Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > LULA E A MÍDIA

O grande editor da imprensa nacional

Por Rolf Kuntz em 09/09/2008 na edição 502

O editor mais poderoso da imprensa brasileira é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele cita com freqüência o nome de Getúlio Vargas, mas, quando se trata de lidar com os meios de comunicação, seu mestre deve ser mesmo Jânio Quadros. Jânio, em seu segundo mandato como prefeito de São Paulo, sempre decidiu quando ocupar as primeiras páginas, ou, no mínimo, ganhar destaque no dia-a-dia. Virava notícia quando deixava a barba crescer. Virava notícia, de novo, quando cortava a barba. Quando pendurou chuteiras na porta de seu gabinete, insinuando a intenção de se aposentar, todos correram para fotografá-las. Nada precisava fazer de importante para ocupar o noticiário. Lula tem-se mostrado igualmente hábil na produção de noticiário sem fato relevante. Quem precisa de fatos, quando é tão fácil ocupar espaço nos jornais e tempo nos meios eletrônicos?


O presidente conseguiu, na primeira semana de setembro, converter num grande evento a primeira extração, ainda experimental, de óleo do campo de Jubarte, como se aquilo fosse o início da exploração dos novas áreas do pré-sal, muito maiores e de acesso muito mais difícil. Para isso, montou-se um espetáculo com ministros, comitiva política e diretores da Petrobras, todos fantasiados com macacões cor de laranja, e criou-se um palco para Lula recitar uma porção de gracinhas.


Numa de suas frases mais citadas, o presidente chamou a Petrobras de ‘mãe da industrialização do país’. A intenção – desfazer o ambiente de briga com a estatal, criado por ele mesmo nas semanas anteriores – era evidente e foi apontado pelos jornais. Mas ninguém se deu ao trabalho de examinar a própria frase, uma besteira histórica. A Petrobras não é mãe de industrialização nenhuma.


Antes dela, o governo havia criado, nos anos 1940, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e a Fábrica Nacional de Motores. No começo dos anos 1950 foi fundado o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE). Na segunda metade dos 50, enquanto a Petrobras mal engatinhava, Juscelino Kubitschek, com seu Plano de Metas, deu enorme impulso à implantação de indústrias, com ênfase especial ao setor automobilístico. Se alguém quiser ir mais longe no tempo, dê um passeio pela Zona Leste de São Paulo e reveja os edifícios de tijolos vermelhos das fábricas do início do século 20.


Sentido da mensagem


Por que os jornalistas deveriam esclarecer esse ponto, em vez de apenas citar o presidente? Por que não, se aceitaram o trabalho de esclarecer a referência da ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao Sítio do Pica-Pau Amarelo?


A disposição da imprensa brasileira de reproduzir passivamente qualquer frase presidencial – ou mesmo ministerial – deve parecer espantosa a quem ainda associa as idéias de notícia e de relevância. Basta um pouco mais de sonoridade. No dia 28 de agosto, no meio de um discurso de 18 páginas, o presidente referiu-se ao petróleo do pré-sal como um prêmio de loteria: ‘Não é porque tiramos um bilhete premiado que vamos nos deslumbrar e sair por aí gastando’, disse Lula.


Quem teve de guiar nas avenidas congestionadas de São Paulo, entre as 18h e 19h daquela quinta-feira, teve de ouvir a declaração pelo menos cinco ou seis vezes, pelo rádio, sempre fora de contexto e sem nenhuma explicação. Aquelas palavras foram reproduzidas como grande notícia nos jornais do dia seguinte, como se o presidente houvesse dito uma frase de importância transcendental.


Por que ele teria dito aquilo? Até aquele dia, o presidente, ministros e governadores haviam discutido a partilha do dinheiro – ainda inexistente – do novo petróleo, e só de fora do governo haviam surgido advertências sobre o risco de gastar antes de ter. Fora de contexto, o palavrório nada significava, mas era apresentado como proclamação de enorme importância.


Fiel à boa disposição de anotar e repetir frases presidenciais, os jornais deram destaque, também no começo de setembro, ao lembrete dirigido por Lula aos governadores: o petróleo do pré-sal, segundo ele, pertence à União, não aos estados. É verdade. Pertence à União, mas a Lei do Petróleo contém regras detalhadas para a distribuição do produto da atividade. O pagamento de royalties a estados e municípios não decorre de uma liberalidade do poder central. É um direito estabelecido em lei.


