Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O mensalão da imprensa de Cuiabá

Por Gibran Lachowski em 18/07/2005 na edição 338

Em tempos como o de agora, nos quais muito se fala de corrupção generalizada na política, é de bom alvitre que também a mídia faça a sua autocrítica.

Bom saber que Caetano Veloso afirmou à Folha de S.Paulo que a TV Globo cobra dinheiro das gravadoras para que seus cantores se apresentem em programas como o Domingão do Faustão e o da Xuxa. Para Caetano, que demorou muito a abrir a boca, o hábito da Globo pode ser classificado de mensalão. A emissora de TV afirma que o cantor está mentindo.

Sobre a mídia de minha cidade, Cuiabá (Mato Grosso), bom saber que o Diário de Cuiabá Ltda., o mais antigo da capital, tem dívida de R$ 9,2 milhões com o INSS, segundo consulta ao site do Ministério da Previdência. E olha que a diretoria do Diário gaba-se de seus 35 anos de compromisso social.

Bom saber, nessa mesma linha, que o Grupo Sávio Brandão, que detém o jornal Folha do Estado e a Rádio Cidade FM, deve mais de R$ 20 milhões ao INSS, tratando-se, apenas, de duas de suas empresas, a saber, a Sávio Brandão Planejamento e Construções Ltda. e a Cormat Segurança e Transporte de Valores Ltda.

Lista de crimes

Também é bom saber que a agência de publicidade DMD Associados, de parentes de João Dorileo Leal, dono do Grupo Gazeta de Comunicação, está sendo processada por, supostamente, terem se beneficiado de forma espúria durante o governo Dante de Oliveira, do PSDB (1995-2002), no caso que ficou conhecido como Secomgate. O Grupo Gazeta é o maior de Mato Grosso, com emissora de TV, rádios, jornal, instituto de pesquisa e portal virtual.

Consta da sentença do juiz da 1ª Vara da Justiça Federal de Mato Grosso, Julier Sebastião, emitida em 16 de dezembro de 2003 e que determinou 37 anos de cadeia ao ex-policial civil João Arcanjo Ribeiro, até então o chefe do crime organizado do estado, que o Grupo Gazeta de Comunicação emprestou R$ 1,3 milhão de sua factoring, a Confiança. O valor foi confirmado no Banco Central. A informação foi repassada pelo ex-gerente de factorings de Arcanjo, Nilson Teixeira, em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF-MT). Como o deputado federal Roberto Jefferson, Nilson apresentou muitas informações graves, no entanto foi punido com 10 anos de cadeia.

A punição de Arcanjo, conhecido no fim de 2002 por suas incursões no noticiário nacional como o comendador, foi motivada, entre outros, por crime contra o sistema financeiro (lavagem de dinheiro e evasão de divisas). O bando dele controlou o crime organizado em Mato Grosso por cerca de 20 anos. Especializou-se na condução do jogo do bicho e de máquinas de caça-níqueis no estado, além de tráfico de armas, financiamento de campanhas políticas e numerosos empresários e de assassinatos.

Jornal credor

O MPF-MT, na denúncia apresentada à Justiça Federal que resultou na sentença mencionada, também apontou a Universidade de Cuiabá (Unic) como uma das empresas que emprestaram dinheiro da Confiança, o que é proibido por lei, posto que empresas de fomento estão autorizadas, sim, a vender títulos de crédito, e não a agir como bancos. A Unic pertence ao Grupo Galindo, que também detém a concessão pública de uma emissora de televisão UHF, Canal 17, em 2003 chamada de TV Mundial (CNT).

Em fevereiro e março do referido ano, diante de informações veiculadas pelo programa de entrevistas de sua grade, Amplo, Geral e Irrestrito, de que deputados estaduais tinham fortes ligações com a gangue de Arcanjo, a direção da emissora resolveu podar, quase no talo, qualquer referência direta ao tema. Eu, à época, ajudava a conduzir o programa e presenciei isso. Arcanjo e a mulher, Silvia Shirata, tinham as concessões públicas das emissoras de rádio FM, Cuiabana e Club, segundo consta da sentença do juiz.

Nilson Teixeira citou, ainda, que o jornal Diário de Cuiabá era credor da Assembléia Legislativa e que trocou faturas com a Confiança nos valores de R$ 162.300 e de R$ 184.700. Conforme Julier Sebastião, com base em dados do BC, entre 1998 e fevereiro de 2003, a Assembléia depositou mais de R$ 65 milhões públicos nas contas de Arcanjo, tendo à frente das operações os deputados estaduais José Riva, hoje no PP, e Humberto Bosaipo, atualmente no PFL. Os deputados estão sendo processados por improbidade administrativa pelo Ministério Público Estadual-MT. E há pedido para que Riva seja afastado da primeira-secretaria da Assembléia.

Ainda pouco, mas suficiente

Por isso, por certo, é que em 2002, quando as investigações do MPF e, também, do MPE, contra o bando de Arcanjo endureceram, a mídia de Cuiabá silenciou diante do assunto, dando pequenas matérias, evitando fotos de parlamentares, mantendo cuidado excessivo em relação aos meliantes de alta estirpe.

Os meios de comunicação de Cuiabá mergulharam no tema somente em dezembro de 2002, a partir de reportagens veiculadas pelo Fantástico (da TV Globo) e da operação da Polícia Federal, desbaratando a quadrilha do comendador e mostrando evidências de relações íntimas do mafioso e seu grupo com entes políticos e grandes empresários de Mato Grosso.

Hoje, na mídia de Cuiabá, por exemplo, a dupla Riva & Bosaipo é muito bem tratada e minimamente posta em sua devida posição, a de suspeita de furto de dinheiro público. Também é notório que os anúncios publicitários da Assembléia contemplam inúmeros meios de comunicação da capital de Mato Grosso, passando por jornais, sites, emissoras de TV e rádio.

Isso é um pouco sobre o mensalão da mídia de Cuiabá, mas o suficiente, creio, para iniciar uma sincera autocrítica.

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Jornalista em Cuiabá

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