Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > JORNAL DO BRASIL

O fim de um jornal

Por O Globo em 13/07/2010 na edição 598

O Jornal do Brasil, um dos mais antigos do país – que teve a sua primeira edição impressa em 1891 –, vai deixar de circular.


A data para o fim da versão em papel será decidida entre amanhã [quarta, 14/7] e quinta-feira, disse ontem [12/7] o empresário Nelson Tanure, dono da marca. Com dívidas estimadas em R$ 100 milhões e vendo a circulação despencar, Tanure tentou encontrar um comprador para o jornal. Sem sucesso na sua empreitada, decidiu manter o jornal só na internet.


– A decisão de acabar com o papel está sendo tomada esta semana. Teremos uma decisão na quarta-feira ou na quinta-feira. Provavelmente, seremos o primeiro jornal a estar apenas na internet. É algo que está acontecendo no mundo todo – disse Nelson Tanure.


Ontem, Tanure confirmou a saída de Pedro Grossi, que ocupava a presidência do JB há apenas quatro meses:


– Eu demiti o Pedro Grossi porque ele era a favor de continuar no papel – disse.


Em carta a editores e diretores do JB, e reproduzida no site ‘Janela Publicitária’, Grossi diz que ‘Em almoço realizado hoje (ontem), na presença do Dr. Ronaldo Carvalho e da Dra. Angela Moreira, o Dr. Nelson Tanure informou que publicará na edição de amanhã (hoje) do Jornal do Brasil (JB) uma notificação assinada pela direção da empresa e dirigida aos leitores na qual explica a transposição do jornal escrito para o tecnológico. Considerando que isto contraria a razão pela qual fui contratado, solicito, sem perda de meus direitos, que o expediente do jornal e de todas as revistas não conste mais meu nome’.


Procurado pelo Globo, Grossi, no entanto, diz que só deixará o cargo de diretor-presidente do JB assim que a empresa anunciar o fim da publicação impressa.


– Enquanto tiver jornal impresso, eu continuo presidente. Quando for comunicada a transposição do papel para a internet, eu estou fora. Não fui contratado para isso – afirmou Grossi.


Para ANJ, caso é isolado e circulação crescerá no país


Segundo a sua assessoria de imprensa, o Jornal do Brasil conta com 180 funcionários, sendo 60 jornalistas, que trabalham na redação. O JB tem hoje tiragem de 17 mil exemplares nos dias de semana e de 22 mil aos domingos.


Na redação do jornal, o clima é de tristeza e nervosismo. Ontem, dois funcionários passaram mal e voltaram para casa. Até agora só foram depositados R$ 800 na conta dos empregados referentes ao mês trabalhado em junho. Ainda não houve comunicado formal sobre o destino do jornal. O diário é editado na Casa Brasil e em seu prédio anexo, no Rio Comprido. Segundo funcionários, a Casa Brasil, onde ficavam os executivos da empresa, será devolvida.


A presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio, Suzana Blass, disse que pedirá audiência com Tanure para discutir o futuro dos empregados:


– Queremos garantir uma empregabilidade mínima e o pagamentos da rescisão.


Diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, lamentou o fim da versão impressa do JB, mas fez questão de frisar que este é um caso isolado e que aposta no crescimento da circulação dos jornais no país este ano:


– É lamentável que o JB termine.


Foi um processo de equívocos empresariais que resultaram em decadência editorial. Em 2009, a circulação diária de jornais pagos no país foi de 8,193 milhões, recuo de 3,46% em relação a 2008, quando a circulação crescera 5%. Os números incluem a tiragem do JB, apesar de o jornal ter deixado a associação em 2004. A ANJ não fornece dados específicos sobre qualquer jornal.


Segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC), no primeiro quadrimestre deste ano, o setor já registrou um crescimento de 1,5%. Desde setembro de 2008, o JB não era mais auditado pelo IVC.


O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, também lamenta o processo de decadência do jornal.


– É uma notícia triste e mostra o momento nocivo por que passa o mercado jornalístico – diz ele.


Azêdo lembra que o JB era um paradigma para coberturas importantes e recorda edições memoráveis, como a de 13 de dezembro de 1968, data do Ato Institucional Número 5 (AI-5), que acabou com garantias constitucionais e deu ao presidente da República poder de fechar o Congresso. Naquele dia, o JB publicou a previsão do tempo na primeira página, dizendo que as condições climáticas eram adversas.


Nelson Tanure arrendou o JB em 2001. Entre 2002 e 2003, o empresário teve os direitos de publicação da revista americana especializada em economia Forbes no Brasil. Em 2003, arrendou o diário econômico Gazeta Mercantil. Em grave crise e com dívida trabalhista superior a R$ 200 milhões, Tanure rescindiu o contrato de licenciamento do uso da marca e devolveu o jornal a seu antigo dono Luiz Fernando Levy. Em junho de 2009, a Gazeta deixou de circular.

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