E aí: qual o sentido da mensagem, se essa lei continua em vigor? Repórteres e editores, no entanto, raramente acrescentam detalhes desse tipo à cobertura, limitando-se, quase sempre, a reproduzir as falas ou trechos das falas de autoridades. Se o leitor quiser saber algo mais sobre o assunto, ou se tiver dúvidas sobre o contexto, problema dele.


O resto é secundário


Durante algumas semanas, a cobertura, é justo reconhecer, deu espaço a discussões sobre a política do pré-sal. Nessa discussão surgiram observações importantes sobre os investimentos necessários à exploração desse petróleo e o problema do financiamento – temas inicialmente negligenciados no falatório presidencial. Mas o governo aparentemente conseguiu impor o seu discurso, produzindo fatos – nem todos importantes – em número suficiente para dominar a cobertura.


Isso não é raro e ocorre não só na área econômica. No caso dos grampos telefônicos, a imprensa tem dado muita importância a detalhes fornecidos por autoridades: o Exército tem equipamento para escuta, o ministro da Justiça apresentou um projeto de lei para aumentar a punição a quem pratica bisbilhotice ilegal, e assim por diante.


Ora, saber quem tem equipamento de escuta não é o mais importante, neste momento. Se o assunto for tecnologia, muitos investigadores particulares, daquele tipo especializado em casos de adultério, em brigas de sócios ou contra-espionagem industrial, poderão dar conferências muito proveitosas. O projeto de uma nova lei também não afeta a questão relevante neste momento.


Uma lei já existe e foi violada. Trata-se de saber quem cometeu o crime de bisbilhotar o presidente do Supremo Tribunal Federal e um senador e quem pode ter sido o mandante ou beneficiário dessa malandragem. O resto é secundário, mas esse resto vem sendo noticiado como se fosse o grande assunto.


Para o governo, e especialmente para os suspeitos, nada mais conveniente: quanto mais se cuidar dos aspectos secundários, tanto melhor.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/10/2008 Ney José Pereira

    Como a imprensa não é capaz de um só prognóstico ao País ….. , então, dá ao leitorado ….. Lula. E assim, a imprensa perde leitorado. E o tal Lula ganha ….. eleitorado.

  2. Comentou em 17/10/2008 Ney José Pereira

    Nessa mesma edição de Veja abaixo citada, à página 185 na coluna de Mainardi Diogo (por que a revista Veja inverteu os nomes de seus jornalistinhas?) Diogo Mainardi enfiou um ‘Lula’. Repito: Lula com L maiúscula e Estado com E maiúscula já!. Senão … veja!.

  3. Comentou em 13/09/2008 Ênio Marcondes Cintra

    Muito interessante um artigo sobre o Lula e a mídia, capaz de discorrer ao longo de 15 substanciosos parágrafos, sem se referir, uma única vez sequer, a um tipo de imprensa marrom (ou bruna), especializada em ofensas e calunias e que se esperava já estivesse superado há tempos. O autor dessa proeza de ‘imparcialidade’ é um sério candidato a uma vaga de colunista dessa bruna-revistinha, porta-voz dos setores mais retrógrados e preconceituosos do país.

  4. Comentou em 12/09/2008 Eduarda Alhadas

    Esse texto é a maior comprovação que o presidente Lula influência diretamente na ações da mídia.

  5. Comentou em 12/09/2008 BRENNO ROCHA

    http://WWW.NOVOJORNAL.NET o portal jornalistico independente em Minas Gerais, volta ao ar com novo endereço, vale a pena conferir.

  6. Comentou em 12/09/2008 Ney José Pereira

    O governo Lula (2003-2010) é legítimo, sim, ainda bem que é!. Aliás, não muito, pois, Geraldo Alckmin foi apenas e tão somente um não-candidato. José Serra, anteriormente, não teve nem sequer o apoio do próprio PSDB. Não só o povo (o governo Lula também é popular) mas, a própria elite (ou dona Zelite) queria mesmo era Lula. Tanto que forneceu vários capatazes ao capataz-mor deste latifúndio Brasil. Quanto ao próximo presidente ser uma mulher (petista, evidentemente), isso também não passa de outra sofistaria (agora de gênero), pois, não é a androcracia ou a ginecocracia ou a homocracia que garatem as bases da própria democracia. Por mim, quanto mais estabilidade institucional, melhor. A mim, nem me importa se o Estado Democrático de Direito e a Democracia é patrocinada pelo Lula, pelo Congresso Nacional, pelo Poder Judiciário ou mesmo pelo ‘povo’. Não e não e não!. Não sou prosélito de golpes. Nem mesmo dos golpes ‘civis’. Achei que estava ‘criticando’ a tal imprensa, que é pautada, sim, pelo Lula, inclusive desde quando ele era o ‘líder’ sindical. Agora como líder presidencial, a situação imprensática ou midiática, agravou-se. A tal ponto que a nação está com saudade de dona Marisa. Que é de dona Marisa?. Como um povo pode ficar sem ver a mulher do presidente?!. Mesmo que por um dia!. Se os companheiros quiserem discutir política ou ideologia, vamos a esses Observatórios.

