O fim do jornal centenário | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > MONITOR CAMPISTA

O fim do jornal centenário

Por Ricardo André Vasconcelos em 17/11/2009 na edição 564

O encerramento das atividades do Monitor Campista não surpreende numa cidade [Campos, RJ] que despreza sua história como se dela tivesse vergonha. Vergonha de um passado construído com base na exploração da miséria e boa-fé de um povo outrora pioneiro e guerreiro.

Nada mais previsível para uma cidade que derrubou o Trianon – um dos mais belos teatros do Brasil – e pôs abaixo o Cine Don Marcelo e o Coliseu. O que esperar de uma gente que entrega aos cupins os belíssimos solares dos Ayrises e Visconde de Araruama, a Lira de Apollo e o Hotel Amazonas, apenas para citar alguns?

O fechamento do Monitor Campista está cercado de nebulosas transações e só o tempo poderá clarear uma eventual negociata urdida nas promíscuas relações público-privadas. Oficialmente o jornal está deixando de circular porque suas despesas superam as receitas, estas últimas combalidas com a retirada do Diário Oficial da Municipalidade após um século de publicação. Se houve insensibilidade dos atores envolvidos no processo que resultou neste desfecho, ou desinteresse dos donos do jornal (Diários Associados) em garantir o funcionamento a despeito dos prejuízos, são temas que não discuto. O que me move é a indignação com a passividade e conivência de uma cidade que caminha para o abismo. E se sabe disso, pouco se importa.

Reféns permanentes

Fecha o Monitor Campista porque governantes, empresários, representantes classistas, enfim, a sociedade optou por prescindir de uma mais voz, de mais um canal de expressão. Essa gente, que se convencionou chamar de ‘elite campista’ é herdeira dos barões do café e do açúcar, aqueles que exploravam as riquezas e as gentes da planície para gozar dos prazeres da antiga capital do Império ou da Europa. Nada de novo sob o sol.

A elite remoçada substituiu a carruagem pelas caminhonetes cabines duplas e outros carros importados. Sofisticaram a exploração mas, pouco criativos, gozam dos prazeres nas mesmas plagas, além da paradisíaca Búzios, enquanto continuam exaurindo as riquezas e as gentes que sustentam suas futilidades. Aliás, não é à toa que é nas colunas sociais abundantes que se sentem ‘importantes’ de verdade.

Fechar um jornal é mais do que calar uma voz ou um canal de expressão – por menos expressivo que ele possa parecer –, porque reduz as opções de diversidade de informações, opiniões, visões de mundo. Isso é mais grave numa cidade bipolarizada e onde as principais forças de mídia representam segmentos políticos distintos, mas são antagônicos apenas nos interesses de ocasião.

É um momento grave para a democracia. Sem exagero, o fechamento do Monitor Campista não representa apenas o desemprego de 45 profissionais. É mais que isso: sinaliza que a sociedade está se lixando para a coletividade e que cada um mira o próprio umbigo como se fosse o centro do mundo, sem nenhuma responsabilidade com os graves e antigos problemas sociais da comunidade. Fingem não perceber que corremos o risco de virar reféns permanentes das quadrilhas que se revezam na tarefa criminosa de privatizar os bens públicos para reparti-los entre aliados recrutados nos mais diferentes setores que dirigem a cidade.

Retrato da sociedade

Campos fica mais pobre na mesma proporção em que a minoria de sua elite enriquece materialmente – e talvez até por isso mesmo. Muito dinheiro aumenta a tentação desde os primórdios tempos e poucos, muito poucos a ela resistem. Mas é cômodo culpar apenas os grupos políticos siameses e momentaneamente em campos opostos. Eles são fruto do meio, são o resultado da química maldita de uma sociedade que fecha jornais, teatros, cinemas e renega a própria história por um inconfessável complexo de culpa. E quanto mais se esconde, mas afunda no massapê dos canaviais também em extinção.

Uma sociedade que fecha jornais é como aquela que começa queimando livros e acaba levando pessoas às fogueiras.

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Com o objetivo de mobilizar os leitores e amigos do Monitor Campista contra o fechamento do jornal foi criado o blog da campanha ‘Viva Monitor‘. Você também pode assinar um abaixo-assinado online aqui.

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Carta pública aos Diários Associados

Nota do Sindicato dos Jornalistas do Rio, 12/11/2009

Diante do anúncio, por meio de nota publicada no Monitor Campista do dia 11/11/2009, de que os acionistas do Grupo Diários Associados discutirão em Assembleia em 23/11/2009 proposta de encerramento das atividades deste jornal, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio se fez presente em abaixo assinado solicitando especial atenção para a gravidade deste possível crime contra o patrimônio histórico campista e irreversível dano ao acesso a um jornalismo de qualidade.

Solicitamos de modo veemente que o Grupo Diários Associados reconsidere a proposta de fechamento do jornal, e se coloque de modo aberto para a sociedade campista no sentido de estudar meios para manter a sua circulação.

Um jornal de 175 anos não pertence mais somente a uma empresa. O Monitor Campista faz parte da história do jornalismo brasileiro e, particularmente, é de propriedade afetiva de todos os campistas, e também de todos os cidadãos fluminenses. Segue nota da Associação de Imprensa Campista (AIC) sobre a questão:

‘A Associação de Imprensa Campista, entidade que neste ano de 2009 comemorou os seus 80 anos, manifesta grande preocupação em relação à nota publicada hoje (11/11/09) no jornal Monitor Campista, com convocação de assembléia de acionistas, para discutir a proposta de encerramento das atividades da publicação. Esta entidade entende nem ser necessário dizer, para os seus próprios donos, o tamanho da perda histórica e cultural que esta decisão representaria para o Brasil e, particularmente, para o Norte Fluminense.

Acreditando ser porta voz não apenas de jornalistas neste anseio, mas de toda a comunidade campista, a Associação solicita da direção dos Diários Associados um tratamento mais cauteloso em relação ao jornal campista, com a manutenção dos esforços pela superação da sua crise econômica.

Um jornal de quase duzentos anos, com credibilidade inatacável e patrimônio de todos os campistas, não pode desaparecer. Nos colocamos à disposição para qualquer diálogo que contribua para a manutenção do bravo Monitor Campista.

Campos dos Goytacazes, 11 de novembro de 2009

A Diretoria da Associação de Imprensa Campista

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Editor de Política/Economia do Monitor Campista

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