Sexta-feira, 20 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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O Liberal: poderoso, mas em dificuldades

Por Lúcio Flávio Pinto em 15/04/2008 na edição 481

Delta Publicidade, responsável pelo jornal O Liberal, é uma das empresas mais poderosas do Pará. Pela natureza da sua atividade, a produção de informações, influi decisivamente sobre a formação da opinião pública, seus hábitos, costumes ou manifestações. Mas a condição econômico-financeira da empresa contrasta com sua aura de poder. Já há vários anos Delta Publicidade funciona com patrimônio líquido negativo: em 2005 o PL era de menos 1,3 milhão de reais; em 2006 piorou muito, chegando a 3,2 milhões de reais, cinco vezes maior do que o capital social da empresa, que se mantém em raquíticos 657 mil reais, valor incompatível com o porte do seu negócio.


Entre 2005 e 2006 o faturamento bruto não cresceu 4%, ficando em pouco mais de 36 milhões de reais, mas os custos foram onerados em quase 25%. Como efeito dessa relação, o prejuízo líquido, que foi de 1,3 milhão de reais em 2005, subiu 100%, para quase 2,6 milhões de reais, em 2006. O déficit nas contas é outra característica da operação da Delta nos últimos anos, acarretando-lhe um prejuízo acumulado de mais de 16 milhões de reais, que supera em 40% suas reservas.


Uma empresa com essas características se acha em estado pré-falimentar, caminhando para a insolvência. Com patrimônio líquido negativo, como pode responder pelos seus compromissos? A conta operacional foi fechada graças ao resultado financeiro líquido, que foi de quase 2 milhões de reais em 2005 e cresceu três vezes mais em 2006, quando chegou a praticamente 6 milhões de reais. Mas o exigível a longo prazo, que já era expressivo em 2005 (86 milhões de reais), continuou se expandindo em 2006, para 90 milhões de reais. Provavelmente o peso maior dessa conta resulta do investimento feito na aquisição da moderna máquina alemã que imprime o jornal. Se o padrão desses números se manteve em 2007 e sua tendência não for revertida, o colapso será uma questão de tempo.


Intervenção branca


E por que ainda não se pode apreciar o desempenho de Delta Publicidade no exercício passado? É porque, ao contrário das empresas regulares ou saudáveis, há vários exercícios a editora de O Liberal publica seu balanço com um ano de atraso. No dia 31 de março divulgou suas contas referentes a 2006, com demonstrações magras e pálidas. Através delas, nenhum observador que não tivesse conhecimento do que é (ou aparenta ser) o jornal da família Maiorana poderia formar uma idéia aproximada da empresa por trás de um balanço tão simplório. Imaginaria tratar-se, talvez, de uma quitanda qualquer. No entanto, é o mais antigo jornal do Pará em circulação, que até recentemente foi o líder disparado da mídia impressa e agora recorre a diversos expedientes para não reconhecer sua atual posição secundária.


Com balanço atrasado em um exercício, patrimônio líquido negativo, endividamento crescente e prejuízos acumulados, como é que a Delta Publicidade consegue tomar dinheiro no mercado bancário? Conseguirá fechar suas contas com disponibilidades financeiras por quanto tempo? Ajustará o ritmo do exigível às suas disponibilidades de caixa? Como restabelecerá sua liquidez? E terá condições de retomar a vida normal, sanando e saneando suas contas?


Apesar da condição delicada do paciente, seria insensatez ignorar o poder de que O Liberal ainda desfruta. Em parte, esse poder lhe é transferido pela televisão do grupo, graças à sua afiliação à Rede Globo. Se não transmitisse a programação da líder em audiência no país e não usufruísse os rendimentos do poder nacional que tem a emissora dos Marinho, a TV Liberal talvez já estivesse na atribulada companhia do jornal. Mas a companhia da Globo exige investimentos, como o que está em curso, para que a rede se converta à imagem digital.


Esse investimento compulsório, que a Globo exige porque ela própria se vê ameaçada pela competição, como nunca antes, é feito à custa de aplicações na melhoria da cobertura diária da TV Liberal. Tecnicamente, ela foi superada pelos concorrentes locais, principalmente a Record, e parece incapaz de atender as necessidades jornalísticas da matriz, que precisou montar uma estrutura à parte e praticamente decretar intervenção branca na afiliada. Com todos os problemas, entretanto, a Liberal ainda é a líder no segmento televisão. Graças a essa condição, transmite efeitos positivos para o jornal.


Espelho mágico


O Liberal tem ainda um trunfo seu: os classificados. Há muitos anos o jornal dos Maiorana reina sobre esse setor fundamental do faturamento. Nunca, como agora, se sujeitou a uma partilha tão expressiva, em função do crescimento do anúncio de varejo do Diário do Pará. Mas ainda mantém essa liderança, que lhe traz rendimentos, não só nos negócios, mas também na produção de notícias. As informações lhe chegam espontaneamente em maior volume do que ao Diário. As curvas, porém, estão seguindo em sentido opostos: a do jornal de Jader Barbalho subindo e a do jornal dos Maiorana caindo.


