Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1045
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O jornal que não se engana

Por Mário Augusto Jakobskind em 31/03/2009 na edição 531

O Globo, para variar, deu mais uma demonstração do tipo de jornalismo que pratica. Na antevéspera da passagem dos 45 anos do golpe de Estado que derrubou o presidente constitucional João Goulart, a edição do domingo (29/3) estampava como principal chamada ‘SNI: Brizola e César recebiam propina de empresas de ônibus’. Na sustentação da manchete, o jornal assinalava: ‘Arapongas acompanharam governo dia a dia. Bicheiros também davam dinheiro’.

É sabido que não poucos brasileiros fazem a leitura dos jornais nas bancas e quiosques espalhados pelas cidades. Não foi à toa, portanto, que O Globo, que nunca morreu de amores por Brizola, estampava essa manchete, de forma a fazer com que os leitores concluíssem que o fato era uma ‘verdade’. Trata-se de um jornalismo desonesto e que não esconde o ódio político a Brizola desde antes de 1964.

Na matéria de página inteira (3) dos ‘arquivos da ditadura’, a manchete assinala ‘SNI: Brizola e César faziam caixinha’, de alguma forma reforçando a indução da manchete da primeira página. Só que a matéria em si praticamente entra em choque com as chamadas. Para disfarçar, a edição da página 3 apresentava um subtítulo ‘Depois, frota encampada’. E isso para revelar que o SNI, em dezembro do mesmo ano, afirmava o recebimento da propina, sem nenhuma comprovação que valesse a manchete que acusava Brizola e César Maia, enquanto o então governador encampava 16 empresas que controlavam 30% da frota do estado.

‘Contradição nos fatos’

Na ocasião, além de acusar Brizola pela ‘onda de violência’ que se abatia sobre o Rio, O Globo fazia duras críticas pela medida adotada pelo governo do estado de encampação das empresas de ônibus.

Vale lembrar também que o jornal da família Marinho, uma semana antes de Brizola morrer, em junho de 2004, dava espaço para que o articulista Ali Kamel, também diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, acusasse Brizola de responsável pela violência urbana no Rio de Janeiro, que, por sinal, se intensificou nos últimos anos.

Ainda em uma coluna da página 3, o jornal de maior circulação no Rio de Janeiro revelava que ‘Newton Cruz reclamou de investigações do Proconsult’ e na sustentação assinalava que ‘não há provas, porém, que o SNI tenha tentado fraudar a eleição de Brizola’.

Claro, O Globo não lembrou que a Rede Globo participou ativamente do episódio que tentou fraudar o resultado e que visava a eleger o então candidato da agonizante ditadura, Moreira Franco, episódio que entrou para a história como exemplo de como uma empresa jornalística tentou manipular uma eleição e que, anos depois, articulistas tentaram desmentir, no que foram devidamente contestados no livro Plim Plim, de Paulo Henrique Amorim.

Já na página 4, de forma mais discreta, O Globo apresentava a manchete, segundo a qual ‘Cesar Maia nega envolvimento em esquema de cobrança de propina’. O então político do PDT, que viria a ser o secretário de Fazenda do primeiro governo de Brizola a partir de janeiro de 1983, dizia, entre outras coisas, que ‘acho aquela hipótese (o caixa dois) difícil de ser verdadeira, pois Brizola fez a intervenção e encampou todas as empresas de ônibus. Uma contradição nos fatos’.

Preferência pela omissão

Por cochilo, ou sabe-se lá o que, dos editores, O Globo não lembrou que há poucas semanas o mesmo César Maia, hoje no Democratas (DEM), ex-PFL, ex-PDS, ex-Arena, foi condenado a pagar uma indenização de cerca de 150 mil reais à família de Brizola por acusá-lo, sem provas, que teria recebido propina de bicheiros.

Para concluir, O Globo desarquivou alguns informes dos órgãos de repressão da ditadura com a segunda manchete da página 3, enfatizando que ‘no exílio, passos seguidos de perto – Brizola foi grampeado e vigiado por arapongas da ditadura durante 15 anos’, período, por sinal, no qual a referida publicação apoiou com certo entusiasmo o regime autoritário e provocou seguidos comentários de Brizola, segundo o qual ‘o jornal de Roberto Marinho engordou na estufa da ditadura família Marinho’.

Tais fatos são importantes de serem lembrados, sobretudo em um país sem memória e em que a mídia hegemônica em nada contribui para que as novas gerações conheçam de fato o que aconteceu no período de trevas que o Brasil viveu a partir de abril de 1964, prolongando-se, como demonstram os arquivos implacáveis, até mesmo depois de oficialmente extinta a ditadura com a eleição indireta do candidato Tancredo Neves, que morreu antes de tomar posse, em março de 1985.

Por estas e muitas outras omissões relativas ao período ditatorial, tanto O Globo como outros órgãos da mídia hegemônica preferem omitir fatos que eventualmente colocam em xeque os próprios veículos de comunicação que apoiaram a ditadura.

***

Em tempo: Na edição da segunda-feira (30/3), a página 3 inteira de O Globo fazia suíte da matéria do dia anterior, desta vez destacando que os ‘Militares culpavam Brizola pela escalada da violência’ e na sustentação assinalava que ‘Arquivos do SNI registram ataques às políticas de habitação e segurança do pedetista, acusado de não combater crime no Rio’.

Na verdade, até a morte de Brizola, O Globo apresentava exatamente os mesmos argumentos que o SNI para combater politicamente o ex-governador do estado do Rio de Janeiro. Mas isso, os editores de O Globo não tiveram até hoje a grandeza de fazer autocrítica.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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