Quinta-feira, 20 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº950

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO POLÍTICO

O luto da imprensa

Por Gilson Caroni Filho em 08/05/2007 na edição 432

O tom é de comedimento. A CPI do Apagão Aéreo parece não ter empolgado jornais e revistas semanais. Os meios de comunicação limitam-se a denunciar sua composição como expressão de farsa. Há um visível desencanto com o comportamento da oposição parlamentar. O pragmatismo de setores do PSDB não é compatível com o tipo ideal editado ao longo dos dois últimos anos? Talvez possamos, simplificando tema caro ao pensamento freudiano, falar em um luto midiático. Reação à perda de uma generalização abstrata, a um ente que seria o braço político de devaneios editoriais. Investimento libidinal sem contrapartida. Páginas e tempos perdidos.

Em tom de lamento, o jornalista Fernando Rodrigues registra, em seu blog, o ar nebuloso que marca o início da mais recente CPI instalada na Câmara Federal. Assinala que ‘A oposição ficou de mãos abanando. A base lulista tem 16 das 24 vagas da comissão.Houve uma patética tentativa do PSDB, que quis lançar um candidato para a presidência da CPI. Perdeu. O PFL desejava ir ao Supremo para dar uma embananada no processo, mas os tucanos foram contra. Por enquanto, a CPI está servindo para mostrar e explicitar mais uma vez o apagão da oposição no Congresso’.

A tristeza de Fernando é partilhada pela jornalista Eliane Cantanhêde, em sua coluna, na edição de sexta, 4 de maio, da Folha de S.Paulo. ‘Foi-se o tempo em que as CPIs eram lugar de honra para investigar e produzir efeitos’ O choro prolonga-se por quase todos os articulistas da grande imprensa. Editoriais já não reproduzem o frenesi de outrora, quando tudo era contado com som e fúria, Embora o significado do esforço fosse ocultado com presteza.

Lugar epistemológico

O que será que não aprenderam com a história? Vamos tentar, nesse pequeno artigo, lançar luz sobre o passado recente. Iluminar o norte dos considerados ‘formadores de opinião’. Pessoas de hábitos refinados e ética fluida precisam perceber que a realidade também escorre liquefeita.

Já deveríamos saber que, quando o senso comum da mídia se confunde com a opinião de setores supostamente esclarecidos, a lucidez está perdida. Se todo o processo histórico é reduzido à folhetinização de escândalos, ao espetáculo de comissões parlamentares e acareações sem sentido, a trama não guarda qualquer relação com moralização de costumes públicos ou preocupação efetiva com os rumos da política econômica. 

As fraturas éticas e o aliancismo equivocado do Partido dos Trabalhadores serviram, nos dois últimos anos do primeiro mandato de Lula, como pretextos para a ofensiva de forças conservadoras a um governo que, apesar da agenda adotada, conseguiu reduzir a miséria de forma expressiva. Em 2004, segundo a FGV, a redução teria atingido 8%.Comparemos esses números com os obtidos pelo neoliberalismo que, por oito anos, balizou corações e mentes de tucanos e demos do ex-PFL. Não há registros dessa comparação em editorias de economia.

O triste foi ver a grita moralista unir reacionários conhecidos a esquerdistas combativos nas páginas de política. O que o método separou, o discurso uniu. O que os últimos ignoraram foi que ação política movida a ressentimentos e balizada pela moral privada não educa politicamente. Constrói atalhos para o retrocesso. A práxis de holofote é a única possível em tempos do que, com rara precisão, Zygmunt Bauman definiu como modernidade líquida? Essa é uma indagação que precisa ser respondida por atores que ocupam inequívoca centralidade no mundo contemporâneo. E não há como respondê-la sem definir a imprensa como lugar epistemológico.

Como destacou, à época, Marilena Chauí ‘não é digno politicamente não colaborar com um governo que está sob ataque’. No centro da peroração de seus detratores não havia qualquer preocupação com a qualidade institucional.

Números incômodos

O móbil da burguesia patrimonialista e seu colosso midiático não era outro senão a velha luta de classes, a preservação de estruturas arcaicas que impedem a promoção da cidadania em uma sociedade fracionada.

Ser portador de uma agenda republicana é compreender a complexidade do momento. Render-se aos clamores de segmentos médios, expressos nas páginas dos jornais, não revela inteireza ética, mas oportunismo político e atração inequívoca pela ética do consumidor. Assim morrem as mariposas. E se reproduzem editores.

Não é nosso objetivo propor que se passe uma borracha em todos os erros cometidos. O transformismo da direção partidária, seu deslocamento das bases e alianças com legendas de direita foram um balde de água fria na militância forjada ao longo de 25 anos de luta. Mas não joguemos a criança fora junto com a água suja da bacia. Nesse período, o Partido dos Trabalhadores e suas bases sociais fizeram o país avançar politicamente como nenhuma outra força de esquerda havia logrado antes.

