ser uma pálida sombra do que foi na infância e na adolescência. Aprendi à minha própria custa.

O senhor relata no livro alguns episódios de sua vida como adolescente, incluindo nele as brincadeiras com Domitília. Que importância tem e o que significa o sexo para Saramago?

O sexo é. Especular sobre a importância e o significado dele não levará a outra conclusão: o sexo é, e não só é, como tem as suas razões. Não discutamos com o sexo, ele acabará sempre por ganhar a partida. Às vezes, para justificar as nossas tentações, dizemos que a carne é fraca. E não se repara que se a carne cede é porque o espírito já havia cedido antes…

De modo geral, os escritores preferem falar de sua iniciação literária ou da vida adulta quando escrevem a autobiografia. Por que o senhor decidiu se fixar na infância e adolescência?

Nunca escreveria uma autobiografia da pessoa adulta que sou. Creio que me sentiria ridículo e desistiria logo à segunda página. A mim interessava-me a criança que fui, o adolescente que começava a ser, isto é, a pessoa em construção. Interessavam-me a ingenuidade perante o mundo, a desprevenção, a ausência de idéias feitas. E nada disto é possível encontrar no adulto.

Já que falamos de autobiografias, outro Nobel, Günter Grass, acaba de lançar a dele. Tinha dúvidas que numa autobiografia o senhor revelasse ter pertencido à juventude salazarista, algo improvável considerando suas posições ideológicas. Em algum momento o senhor sentiu simpatia pelo ditador?

Chegou a hora de fazer a minha confissão. Eu pertenci à juventude salazarista, que se chamava Mocidade Portuguesa. Pertencíamos todos: alunos da instrução primária, do ensino secundário, do ensino superior, todos sem exceção. Era, por assim dizer, automático. Digo no livro como consegui escapar a usar o fardamento e creio que essa foi a minha primeira vitória contra o fascismo. Mais não podia fazer. E para a revolução ainda era cedo.

O cinema começa a se interessar por seus livros. Como o senhor imagina um filme a partir de Ensaio sobre a Cegueira?

O livro suscita facilmente imagens no espírito do leitor, e isso seria, ao mesmo tempo, um caminho e um perigo: o de fazer do filme uma mera ilustração do romance. Mas, conhecendo, o trabalho de Fernando Meirelles como conheço, estou tranqüilo quanto a este particular, O que peço ao filme é que consiga dizer com mais força o que eu tentei dizer no livro: que há demasiado absurdo no modo como a humanidade está vivendo (e sofrendo, e morrendo) para continuarmos a suportá-lo. Mudar a vida? Sim, com a condição de que sejamos capazes de mudar de vida…

Algumas das pessoas que o senhor conheceu quando jovem, como o sapateiro Francisco Carreira, viraram personagens em seus livros. Qual o personagem que ainda não ocupou lugar em sua literatura?

Não vejo ninguém a quem pudesse utilizar nesse sentido, salvo talvez, para não sair das Pequenas Memórias, o barqueiro Gabriel, mas teria de inventar tudo, inventar-lhe uma vida que não acertaria em nada ou quase nada com o que terá sido a vida desse homem. Quanto a projetos, rodam-me na cabeça um ou dois, mas nada que valha a pena falar neste momento.

O mundo que o senhor conheceu em sua infância desapareceu ou está em ruínas. Como o senhor viu a entrada de Portugal na comunidade européia e o desaparecimento de culturas regionais em sua terra?

Não desapareceram de todo, mas aquilo e m que se vão transformando deve-se menos à influência da União Européia do que ao rolo compressor que é a globalização, da qual me atrevo a dizer que é, com todas as letras, um totalitarismo.

O senhor sempre esteve ao lado de intelectuais brasileiros engajados em lutas políticas. Como viu a vitória de Lula e o que espera desse segundo mandato?

Não preciso dizer que Lula era o meu candidato, mas também não preciso dizer que espero (que exijo…) muito mais dele no novo mandato que agora vai começar. Não discuto o seu direito de afastar-se de Hugo Chávez e de Evo Morales, mas permito-me recomendar-lhe que não vá para a cama todos os dias com o Fundo Monetário Internacional… E que não se esqueça dos problemas sociais do Brasil. Lula já deve ter percebido que o poder não só intoxica, como cega. Abra os olhos, presidente. Sobretudo não permita que fechem seus olhos. Era preciso tê-los fechados, para não ver o que se passava no PT.’