Não de forma tão acentuada que pudesse impedir O Liberal de receber, pela 23ª vez seguida, na semana passada, o prêmio Mérito Lojista, da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas. A honraria foi apregoada com estardalhaço pelo jornal, mas a confiabilidade da avaliação feita para a concessão do prêmio já claudica. Na Bahia, por exemplo, o premiado foi o Correio da Bahia, embora o líder destacado na imprensa baiana seja A Tarde. No Rio de Janeiro, o prêmio foi para o Jornal do Commércio, cuja única notoriedade é a de publicar (na saison atual) balanços de empresas e governos. No Espírito Santo, o vencedor foi a Tribuna, esquecendo-se a Gazeta. E o que falar da exclusão de A Crítica, em Manaus, pelo Diário do Amazonas?


Fatos como o do prêmio contribuem para manter a aparência de prosperidade do jornal, juntamente com outros elementos, como sua sede suntuosa e a sua qualidade gráfica, em função do equipamento de impressão de última geração (a pesar sobre as contas futuras). Mas qual a condição real da empresa por trás desse décor? A julgar pelos números do último balanço, a aparência vai exigir cada vez mais maquilagem, mas os cosméticos sairão sempre mais caros. Um dia, que pode parecer súbito, mas está já anunciado, a conta não fechará mais e a realidade se imporá.


Para que tal desfecho não aconteça, é preciso mais do que pirotecnia, contorcionismo e fogo-fátuo. Na imprensa, todos sabem, mas todos em algum momento parecem preferir esquecer, vige uma regra: jornal não morre de véspera. Convém antecipar o desfecho para que ele não venha a acontecer. O espelho mágico só engana quem não é exatamente do métier, ainda que aparente ser.


***


Um candidato no mercado?


Outdoors espalhados pela cidade reproduzem a manchete de capa do jornal A Vanguarda, anunciando o apoio do presidente Lula à candidatura de José Priante a prefeito de Belém pelo PMDB. Trata-se de propaganda ilegal, realizada dois meses antes da temporada oficial? Essa é a questão, que tem sido suscitada, provocando controvérsias. Se o ex-deputado pagou pelos outdoors, a propaganda estaria caracterizada e ele pode vir a ser punido. Se quem custeou a peça publicitária foi o próprio jornal, não haveria ilícito.


Em qualquer hipótese, não há dúvida de que o maior interessado é Priante. A segunda possibilidade significa apenas uma engenhosa forma de driblar a lei, mesmo a contrariando. A manchete realmente saiu no jornal, que tem o direito de fazer sua propaganda. Mas se a publicação não passa de um tigre de papel e se por trás dela pode ser provada a autoria do ex-deputado, então a trama se revelará inútil e o golpe terá efeitos contrários ao pretendido. Mas que é sagaz, não há dúvida.


Se o expediente usado está além da sanção legal, outros pretendentes ao trono da capital podem recorrer à mesma manobra, claro. Mas teriam que dispor de um jornal, registrado, em funcionamento, preenchendo todas as exigências. Nessas condições, não há nada de condenável na iniciativa, que gera empregos, cria renda e favorece a difusão de informações. Democracia é praticada assim, no meio da diversidade, no entrechoque de posições e idéias, entre chuvas e trovoadas. Pode-se, nela, corrigir os excessos. O problema maior mesmo é a carência de democracia, que requer tratamento mais traumático e apresenta resultados mais demorados.


Goela abaixo


A Vanguarda é de propriedade de Luís Guilherme Barbalho, irmão do deputado Jader Barbalho. Parece ser impresso nas oficinas do Diário do Pará, que pertence ao ex-governador. Seria então nada mais do que uma extensão do controlador do PMDB? Não necessariamente. Luís Guilherme tem mais autonomia do que parece e Jader menos interferência do que a aparência sugere. Mas não há dúvida que começa a ser estruturada a campanha de José Priante à próxima eleição na capital.


Com o apoio de Lula? Retoricamente, sim. O PT não dispõe de nomes, neste momento, com densidade eleitoral para chegar à vitória. Mas muitos dos seus integrantes (e a esmagadora maioria dos seus militantes) preferem perder sozinho a ganhar em má companhia, segundo entendimento próprio.


O problema é que o PT não estaria no governo do Estado se disputasse sozinho (ou apenas com suas alianças ideológicas) em 2006. Jader Barbalho foi o patrono da vitória. Lula sabe disso, mais do que todos os petistas, por ter avalizado a aliança que Jader lhe propôs, com a inclusão de Priante na disputa, quando as possibilidades de vitória eram remotas. Foi um acerto por cima, que acabou sendo imposto goela abaixo – e deu certo. Poderá se repetir agora, contra a tradição petista de não honrar acordo amargo?


É o que se verá. Logo, logo.


***


Ontem e hoje


A cobertura de O Liberal à entrega do prêmio de lojista do ano a Fernando Yamada foi mais extensa, no dia seguinte, do que a do Diário do Pará (que se recuperou depois, lançando um caderno comemorativo, além de divulgar uma página de saudação ao empresário, como fizera antes com Roger Agnelli, o presidente da Companhia Vale do Rio Doce, homem do ano para a ADVB nacional).


Foi a inversão da prática anterior: o grupo Liberal suprimiu o nome e a foto do executivo porque sua corporação não aceitou as imposições comerciais que lhe foram feitas pelas Organizações Romulo Maiorana. Mas como a publicidade de Y. Yamada retornou aos veículos das ORM, o passado recente foi novamente apagado e agora toda família Yamada voltou a brilhar nos veículos Liberal. Até nova tempestade.

******

Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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