Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O jornal tradicional na era digital

Por Tiago Figueiró em 14/12/2010 na edição 620

O jornalismo impresso perdeu a luta pela instantaneidade para a comunicação online desde que esta nasceu. Esse confronto não significa, entretanto, o fim do jornal impresso. Ele permanecerá, com características diferentes, pois terá de se adaptar ao nosso mundo cada vez mais digital. Os periódicos em papel continuarão a ser lidos, mas servirão a um propósito relativamente diferente do que serviam no passado. E sobreviverão somente porque promoverão mudanças radicais em seu conteúdo.

A internet veio para dar aos leitores mais variadas fontes para obter informações que costumavam conseguir nos jornais. E embora isso não ameace a existência dos jornais, vai reduzir o tempo que os consumidores dedicam a eles. Nesse ambiente, o jornalismo online e o impresso se complementam. Como gosta de fazer o presidente Lula, façamos uma metáfora futebolística: quando você quer saber o resultado do jogo do seu time que acabou há pouco tempo, você abre um jornal, liga o seu celular ou acessa a internet? Provavelmente uma das duas últimas opções, não é? Agora, se você deseja saber como foi o jogo lance a lance, com análise de críticos esportivos, escalações e atuações individuais dos jogadores, o jornal do outro dia certamente será uma boa referência de leitura diante das suas expectativas, certo?

Enquanto a instantaneidade fica por conta das mídias digitais, resta à mídia tradicional dar ao público algo diferente. Aos impressos cabem a explicação, a interpretação e a análise dos fatos e dos seus efeitos. Para isso, devem prezar pela criatividade e pela originalidade. O jornal moderno em papel, influenciado pelos veículos digitais, dividirá o pacote de cobertura em profundidade em pedaços menores, com maior densidade de informação. Por isso, essas publicações já se encontram em pura estratégia de sobrevivência, alterando seu projeto gráfico para poder se enquadrar num novo ambiente de mídia.

Cativando os leitores

Em recente entrevista à revista Negócios da Comunicação (41ª edição), J. Háwilla, dono da Traffic, que também quer figurar entre os grandes empresários do jornalismo, fala da reestruturação do projeto gráfico de sua recente compra: o Diário de S. Paulo. Segundo Háwilla, o jornal perdeu cerca de 12% dos assinantes – leitores de idade, que assinavam o antigo Diário Popular há mais de 30 anos, que não gostaram do novo modelo do jornal –, mas ganhou 40% de novos leitores. Háwilla não queria perder os consumidores antigos, mas eles não se adaptaram ao novo projeto. Segundo o empresário, ‘essas pessoas querem ver os comentários editoriais como os do Estadão. Eles gostam de dobrar o jornal, ler textos enormes. Agora só notas curtas, editorial pequeno, falando objetivamente sobre um assunto. Somos, hoje, um jornal pós-noticioso. Não dá para competir com a internet’. Háwilla acredita que o jornal não vai acabar. Ele diz que ‘o que já acabou é a notícia do jornal porque ela deixou de ser fresca. O cara morreu hoje ao meio-dia e todo mundo já deu – TV, rádio, internet, todos os sites, blogs… Agora, fazer o trabalho do `porquê e como ele morreu, contar uma história de `quem era o cara´, no dia seguinte, é o nosso trabalho´. O jornal tem que se reinventar’, complementa.

Após essas reinvenções, os jornais de papel serão mais uma das muitas fontes de informação. Não se parecerão com a sua forma atual. Conterão mais elementos gráficos, serão mais folheáveis, feitos para usuários de ambientes multimídia, oferecerão recursos de informação rápida, agrupando blocos de informação mais curtos, com texto destacado para atrair mais a atenção dos leitores. Além disso, as mídias tradicionais podem conviver harmoniosamente com as suas versões digitais, por uma relação de parceria na qual uma pode auxiliar a outra.

Em última análise, porém, um jornal composto apenas de pequenas porções de informação seria insatisfatório para a audiência. Devido a esse fato, para a mídia impressa na era digital, ainda são a profundidade de cobertura e a análise que mantêm os leitores interessados. Nesse cenário, fica a vontade de que os jornais e revistas, românticos que são, continuem cativando seus leitores e deixem a instantaneidade por conta da comunicação online.

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Assessor de imprensa, Brasília, DF

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