Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O mês das invasões

Por Luciano Martins Costa em 18/04/2008 na edição 481

Todos os principais jornais de sexta-feira (18/4) destacam as ações do Movimento dos Sem Terra, que promoveu na quinta uma onda de protestos e bloqueou a Ferrovia de Carajás.


Segundo a Folha de S.Paulo, foram sete horas de bloqueio. Segundo O Globo, foram cinco horas. Já a reportagem do Estado de S.Paulo registrou que o bloqueio durou oito horas. Os jornais não conseguem acertar seus relógios, mas são unânimes em
condenar as ações do MST.


O movimento, chamado pelos organizadores de ‘Abril vermelho’, lembra os doze anos do massacre de Eldorado dos Carajás, quando dezenove agricultores sem terra foram mortos a tiros pela Polícia Militar do Pará. Mas só o Estadão lembra o acontecimento com mais detalhes, observando que, dos 152 PMs envolvidos no massacre, foram condenados apenas um coronel e um major que comandaram a ação. Eles recorreram de suas sentenças e aguardam o julgamento em liberdade.


O Globo e a Folha apenas citam o episódio de 17 de abril de 1996, ajudando a colocar mais terra sobre um dos mais graves episódios do interminável conflito agrário no Brasil.


Nunca vem


Foram mais de cem ações organizadas ontem em quinze estados e no Distrito Federal, mas os jornais concentram sua atenção no bloqueio da ferrovia da Companhia Vale do Rio Doce.


A leitura das reportagens desvia da questão central – ainda o problema da reforma agrária – e induz o leitor a imaginar que os sem-terra são grupos de vândalos que vagueiam pelo Brasil destruindo o patrimônio alheio.


O Globo chega a cobrar o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, pela falta de atitude de sua pasta com relação aos protestos dos sem-terra contra a mineradora. A resposta de Cassel coloca um ponto de reflexão sobre o tema que não está presente no noticiário, nos editoriais ou nos artigos:




‘Trata-se de uma empresa privada que teve seus direitos afrontados. Tem que recorrer ao Poder Judiciário. Afinal, por que razão o governo deveria tomar partido, se as duas instituições em conflito são legais, responsabilizáveis perante a lei?’


A controvérsia poderia conduzir a uma compreensão melhor do problema se os jornais mergulhassem na questão agrária sem preconceitos. O MST e outras organizações representam cerca de 150 mil famílias de agricultores que vivem precariamente em acampamentos à beira de estradas, aguardando uma reforma agrária que nunca vem.


Enquanto esse problema não for atacado de verdade, abril será sempre o mês das invasões.

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