Seria sensato ignorar tal massa crítica e, por decreto, tal como fizeram tantos articulistas, falar em ciclo encerrado? Os críticos deveriam seguir as simplificações do discurso jornalístico ou buscar outros caminhos? Não seria mais correto tentar recompor a base de centro-esquerda do atual bloco de poder? Ao furor inquisitório não é prudente exercer a crítica dialética? Ainda mais quando sabíamos que, naquele estágio, a crise antecipou o processo sucessório. Um jornal não pode ser lido com o mesmo órgão que produz seus relatos: o fígado. Isso é elementar. 

O oligarca e o publisher não estavam preocupados em apurar o ‘valerioduto’ até as últimas conseqüências, muito menos financiamentos ilegais de campanha. Se o fizessem, veriam expostas suas próprias entranhas. O que o incomodava de fato, e acirrava seus ataques, eram números como os que o IBGE divulgou em meados de 2006. Dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) registravam recuperação do rendimento médio da população, em queda desde 1997. Não deu chamada em dobra superior.

Trilha desgastada

O nível de ocupação atingiu 56,3%, o maior desde 1996. O Índice de Gini demonstrava queda na concentração de renda, com metade da população que ganhava os menores rendimentos obtendo ganho real de 3,2%. O melhor resultado nos últimos 24 anos. Adicionemos a isso o Bolsa-Família, programa de renda familiar básica, que atende a 8 milhões de famílias. Notemos, ainda, que esse não era, como continua não sendo, um governo de esquerda até por sua composição de origem. Por injunções várias, além do transformismo, não pôde assumir plenamente as velhas bandeiras. E, no entanto, desesperou, e ainda desespera, as forças conservadoras. Por que será?

A realidade mostrou como a persistência e o acirramento da crise levaram ao vazio político. Ocioso dizer quem pode dele se beneficiar. Basta lembrar quem lucrou com aumento de tiragem e/ou de audiência. 

Aos lúcidos sobrou uma saída. Abandonar palavras de ordem vazias e adotar uma postura crítica. Bem distante do socialismo de salão. Bem longe dos distintos colunistas e seu público alvo: os inconformados da classe média – que, perplexos e espumantes, vêm o país mudar, incorporando novos atores. Eis o filão ao qual se apegam Fernandos, Elianes, Mervais, Noblats , Doras e Josias. Uma trilha tão desgastada como repetida. Uma total ausência de plano de vôo.

É isso, Observatório. É isso, observadores. O apagão da imprensa precisa ser estudado.

******

Professor-titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/09/2008 Mauricio gonçalves da Silva Gonçalves

    Eu moro em São João de Meriti e tenho 38 anos. Estou pedindo socorro à imprensa. Por favor, acompanhem as eleições aqui no meu município, por favor não nos deixem. Um abraço a todos.

    Mauricio Gonçalves da Silva

  2. Comentou em 14/05/2007 Alexandre Porto

    Investimento libidinal sem contrapartida é uma figura de linguagem perfeita para descrever o ar desconsolado, falas e textos de nossos bons homens da imprensa. O Observatório ganha muito-mlehor, todos ganhamos- quando publica um artigo desse quilate. Precioso é pouco.

  3. Comentou em 14/05/2007 Sérgio Henrique Cunha Zica

    Obrigado senhor Rafael Chat, médico, por nos brindar com seu comentário. Eu já estava ficando assustado com a unanimidade que o Sr. Caroni suscitou. Esta tal unanimidade costuma ser burra e agora que não é mais (burra… a unanimidade, é claro), podemos celebrar um texto impecável com muito mais vigor. Veremos onde vai dar o Apagão da Imprensa que pode até, em homenagem póstuma, ser chamado Apagão do Frias, a quem comparo em termos de derserviço à pátria a um ACM, um FHC, um Marinho, e a quem tantas loas tenho visto ultimamente após seu passamento, inclusive aqui neste Observatório… Quanto ao senhor Chat, após este serviço que nos prestou, quase como um mártir do bom senso (ou da falta deste), recomendo usar de seu recém adquirido questionamento para usá-lo em locais mais adequados, vide o próprio comentário.

  4. Comentou em 14/05/2007 Affonso Marques Mello

    Retrato perfeito de uma imprensa perdida. Parabéns.

  5. Comentou em 14/05/2007 Beatriz Monteiro

    Reforço todos os elogios a esse artigo. Alguém precisa escrever sempre assim. Com crítica e coragem.

  6. Comentou em 14/05/2007 Beatriz Monteiro

    Reforço todos os elogios a esse artigo. Alguém precisa escrever sempre assim. Com crítica e coragem.

  7. Comentou em 13/05/2007 Rafael Chat

    Teu artigo é tão parcial e manipulador que quase vomitei. É claro que deve haver luto, mas pela morte da oposição. Agora o PT governa livremente, sem fiscalização. Isto é bom pra quem? O resto do artigo é manipulação pura. Lula não é neoliberalista (?). E desde quando ‘não é digno politicamente não colaborar com um governo que está sob ataque’ o que é isso? que absurdo! És um maniqueísta que só vê duas posições: pró-Lula ou contra o povo. Aliás, esta prática de acusar ‘a burguesia’ sem dar nome aos bois é covarde e lembra Collor atacando ‘os marajás’. Covardia pura. Ou vai aparecer alguém pra defender ‘os reacionários’ ou ‘os marajás’?