ORSON WELLES
Sérgio Augusto

Alô, cinéfilos: eis as últimas ‘verdades’ sobre It’s All True

‘O próprio autor reconhece: o título mais adequado talvez fosse Goodbye, Americans. Mas o biógrafo Simon Callow (diretor e ator inglês: era o estróina que morria de enfarte em Quatro Casamentos e Um Funeral) afinal optou por Hello Americans. Ou melhor, Orson Welles: Hello Americans (Viking, já por US$ 20,76 na Amazon). O título preterido merecia ser guardado para o próximo e derradeiro volume da trilogia, ainda em gestação, cobrindo os últimos 37 anos de vida e criatividade do cineasta americano; ou seja, de 1948, início de seu exílio europeu, a 1985.

É muito tempo de sobra para um período que só alguns críticos de duvidosa sensibilidade consideram decadente e desenxabido, logo redutível a um livro de 500 ou 600 páginas, a média dos dois primeiros volumes. Foi entre 1948 e 1985 que Welles filmou Shakespeare (Macbeth, Otelo, Campanadas a Medianoche), Kafka (O Processo) e Karen Blixen (História Imortal); tentou adaptar Cervantes (D. Quixote); atuou em O Terceiro Homem e em mais três dezenas de filmes; dirigiu Grilhões do Passado (Mr. Arkadin), A Marca da Maldade e Verdades e Mentiras; e envolveu-se em várias controvérsias. Callow rotulou Welles de ‘o homem diáspora’. Eis outro título sugestivo para o terceiro volume da biografia: A One-man Diaspora.

O primeiro, Orson Welles: The Road to Xanadu, lançado em 1995 (a edição em brochura está por US$ 12.24 na Amazon), seguia Welles do berço às filmagens de Cidadão Kane. O segundo, lançado há dois meses nos EUA, cobre sete anos: do lançamento de Cidadão Kane, em 1941, às filmagens de Macbeth, a primeira obra do cineasta sem personagens americanos, seu primeiro pé fora da América. Poucas celebridades de qualquer business foram tão bem documentadas, naquela época, como Welles. Tratado como um gênio do rádio, do teatro e da tela, quase nada do que fazia em público (e mesmo privadamente) escapava aos radares da mídia. Entre 1942 e 1948, o garotão prodígio do Mercury Theatre e da RKO não impôs limites a seu vasto e versátil talento para a arte de criar e virar notícia. Como arrumava tempo e disposição para compatibilizar suas atividades cinematográficas com a produção de discursos, artigos para jornais e programas de rádio é um mistério tão insondável quanto sua capacidade para aderir a ações políticas sem abrir mão de seus caprichos sibaríticos.

Na capa de Hello Americans Welles, 26 anos, abraça, sorridente, duas estrelinhas do Cassino da Urca: as cantoras Ademilde Fonseca (21 anos em 1942) e Elizeth Cardoso (um ano mais velha). Embora nenhuma delas seja citada no livro, a distinção tem sua razão de ser: seis dos 22 capítulos do livro são um ‘hello’ aos brasileiros; abordam os seis meses que o cineasta passou no Brasil, às voltas com o projeto pan-americano que lhe encomendara o governo Roosevelt e a monitorização à distância da parte mexicana do projeto (My Friend Bonito, sob os cuidados de Norman Foster), da montagem de Soberba (The Magnificent Ambersons) e da finalização de Jornada do Pavor (Journey into Fear), co-dirigido por Foster.

No Brasil, onde desembarcou a bordo de um clipper da PanAir no ensolarado domingo de 8 de fevereiro de 1942, Welles divertiu-se à beça, mas também sofreu um bocado. Seu séjour brasileiro foi um misto de paraíso islâmico (com todo aquele mulherio desfrutável) e um inferno shakespeariano (com mais de um Iago à espreita). O resultado final, o malfadado documentário It’s All True, ao menos de fama todos conhecem. O que dele foi salvo e transformado no longa-metragem Nem Tudo É Verdade, por Bill Krohn e Myron Meisel, será exibido pelo Telecine Cult, na madrugada (2h05) do dia 16.

