Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > O jornalsmo sensacionalista

O filme “A montanha do sete abutres” revisitado

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 09/09/2015 na edição 867
Texto foi produzido em coautoria com Júlio César Borges Macedo e Thiago Júlio Diniz

No filme A montanha dos sete abutres (1951), o repórter sem escrúpulos Charles Tatum, interpretado magistralmente por Kirk Douglas, após ter fracassado em grandes jornais, vai procurar emprego em um pequeno jornal da cidade interiorana de Albuquerque.

Vartaz da vesão brasileira do filme

Vartaz da vesão brasileira do filme

Lá, pretende permanecer até obter um grande “furo” para que, assim, possa voltar em grande estilo para o “primeiro time do jornalismo”. O editor do jornal, Sr. Bott, escala Tatum e um jovem fotógrafo para cobrirem o período de caça às cobras, evento tradicional da região.

Tatum, indignado com a pouca representatividade do acontecimento, percebe que não tem muitas alternativas e acaba aceitando a ordem de seu superior. No entanto, no transcorrer da viajem, eles deparam com um acidente catastrófico em uma pequena cidade vizinha, Escudero, envolvendo o dono de um velho posto de estrada, Leo Minosa, que fora soterrado em uma mina de carvão conhecida como a Montanha dos Sete Abutres.

Ambicioso, Tatum se une ao xerife e a Lorrane, esposa de Leo Minosa. Juntos, os três fazem de tudo para que o acidente se transforme em uma tragédia sensacionalista, ganhando proporções ainda maiores. Charles Tatum inicia suas tarefas, deixando claro o seu método de trabalho. Em seu primeiro contato com o editor Bott, é possível constatar na fala de Tatum a sua disposição em conseguir um grande furo, independente dos valores morais e dos meios utilizados para consegui-lo: “Cuido de pequenas e grandes notícias e se não tem nenhuma, saio e mordo um cachorro.”

Na viagem, o repórter começa a introduzir o pensamento sensacionalista na mente do inexperiente fotógrafo e o induz a pensar sobre a fama e o dinheiro que só podem ser conquistados com uma matéria que mexa com os sentimentos das pessoas. Percebe-se isso na conversa entre eles em que Tatum argumenta: “Conheço uma boa história porque antes vendia jornal na esquina e descobri que notícia ruim vende mais. Notícia boa não é notícia.” O privilégio dado aos desastres, na veiculação de uma notícia, é uma característica sempre presente no sensacionalismo, uma vez que esta linha editorial valoriza o inusitado, o chocante, o que foge à rotina, relacionando-se com o inesperado da notícia negativa.

Tatum estabelece com Minosa uma conversa na qual, de forma amistosa, consegue ganhar a confiança da vítima, prometendo a sua saída da mina e adquirindo mais informações para a sua matéria sensacional. Sabendo do poder da mídia em seduzir as pessoas para um reconhecimento a curto prazo, Tatum convence Leo a tirar umas fotos, aumentando ainda mais a encenação dramática do fato. Em pouco tempo, o público já toma conhecimento do acidente e começa a se comover com o sofrimento de Minosa retratado pelo repórter. Muitos chegam a ir ao local do acidente.

A cidade de Escudero, antes pacata, transforma-se em um centro de atração nacional. A trama de Tatum começa a originar frutos e a sua determinação torna-se ainda mais forte em produzir maiores efeitos à cena. Para conseguir tais efeitos, Tatum mostra-se disposto a fazer um pacto com o xerife da cidade e com Lorrane. Para a autoridade policial, propõe a garantia de respaldo político em sua reeleição por meio de matérias que o tornassem “herói”, pois a sua reputação era marcada pela corrupção. Em troca, este garantiria a sua exclusividade na cobertura do acidente, impedindo que outros jornalistas tivessem acesso à vítima.

Os vícios inescrupulosos de maquiar a realidade

O repórter convence Lorrane de que, com a vinda de muitas pessoas para a cidade, devido à repercussão do acidente, ela lucraria muito com a venda de guloseimas em sua lanchonete. Além disso, Lorrane, sonhando com a fama prometida por Tatum, resolve “entrar na jogada”. Com a manchete “A esposa dilacerada pela dor tentando ficar perto de seu marido”, Tatum mostra-se um grande conhecedor das técnicas sensacionalistas. O repórter mostra-se disposto, a qualquer preço, a conquistar pessoas como Lorrane para montar o seu grande circo, cujo espetáculo é o sofrimento humano: “…É assim que fica melhor e é assim que será. É o que o povo gosta. É como vou jogar!”

Tatum e o xerife aconselham o engenheiro responsável pela operação a buscar uma forma mais demorada de salvar Minosa. A equipe de salvamento começa a utilizar técnicas que possam oferecer o tempo necessário para que o jornalista engrandeça a matéria. No entanto, Minosa adoece e começa a mostrar que não resistirá ao tempo imposto e planejado por Tatum para que ele se mantivesse vivo. Tatum começa a perceber que a situação foge ao seu controle e tenta salvar de qualquer maneira a vida de Minosa.

Uma reviravolta na cabeça de Tatum passa a entrar em cena: a ética, deixada de lado devido a motivações sensacionalistas, começa a perturbar a consciência do repórter. Com a morte de Minosa, Tatum perde o seu status de jornalista de “primeiro time” e os dilemas éticos, ao longo do filme retratados em diálogos com o seu editor Bott (representante da objetividade informativa), começam a perturbar a mente do jornalista já decadente. Tatum não se identificava com o “jornalismo de cinto e suspensório” e desnudava cada vez mais a sua veia sensacionalista em confrontos morais com Sr. Boot:

“Não sou seu tipo de jornalista. Não combino com aquele quadro no seu escritório (Tell the truth/ Diga a verdade). Não ligo em fazer acordos corruptos ou inventar maldições índias e esposas tristes.”

“Isso é jornalismo de golpe baixo!”

“É direto no estômago. Interesse humano.”

Mostra-se trágico o destino do jornalista que, levado pela algazarra sensacionalista, perdeu seus princípios humanos. “O que você acha de ganhar mil dólares por dia? Eu valho mil por dia… Pode ficar comigo por nada!” – esta foi a última conclusão de Charles Tatum, jornalista decadente, sendo derrubado pelos vícios inescrupulosos de maquiar a realidade segundo a sua própria vontade.

***

Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor universitário e jornalista e o texto foi produzido em coautoria com Júlio César Borges Macedo e Thiago Júlio Diniz, formados em Comunicação Social

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