Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DA FOLHA

O jornalismo irresponsável

Por Luís Nassif em 01/12/2009 na edição 566

Watergate tinha dois repórteres espertos – Bob Woodward e Carl Bernstein – e um editor memorável – Ben Bradlee – que filtrava todas as informações e só permitia a publicação daquelas confirmadas por pelo menos três fontes. Até hoje Bradlee é um dos símbolos do bom jornalismo e exemplo para jornalistas de todas as partes do mundo.

O escândalo divulgado pela Folha de S.Paulo na sexta-feira (27/11) – um artigo de um dissidente do PT, César Benjamin – acusando Lula de ter currado um militante do MEP no período em que esteve preso no DOPS, é um dos mais deploráveis episódios da história da imprensa brasileira. E mostra a falta que fazem pessoas da envergadura de Bradlee.

Qualquer acusação, contra qualquer pessoa, exige discernimento, apuração. Quando o jornal publica uma acusação está avalizando-a.

Quando a acusação é gravíssima e atinge o presidente da República – seja ele Sarney, Itamar, FHC ou Lula – o cuidado deve ser triplicado, porque aí não se trata apenas da pessoa, mas da instituição. Qualquer acusação grave contra um presidente repercute internacionalmente, afeta a imagem do país como um todo. Se for verdadeira, pau na máquina. Se for falsa, não há o que conserte os estragos produzidos pela falsificação.

Nem como piada

A acusação é inverossímil. Na sexta conversei com o delegado Armando Panichi Filho, um dos dois incumbidos de vigiar Lula na cadeia. Ele foi taxativo: não só não aconteceu como seria impossível que tivesse acontecido.

Lula estava na cela com duas ou três presos. A cela ficava em um corredor, com as demais celas. O que acontecesse em uma era facilmente percebida nas outras.

Havia plantão de carcereiros 24 horas por dia. E jornalistas acompanhando diariamente a prisão.

Não havia condições de nenhum fato estranho ter passado despercebido. Panichi jamais ouviu algo dos carcereiros, dos presos, dos jornalistas e do delegado Romeu Tuma, seu chefe.

Benjamin não diz que Lula cometeu o ato. Diz que ouviu o relato de Lula em 1994, em um encontro que manteve em Brasília com um marqueteiro americano, contratado pela campanha, mais o publicitário Paulo de Tarso Santos e outras testemunhas.

Conversei com Paulo de Tarso – que já fez campanha para FHC, Lula – que lembra do episódio do americano mas nega que qualquer assunto semelhante tivesse sido ventilado, mesmo a título de piada. E nem se recorda da presença de Benjamin no almoço.

Deturpação da notícia

E aí se chega à questão central: com tais dados, jamais Ben Bradlee teria permitido que semelhante acusação saísse no Washington Post.

Antes disso, colocaria repórteres para ouvir as tais testemunhas, checaria as informações com outras fontes, conversaria com testemunhas da prisão de Lula na época. Praticaria, enfim, o exercício do jornalismo com responsabilidade.

A Folha não seguiu cuidados comezinhos de bom jornalismo. Não apenas ela perde com o episódio, mas o jornalismo como um todo.

É importante que leitores entendam: isso não é jornalismo. É uma modalidade especial de deturpação da notícia que os verdadeiros jornalistas não endossam.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/12/2009 Marcelo Idiarte

    Será que a Folha de S.Paulo publicaria um artigo meu, acusando – sem provas – um profissional daquele jornal de ter me confidenciado duas décadas atrás que pretendia estuprar uma criança ou assaltar um banco?

  2. Comentou em 01/12/2009 Thomaz Magalhães

    Obrigado, Alex, pelas considerações. Mas o contexto no artigo do César Benjamim é o filme do Lula, que enaltece os valores e caráter dos protagonistas. César mostrou um lado deles, narrando um fato, que não foi constestado por Lula e que foi confirmado por um dos presentes. A imprensa foi atrás, a Veja obteve do ‘menino’ o comentário que aquilo foi um ‘mar de lama’; a Folha obteve dele, em Caraguatatuba, que ‘foi um horror’.
    O fato é que o caso não veio dos tucanos, do Psol, do Dem, etc. Veio de um petista histórico, fundador do partido e tal. Foi, sim, uma canelada de bico nos ex-companheiros e no Lula. Mas estão – Nassif está – criticando a Folha por ter publicado. E estamos aqui discutindo jornalismo no Observatório da Imprensa. A questão: a Folha deveria ter impedido a publicação da matéria? Seu jornalismo foi irresponsável?

  3. Comentou em 01/12/2009 Thomaz Magalhães

    Obrigado, Alex, pelas considerações. Mas o contexto no artigo do César Benjamim é o filme do Lula, que enaltece os valores e caráter dos protagonistas. César mostrou um lado deles, narrando um fato, que não foi constestado por Lula e que foi confirmado por um dos presentes. A imprensa foi atrás, a Veja obteve do ‘menino’ o comentário que aquilo foi um ‘mar de lama’; a Folha obteve dele, em Caraguatatuba, que ‘foi um horror’.
    O fato é que o caso não veio dos tucanos, do Psol, do Dem, etc. Veio de um petista histórico, fundador do partido e tal. Foi, sim, uma canelada de bico nos ex-companheiros e no Lula. Mas estão – Nassif está – criticando a Folha por ter publicado. E estamos aqui discutindo jornalismo no Observatório da Imprensa. A questão: a Folha deveria ter impedido a publicação da matéria? Seu jornalismo foi irresponsável?

  4. Comentou em 01/12/2009 Thomaz Magalhães Magalhães

    César Banjamim não acusou Lula. Contou o que Lula lhe disse na presença de outros militantes. Um deles confirmou, dizendo que era graça de Lula. E César Benjamim não trabalha na redação da Folha, é articulista. Não é praxe de reportagem sair investigando e completando informação ou comentário de colunista, que publica matéria assinada. Nassif escreve no começo do seu texto ‘…César Benjamin – acusando Lula de ter currado um militante do MEP’ No final escreve que ‘…Benjamin não diz que Lula cometeu o ato. Diz que ouviu o relato de Lula em 1994’

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