  7. Comentou em 12/09/2008 Ney José Pereira

    O governo Lula (2003-2010) é legítimo, sim, ainda bem que é!. Aliás, não muito, pois, Geraldo Alckmin foi apenas e tão somente um não-candidato. José Serra, anteriormente, não teve nem sequer o apoio do próprio PSDB. Não só o povo (o governo Lula também é popular) mas, a própria elite (ou dona Zelite) queria mesmo era Lula. Tanto que forneceu vários capatazes ao capataz-mor deste latifúndio Brasil. Quanto ao próximo presidente ser uma mulher (petista, evidentemente), isso também não passa de outra sofistaria (agora de gênero), pois, não é a androcracia ou a ginecocracia ou a homocracia que garatem as bases da própria democracia. Por mim, quanto mais estabilidade institucional, melhor. A mim, nem me importa se o Estado Democrático de Direito e a Democracia é patrocinada pelo Lula, pelo Congresso Nacional, pelo Poder Judiciário ou mesmo pelo ‘povo’. Não e não e não!. Não sou prosélito de golpes. Nem mesmo dos golpes ‘civis’. Achei que estava ‘criticando’ a tal imprensa, que é pautada, sim, pelo Lula, inclusive desde quando ele era o ‘líder’ sindical. Agora como líder presidencial, a situação imprensática ou midiática, agravou-se. A tal ponto que a nação está com saudade de dona Marisa. Que é de dona Marisa?. Como um povo pode ficar sem ver a mulher do presidente?!. Mesmo que por um dia!. Se os companheiros quiserem discutir política ou ideologia, vamos a esses Observatórios.

  8. Comentou em 12/09/2008 Màrcio Xavier

    Ainda fico assustado com esses ‘jornalistas’ que acreditam que os leitores não conseguem pensar. Acorde! hoje temos vozes independentes e, cada vez mais, leitores que se dão a chance de ler várias opiniões, pensar e tirar uma conclusão de tudo isso.
    bobos? ainda existem muitos.. mas não se engane, cada vez menos bobos..

  9. Comentou em 11/09/2008 CLOVIS MODA

    Uma sugestão: ao invés de OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, Sr. Dines, deveria mudar para: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA DO RABO PRESO COM OS TUCANÓIDES…

  10. Comentou em 11/09/2008 Rogério Ferraz Alencar

    Lula até pode pautar a imprensa, mas, com certeza, não pauta a Folha. Eis a seqüência do caderno Brasil, de hoje, 11/09, que enviei ao ombudsman, perguntando se isso não é campanha para Alckmin, que tem o nome citado quatro vezes, seguidamente: ‘Eleições 2008 / São Paulo: Ao lado de Serra, Alckmin ataca Kassab
    Alckmin contrata marqueteiro que atuou em campanha de Lula
    Alckmin tem dia cheio após troca de marqueteiro
    Serra diz que não vai a debate; campanhas prevêem clima hostil entre os candidatos
    Frase
    Eleições 2008 / São Paulo: Firma de vice de Alckmin não está na OAB

  11. Comentou em 11/09/2008 edson sanches

    Acho que era para rir, para não chorar! O que vale no texto são preconceitos e ódio de classe. Estamos falando de um presidente da república e o que parece que se está lidando com um dono de boteco.
    É claro que nos (belos, como dirá o jornalista) tempo do sr. FHC a mídia não dialogava com este, mas era proveitosamente cooptada para bel prazer de ambos. Na atual conjuntura, a grande imprensa encarrega de destilar seus ódios.

    Em relação ao último parágrafo seja uma lição de sandice. Todo mundo reconhece que a produção de factóide (pois não é natural) se deva obedecer aos interesses dos poderosos não serem julgados como devem ser. Por isso a Policia Federal está na berlinda. É sempre o mesmo ódio de classe que lembra o grande livro de Sthendal, O vermelho e o Negro.