Primeiro, o paraíso. Welles papou todas as coristas do Cassino da Urca que lhe excitaram a libido, mais, dizem, a cantora Linda Batista (23 anos) e a graciosa filha de 19 anos de uma camareira do Copacabana Palace chamada Emília Savana da Silva Borba, precoce atração da vida noturna carioca, que se tornaria famosa com o nome de Emilinha Borba. Callow não entra em tais detalhes. Linda e Emilinha são apenas citadas num inconveniente memorando para a RKO (produtora oficial de It’s All True) feito pelo jornalista Robert Meltzer, do séquito de Welles. Linda é apresentada como ‘a maior sambista do mundo’, que ‘canta melhor do que Carmen Miranda’ e ‘come muito’ (por via oral, esclareça-se). Emilinha, como uma morena ‘que vende, a si própria e suas músicas, com competência’.

DESCOBERTA INFANTIL

Os demais quatro do memorando são Grande Otelo (muito admirado por Welles), Pery Martins (o filho de 4 anos de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, mais tarde conhecido como Pery Ribeiro, ‘a maior descoberta infantil desde Jackie Cooper’, segundo Meltzer) e as cantoras Eladyr Porto (‘uma morena robusta’) e Horacina Corrêa (comparada a Ethel Waters).

Otelo e Pery são os únicos que aparecem em Nem Tudo É Verdade, inclusive depondo, 50 anos depois, sobre suas participações no filme de Welles: Otelo como um sambista desesperado pelo fim da Praça Onze, santuário do carnaval carioca; Pery como um menino perdido na multidão. Vemos, en passant, Vinicius de Moraes, que seguia Welles por todo canto, incensando-o sem parar pela imprensa. Pena que tenha morrido antes de Kron e Meisel iniciarem a exumação e recuperação de It’s All True e Callow começar a recolher dados para sua monumental biografia. Vinicius, equivocadamente definido por Callow como ‘inspiração’ (e não como autor) de Orfeu Negro, chegou a levar Welles a uma cinema privé de Limite, de Mário Peixoto, à qual também compareceu a atriz Falconetti, a Joana D’Arc do clássico filme de Dreyer. Welles teria dormido durante a sessão.

Callow não se refere a esse encontro. Tampouco fala do concurso de fantasias do Teatro Municipal, do qual o cineasta participou como jurado, ao lado dos jornalistas Herbert Moses (o eterno presidente da ABI) e Adalgisa Nery, do escritor José Lins do Rêgo e do pintor Cândido Portinari. Ninharias, talvez. Mas outras ninharias o livro abriga – e um corpo de jurados como aquele, nenhum concurso de fantasias jamais tivera e teria. Desprezo nenhum: o autor simplesmente desconhecia esses e outros fatos; como parece desconhecer certos brasileiros que aqui se relacionaram com Welles, como Dante Orgolini (dublê de jornalista e intérprete que acompanhou o cineasta desde os EUA), Edmar Morel (repórter que cobriu a saga dos jangadeiros retratada no episódio Quatro Homens e Uma Jangada e esteve o tempo todo ao lado de Welles em Fortaleza), o compositor Herivelto Martins, e o diretor de filmusicais e chanchadas Luiz (Lulu) de Barros, que colaborou nas seqüências rodadas nos estúdios da Cinédia.

Se submetido à implacável revisão da revista The New Yorker, o cartapácio de Callow teria se livrado de um punhado de erros tipográficos (Filuminense, surdu, avenidad, Figuereido, Magahlaes, Pessao, Itacema) e equivocadas identificações, chocantes para olhos brasileiros. A praça da República nunca foi avenida. O escritor, tradutor e jornalista Raimundo Magalhães Jr., encarregado de dar aulas sobre o Brasil para Welles, nunca foi ‘um magnata da imprensa local’.

TRATAMENTO CRIMINOSO

Callow teve acesso a uma fartura de fontes, mas sua minuciosidade não ilumina todos os pontos obscuros do relacionamento do cineasta com seus patrões e pouco esclarece sobre a parcela de culpa de Welles no desastre em que It’s All True redundou. A rigor, nada acrescenta de bombástico, ou mesmo relevante, ao que já se sabia sobre a odisséia de It’s All True e o criminoso tratamento que a RKO deu a Soberba depois da saída de George Shaefer, guardião de Welles e da integridade artística naquela produtora.

