Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O fogo do carnaval

Por Muniz Sodré em 15/02/2005 na edição 316

A edição do Globo da segunda-feira de Carnaval (7/2/2005) é pródiga em tópicos que merecem reflexão, quando se trata de levar mesmo a sério alguns dos problemas que atravessam as relações sociais no Rio de Janeiro.

Logo na primeira página, ficamos sabendo que a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro havia ‘brincado com fogo’, homenageando os bicheiros Maninho e Miro, patronos mortos em 2004. Pouco antes, o presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel fizera na concentração dos figurantes um discurso em homenagem a César de Andrade (sobrinho do bicheiro Castor de Andrade), atualmente foragido da Justiça.

Em seguida, na página 2, a colunista política Tereza Cruvinel tece considerações sobre o carnaval, argumentando em favor do slogan oficial ‘o melhor do Brasil é o brasileiro’ com a observação de que ‘entra ano e sai ano, entra governo e sai governo, com recessão ou crescimento, emprego ou desemprego, a festa não se abala’. Estaria aí o que de mais belo pode produzir o povo nacional, seja no Rio ou (agora) em São Paulo, mas também em outras grandes e pequenas cidades do país.

A articulista reconhece que a festa já não é mais uma expressão exclusiva dos ícones das classes subalternas (pobres, negros e moradores de morros), mas sustenta que ‘a transfiguração social das escolas de samba é uma expressão dessas sínteses e ajustes que vão ocorrendo sob a democracia, seja na construção dos modelos políticos ou dos grandes ritos simbólicos, como o carnaval. Que hoje haja nele lugar para todos é um bom, não um mau sinal’.

Tráfico e matanças

Há muito a ser dito sobre essa argumentação de natureza culturalista, geralmente referendada por cronistas de costumes (hoje numerosos nos grandes jornais), senão por scholars da antropologia cultural. É um tipo de raciocínio que tem como implícita a correspondência entre a comunidade político-social e um amplo arranjo cultural que alimenta o imaginário da comunidade nacional.

O fenômeno pode ser vivido de forma religiosa, como os islamitas, como os ideólogos do populismo em territórios os mais diversos, contribuindo sempre para validar ou suscitar a emergência de novos valores econômicos, políticos e morais.

Na lógica subjacente, há muito da ambigüidade detectada por Max Weber (vide Economia e Sociedade) no posicionamento das normas religiosas frente a problemas novos, cuja conseqüência, segundo ele, é ‘a justaposição direta de estereótipos absolutamente imutáveis e de um arbítrio extraordinário aliado à imprevisibilidade total do que realmente está em vigor’.

Em outras palavras, por trás do bom discurso sobre a democratização das classes e das etnias, agitam-se situações problemáticas para as quais a sociedade não parece ter resposta alguma, pelo menos durante um certo período de tempo. A impressão do novo encaixa-se bem na conhecida fórmula do romancista italiano Tomaso di Lampedusa (vide O Leopardo), segundo a qual é preciso mudar nas aparências para que nada realmente mude na estrutura. Algo assim como os pactos democráticos entre elites civis e militares na nossa América do Sul.

No caso brasileiro, um dos grandes problemas novos (além, claro, do desemprego crescente, da tributação escorchante, dos juros altíssimos, da degradação da saúde pública, da convulsão social no campo etc.) é o crescimento exponencial da criminalidade urbana, que já ganhou status de ‘questão nacional’.

É desnecessário repetir aqui os dados, cotidianamente banalizados nos jornais, das matanças e do avanço contínuo do tráfico de drogas sobre frações importantes dos territórios urbanos, assim como da mafialização nas próprias organizações de Estado. Grande parte da chamada sociedade civil está comprometida com tudo isso, não apenas por participação no consumo de drogas, mas também por agarrar-se à mera aparência dos fatos sociais – por comodismo, por alienação ou mera atenção exclusiva ao universo do espetáculo, convenientemente estimulado por empresas e elites dirigentes.

Velha chanchada

O quadro geral tornou-se de tal maneira complexo que não há mais pretexto cultural socialmente justificável para se separar a aura benévola do jogo do bicho (a mesma que permitia a jornalistas e a compositores exaltar a figura antropologicamente interessante de Natal, da Portela) da realidade insuportável em que se converteu o cotidiano de uma cidade como o Rio de Janeiro. Essa história de ‘ajuste democrático’ no carnaval, que faz síntese social e encontra ‘lugar para todos’ é um biombo culturalista para a realidade política da mafialização.

E não se trata de um ponto de vista atinente ao moralismo cultural de classe média. Quem se der ao trabalho de conversar com moradores das comunidades populares do Rio, vai ouvir a mesma coisa: não dá mais para conviver com o atual terror das balas, sejam do tráfico, sejam da polícia. Instalou-se nas favelas (hoje, o termo politicamente correto é ‘comunidades populares’) uma realidade que se concebe melhor nos termos do que Marx chamou de ‘modo de produção asiático’, em que um tirano exerce o seu domínio absoluto, com poder de vida e morte, sobre a população. Ali já se constitui igualmente a realidade da divisão de classes, visto que há os que enriquecem (até mesmo legalmente, por meio de um comércio próspero), à sombra do tirano e na proximidade de uma maioria muito pobre e oprimida pela força das armas.

Evidentemente, as pessoas, os trabalhadores adaptam-se às circunstâncias e conduzem as suas vidas como podem, incluindo até mesmo alguns dos ritos do calendário festivo, como o carnaval. Mas falar de democracia (étnica, social, o que seja) a partir dessa realidade é um contra-senso, que não cabe sequer na categoria que um antigo político argentino (Dante Caputo) batizou como ‘democracias pobres’.

A responsabilidade incide diretamente sobre os poderes públicos, sempre mais preocupados com as questões de Estado-governo (pagamento da dívida externa, reeleições etc.) e decididamente indiferentes à sorte do território nacional em sua concretude. Incide também sobre as próprias vítimas, vasto corpo eleitoral de uma sub-democracia capaz de votar contra si mesmo no outro rito de calendário em que se transformou a eleição dos políticos. Mas não há como deixar de fora, ao se observar a imprensa, esse discurso acrítico de um jornalismo que cada vez mais se confirma como exclusivo intelectual coletivo das classes dirigentes.

Nada a dizer sobre a qualidade técnica dos textos de colunistas e comentaristas: bom uso do vernáculo, demonstrações de alguma cultura universitária e boa afinação com o que Elio Gaspari chama de ‘andar de cima’. Mas o conteúdo (com duas ou três exceções) costuma ser muito pobre diante do que se poderia esperar de um jornalismo cívico, à beira de uma ‘chanchada-crônica’. Aliás, ‘Carnaval no Fogo’ parece-me ter sido o título de uma velha chanchada cinematográfica.

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Jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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