  8. Comentou em 13/05/2007 Rafael Chat

    Teu artigo é tão parcial e manipulador que quase vomitei. É claro que deve haver luto, mas pela morte da oposição. Agora o PT governa livremente, sem fiscalização. Isto é bom pra quem? O resto do artigo é manipulação pura. Lula não é neoliberalista (?). E desde quando ‘não é digno politicamente não colaborar com um governo que está sob ataque’ o que é isso? que absurdo! És um maniqueísta que só vê duas posições: pró-Lula ou contra o povo. Aliás, esta prática de acusar ‘a burguesia’ sem dar nome aos bois é covarde e lembra Collor atacando ‘os marajás’. Covardia pura. Ou vai aparecer alguém pra defender ‘os reacionários’ ou ‘os marajás’?

  9. Comentou em 10/05/2007 Cristiane Dias

    Verdades precisam ser ditas e o foram de forma precisa. Parabéns, professor.

  10. Comentou em 09/05/2007 Raquel Franco

    Um artigo de liça. Temos que permanecer nesse ritmo. Elegância combina, e muito, com combatividade, vontade de brigar. Um texto forte, de difícil refutação é coisa rara hoje em dia. Esse é um deles. Parabéns.

  11. Comentou em 09/05/2007 Felipe Gouveia

    É. Por uma dessas os adoradores de Mainardi não esperevam. Estão até agora tontos. Fiquem tranqüilos, daqui a pouco aparece um digno representante da direita burra( redundância?) e solta os cachorros. Manteham-se calmos, nada de pânico.

  12. Comentou em 09/05/2007 Júlia Lins

    Muito bom, principalmente por citar alguns figurões da Folha de São Paulo.
    Excetuando alguns colaboradores do jornal que discorrem por assuntos sem conotação distorcida, a Folha é sem dúvida um dos veículos onde o preconceito é mais visível nas notas, comentários, manchetes e espaços
    Manchetizinhas com denúncias ocupam uma vez o espaço para depois sumirem indefinidamente, e se gabam : aqui não têm matéria paga. É para rir.Se contabilizarmos os espaços veremos a tendência ideológica…
    Eles são aqueles que quando degustam um vinho de mil dólares,adoram falar….e se foram convidados para um evento com personalidade X passam a adorá-la e lhe serão gratos em suas colunas. Precisamos de mais artigos como esse e de mais gente disposta a revelar que os egos dos jornalistas estão inflados de vazios.

  13. Comentou em 09/05/2007 Isabel Sampaio

    Gosto muito dos artigos desse professor. Deveriam ser semanais. Dão uma sacudida nos discursos de nossos comentaristas que se acham e bota o Observatório de cabeça pra baixo. Isso não seria a funçao do jornalismo combativo? Dá-lhe professor!

  14. Comentou em 08/05/2007 Izabella Ferreira

    Estou agradavelmente surpresa. Quando leio o Observatório costumo me deparar com artigos mornos( salvo raríssimas exceções), quase constativos. Hoje, não. Puseram fogo no site. Um fogo que purifica pela crítca bem feita, sem reservas ou receios. Isso é o que se espera dos que analisam a imprensa. Ou estarei equivocada?

  15. Comentou em 08/05/2007 Àlvaro Neiva Gonçalo

    Quando vejo esses rasgos progressistas no Observatório, me pergunto por que nem sempre é assim. Beleza ver os nomes dos jornalistas citados. Sem ofensa, calúnia ou difamação o professor os coloca em seu devido lugar. Um banho de coragem e ética!
    Um abraço desse leitor que, por vezes, se entusiasma.

  16. Comentou em 08/05/2007 Jedeão Carneiro

    Agora vejam! Onde o artigo foi escrito originalmente o título era: “O Apagão da Imprensa”. Perfeito! Parece que o OI vetou o termo que toda a mídia quer colar no Lula. Esse artigo saiu primeiro na Carta Maior e depois no O Vermelho com o título originalíssimo. http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3577

  17. Comentou em 08/05/2007 Paulo Henrique Motta

    Precisamos de mais textos assim. O Observatória anda devendo……….Mas parabéns pela excelência do que li aqui.

  18. Comentou em 08/05/2007 Fernando Pinto

    Volta o autor que mais enfurece a direita que visita o OI. E volta com mais um texto imperdível. Parabéns, professor!

  19. Comentou em 08/05/2007 Rita Saltes

    Exccelente mais uma vez. O que esse professor faz irrita muita gente, menos os lúcidos. Mais um texto que o Observatório nos oferece para a reflexão crítica.

  20. Comentou em 08/05/2007 Eliseu Dias

    Até que enfim uma análise dialética da imprensa!!! Precisamos vê-la além da visão dos que dela fazem ou fizeram sua prática profissional. Visões diferenciadas fazem a diferença.

  21. Comentou em 08/05/2007 Raquel Muller

    Uma análise que merece ser lida com muito carinho. O apagão da imprensa é a matriz de todos os apagões. Leitura obrigatória para quem se propõe a pensar a mídia.

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