Aqui e ali, uma revelação pitoresca. Por exemplo: foi Richard Wilson, fiel assistente de Welles, quem teve sua cópia do roteiro de It’s All True perfurada por uma agulha voduísta, suposta maldição praguejada contra o filme que Welles, numa entrevista à BBC, em 1955, passou adiante como um episódio vivido por ele. Convenhamos: é pouco para as 98 páginas dedicadas aos 181 dias que o cineasta passou entre nós.

Um dos prazeres que a leitura de Hello Americans proporciona é a ressurreição de figuras abomináveis, como Lynn Shores, Charles W. Koerner e Alberto Pessoa. Depois que tomamos conhecimento de sua existência e de suas maldades, impossível não agradecer aos céus que, além de mortas, estejam, ao contrário de Welles e outros participantes de It’s All True e Soberba, esquecidas para todo sempre. Shores, diretor de produção de It’s All True, não perdia uma chance de apunhalar Welles pelas costas, boicotando seu trabalho e enviando relatórios peçonhentos para a alta direção da RKO, recebidos com regozijo por Charles W. Koerner, nêmesis e afinal algoz de George Shaefer, que se demitiu da empresa 35 dias antes de Welles arrumar as malas de volta.

Welles brilhará para sempre na história do cinema, do rádio e do teatro. De Koerner, nem nas melhores enciclopédias de cinema encontrei vestígio. Só graças a Callow fiquei sabendo que Koerner, enojado com Soberba (achou o filme lento, confuso, mórbido e pútrido), empenhou-se a fundo em mutilá-lo e destruí-lo, e, agastado com os problemas de It’s All True, ameaçou destruir a carreira de Welles no cinema (‘Que volte para o rádio’, rosnou). Seu espião no Rio, Shores, já fizera duas dezenas de filmecos sem pedigree antes de ser integrado à trupe de Welles. Cínico, reacionário e racista, suas observações sobre tudo, sem exclusão dos brasileiros, só não revoltam mais do que sua vocação para a intriga miúda e servil. Mergulhou no ostracismo depois de 1942, morrendo em 1949, com apenas 56 anos, sem direito a sequer uma nota de rodapé na história de Hollywood.

O dr. Alberto Pessoa era um burocrata do Estado Novo, a quem coube transmitir à produção do filme o desconforto do governo Vargas pelo excesso de cenas com negros e favelas rodadas pela equipe de Welles. ‘Aqui não é como nos Estados Unidos, onde se pode mostrar tudo, até as coisas feias’, ponderou o mensageiro da ditadura, deixando Richard Wilson mais perplexo do que desvanecido com o elogio à democracia americana.

Outros brasileiros Callow poderia ter acrescentado ao seu elenco de vilões. Austregésilo de Athayde, por exemplo, que aconselhou a equipe de It’s All True a dar o fora do país. Pior faria, três anos mais tarde, o indefectível David Nasser, ao mover uma campanha, nas páginas de O Cruzeiro, contra a vinda dos copiões de It’s All True para o Brasil. Nasser achava que Welles não era digno de nossa confiança, porque bebia cachaça e ‘tinha ataques sentimentais’, seja lá o que isso quer dizer.’



REALITY SHOW
Etienne Jacintho

Garota FX estréia na América Latina

‘O canal FX lança amanhã, às 23h30, o reality show Garota FX. Mas não espere um concurso de beleza convencional, em que há desfile de biquíni e traje de gala e perguntas do tipo: ‘Qual é o seu livro de cabeceira?’ O concurso vai muito além em bizarrices e coloca as candidatas em provas muito instrutivas e analisará, por exemplo, quem tem o melhor dote culinário e quem faz o melhor strip-tease. Até o vice-presidente de Conteúdo da Fox Latin America, Fernando Semensato, admite: ‘São provas machistas.’

La Chica FX, título nos outros países da América Latina, reunirá garotas do Brasil, México, Venezuela, Colômbia e Chile e o júri será formado por três homens – um solteiro, um casado e um divorciado -, que decidirão quem é a mulher mais completa. O reality tem 12 episódios com 30 minutos cada um, que vão ao ar em sei semanas.

Segundo Semensato, a Fox tem projetos em andamento e promete para 2007 episódios brasileiros de Amazing Series. A atração abordará casos policiais reais e será realizada em parceria com uma produtora local. Dois atores estão sendo escolhidos. Há projetos também de séries e animações.’



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