Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > TEMPOS QUE CORREM

O jornalismo das incertezas

Por Luciano Martins Costa em 09/04/2012 na edição 688

Comentário para o programa radiofônico do OI, 9/4/2012

 

A leitura concentrada dos jornais, ao longo de um fim de semana, pode produzir interpretações interessantes sobre determinados assuntos, como, por exemplo, a economia interna de um país em comparação com outras nações.

Nos últimos dias, o arco de notícias sobre o Brasil vai desde o aumento nas vendas internas de aviões de pequeno porte, para uso particular, até o fato de que um número recorde de brasileiros passou a mudar de emprego como forma de melhorar o salário e as condições de trabalho.

Paralelamente, recrudescem as más notícias sobre a crise na Grécia e na Espanha, enquanto os indicadores de emprego nos Estados Unidos não são considerados suficientes para produzir tranquilidade.

Crenças em xeque

No meio do noticiário, pode-se observar dois tipos clássicos de opiniões, ambas irredutíveis e inconciliáveis. Numa delas, que ainda aparece em minoria na imprensa, defende-se a supremacia do Estado e sua ação organizada sobre a caótica dinâmica da economia. No outro, postula-se que a dinâmica da economia só parece caótica do ponto de vista do estatismo e que o mercado, por si, é capaz não apenas de produzir riqueza indefinidamente como também, pela via da meritocracia, de distribuí-la de maneira eficaz.

Sobre esse painel de posturas ideológicas inflexíveis se desenvolvem os debates diários a respeito de questões variadas, como as medidas oficiais para apoio à indústria e a agenda da presidente da República na sua visita aos Estados Unidos, que se inicia na segunda-feira (9/4).

Também têm sido analisadas sob esse crivo duplo e bipolar as ações do governo, através do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, que baixaram os juros unilateralmente para forçar os bancos privados e adotarem uma postura mais favorável ao aumento do crédito. Os jornais dão tanto espaço para os críticos de costume – que enxergam na iniciativa um excesso de interferência governamental no mercado – como para o governo, que, por intermédio do ministro do Desenvolvimento, critica a “avareza dos bancos privados num momento difícil”.

Para o leitor circunstancial, pode parecer incompreensível que, um dia, o jornal anuncie, em tom de crise, que a indústria nacional está à míngua, e no outro dia veicule críticas a medidas de amparo à produção nacional, enquanto uma opinião paralela afirma que o mundo contemporâneo é assim mesmo, feito de menos indústria e mais serviço.

Para aumentar a confusão, o cidadão se dá conta de que o mesmo analista que reclama a falta de uma política industrial é o que defende a redução das ambições nacionais no setor, alegando que o Brasil pode seguir crescendo indefinidamente com um complexo industrial menos diversificado.

Para o leitor habitual do noticiário econômico, tudo faz parte de um jogo no qual ele mesmo já escolheu um lado preferencial, mas ainda assim suas crenças são sacudidas, dia sim, dia não, pela descoberta de novas variáveis.

Mais espaço para dúvidas

Embora possa parecer o contrário, tal diversidade reflete uma nova qualidade da imprensa brasileira: ainda que lentamente e com grande atraso, ela parece admitir que nem tudo acontece segundo os dogmas do mercado.

Aqueles que adoram se apresentar como liberais autênticos e que sempre contaram com espaços generosos na imprensa, já aceitam, por exemplo, condicionantes ambientais e sociais na aplicação do capital.

Aos poucos, o noticiário sobre iniciativas “verdes” se deslocam dos guetos em que sempre foram confinados nos jornais e atravessam o noticiário sobre negócios e economia. Por outro lado, as preocupações sociais começam a se encaixar no conjunto de notícias e opiniões. A escolha governamental de estimular o mercado interno a partir de políticas de amparo aos menos favorecidos já não provoca urticária nos arautos da racionalidade econômica.

Essa leitura mais vertical, na qual se pode comparar abordagens diversas sobre um tema específico num conjunto de edições, pode dar a impressão de que alguns jornais parecem, momentaneamente, carecer de uma linha central. No entanto, dada a natureza dinâmica dos fatos econômicos e a circunstância em que as dificuldades e o desemprego mudam de hemisfério, certa dose de incerteza reflete mais a realidade do que as afirmações dogmáticas.

Ao admitir algumas dúvidas na interpretação da realidade, a imprensa parece refletir melhor a própria realidade.

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