  12. Comentou em 10/09/2008 Miro Junior

    Em meio a tanta deselegância e falta de competência atualmente creio que o presidente Lula faz bem em não levar a nossa mídia a sério. Vejam só o que acontece do outro lado da praça com o Supremo Presidnte, ops. Presidente do Supremo (que nem eleito é). Não pode nem abrir a porta da geladeira que ao ver a luz acender começa a dar declarações que no outro dia vem alimentar estes que julgam Lula o ignorante. Afinal onde estão as provas de que a conversa foi realmente grampeada? Cadê a gravação?

    Soltaram duas vezes o bandido e mandaram despedir o mocinho e ainda querem que a gente acredite nesta história? Acorda moçada este elefante não vai caber embaixo do tapete.

  13. Comentou em 09/09/2008 Ivan Moraes

    ‘A reportagem, que tem o título de “Ilegalidade é freqüente”, trata da denúncia de que houve doações de mais de R$ 10 milhões à campanha de reeleição de Fernando Henrique Cardoso que não foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral’: entao porque ninguem conta agora e ja de onde sairam essas ‘campanhas eleitorais’? Porque foram todas estruturalmente importadas dos EUA. AS CAMPANHAS POLITICAS EM SUA PARTE LOGISTICA E ESTRUTURAL FORAM IMPORTADAS DOS EUA. Sem a importacao, os lobistas/espioes nao teriam como oferecer dinheiro pra tanta gente, e nao estariam infiltrados no continente todo como estao. IMPORTADAS. Foi mais uma obrigacao do governo brasileiro perante os EUA que nao deu e nunca dara certo.

  14. Comentou em 09/09/2008 Ivan Moraes

    ‘A reportagem, que tem o título de “Ilegalidade é freqüente”, trata da denúncia de que houve doações de mais de R$ 10 milhões à campanha de reeleição de Fernando Henrique Cardoso que não foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral’: entao porque ninguem conta agora e ja de onde sairam essas ‘campanhas eleitorais’? Porque foram todas estruturalmente importadas dos EUA. AS CAMPANHAS POLITICAS EM SUA PARTE LOGISTICA E ESTRUTURAL FORAM IMPORTADAS DOS EUA. Sem a importacao, os lobistas/espioes nao teriam como oferecer dinheiro pra tanta gente, e nao estariam infiltrados no continente todo como estao. IMPORTADAS. Foi mais uma obrigacao do governo brasileiro perante os EUA que nao deu e nunca dara certo.

  15. Comentou em 09/09/2008 Ivan Moraes

    1–‘Quem teve de guiar nas avenidas congestionadas de São Paulo, entre as 18h e 19h daquela quinta-feira, teve de ouvir a declaração (de Lula) pelo menos cinco ou seis vezes, pelo rádio, sempre fora de contexto e sem nenhuma explicação’: porque voce nao reclama com Serra? Nao eh esse o contexto e a explicacao? 2–‘presidente conseguiu, na primeira semana de setembro, converter num grande evento a primeira extração, ainda experimental, de óleo do campo de Jubarte’: ‘Cara Petrobras/ Voce ta boa?/ Sim, muito obrigado./ A gente queriamos saber o quao ‘esperimental’ esse campo de Jujuba ta suposto a ser porque a gente ainda nao descobrimos como foi que a Petrobras mentiu para os brasileiros e deixou Lula na mao de calango com cara de aproveitador igualzinho qualquer tucano./ Muito obrigado./ Um beijo./ Ivan Moraes’

  16. Comentou em 09/09/2008 Ivan Moraes

    1–‘Quem teve de guiar nas avenidas congestionadas de São Paulo, entre as 18h e 19h daquela quinta-feira, teve de ouvir a declaração (de Lula) pelo menos cinco ou seis vezes, pelo rádio, sempre fora de contexto e sem nenhuma explicação’: porque voce nao reclama com Serra? Nao eh esse o contexto e a explicacao? 2–‘presidente conseguiu, na primeira semana de setembro, converter num grande evento a primeira extração, ainda experimental, de óleo do campo de Jubarte’: ‘Cara Petrobras/ Voce ta boa?/ Sim, muito obrigado./ A gente queriamos saber o quao ‘esperimental’ esse campo de Jujuba ta suposto a ser porque a gente ainda nao descobrimos como foi que a Petrobras mentiu para os brasileiros e deixou Lula na mao de calango com cara de aproveitador igualzinho qualquer tucano./ Muito obrigado./ Um beijo./ Ivan Moraes’

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