Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O melhor do jornalismo

Por Lúcio Flávio Pinto em 11/08/2009 na edição 550

Há uma onda mundial de reação à grande imprensa. O fenômeno se acentuou com a internet, que se tornou terreno fecundo para as páginas pessoais de opinião. Elas se multiplicaram aos milhares, graças à facilidade tecnológica. Quem antes ficava na parte passiva da relação com a imprensa, passou para o pólo ativo. Pode agora analisar, desconstruir, antagonizar ou destruir o oponente, mesmo que, na esmagadora maioria dos casos, se trate de uma guerra meramente virtual. Poucos desses blogs, com plena visibilidade, ultrapassam pequenos círculos. Raros formam opinião pública.

A crítica da mídia é um bem valioso do nosso tempo. Substituiu o autoritarismo do dono da voz por uma dialética sem limites. Por isso mesmo, a presunção de poder dos blogueiros está minando sua visão da realidade e a consistência de sua capacidade crítica. Os jornalões passaram a ser o Judas da malhação. É fácil desnudar seus compromissos políticos e comerciais, suas limitações tácitas, seus arranjos corporativos. Mas o que colocar em seu lugar?

Esta é uma preocupação que precisa ser partilhada e desenvolvida no lugar da mera e pronta rejeição. Tive-a ao receber o comentário de um amigo sobre minhas observações a respeito do erro do New York Times nos primórdios do ‘caso Watergate’, nos anos 1970 (ver aqui). Esse amigo me atribuía ingenuidade demasiada por esse entendimento. Para ele, o NYT não se antecipou ao Washington Post na revelação do escândalo, que acabou obrigando o presidente Richard Nixon a renunciar, mas por causa dos compromissos do jornal com o establishment.

Percepção do mundo

Para mim, entretanto, tudo indica que foi negligência mesmo do NYT. O jornal, a partir da revelação do escândalo, publicou tudo que apurou, em alguns momentos mais do que o Post e se antecipando ao jornal de Katharine Graham. Embora não seja tão ingênuo a ponto de não perceber os interesses políticos e comerciais do NYT, a definição de Noam Chomsky, a quem meu amigo recorreu para criticar o diário novaiorquino, é exagerada, como muita coisa do que ele diz.

No fim da vida, o repórter Robert Smith iria mentir em desonra própria? Não acredito. Há ainda um fato de extrema relevância: sentiremos uma falta imensa do NYT se ele for comprado pelo empresário australiano Rubert Murdoch, o desnaturador de jornais. Quem, como eu, lê o Times – de forma intermitente – desde a década de 1960, sempre será grato à sua decisão editorial constante de manter enviados especiais espalhados pelo mundo. É um patrimônio inigualável do melhor jornalismo.

Ao voltarem à sede, os enviados especiais trazem consigo o mundo que viram, os fatos que testemunharam, a cultura da qual participaram, e difundem esses valores pela redação, criando uma via original de conhecimentos, os moldes que transformarão o registro do cotidiano em análise. O NYT sempre investiu muito, às vezes de forma descontrolada e exagerada, na cobertura direta dos principais acontecimentos do mundo. Poucos, como ele, podem (ou podiam) juntar esses repórteres especiais e com eles constituir a tessitura de uma história mais ampla e mais íntima.

É o melhor do jornalismo, o que sempre lhe deu valor próprio e intransferível. Não há perspectiva de sua substituição ou supressão pela cultura dos blogs e sites. Se isso ocorrer, a percepção do mundo será prejudicada e empobrecida.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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