Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

O mistério da desaceleração

Por Rolf Kuntz em 22/03/2011 na edição 634

Os trabalhadores tiveram ganho real de salário, no ano passado, em 88,7% das 700 negociações analisadas pelo Dieese, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos. O levantamento, contido num relatório de 19 páginas, foi divulgado pela entidade na quinta-feira (17/3). No dia seguinte, poucos jornais paulistas e cariocas – O Estado de S. Paulo, o Jornal da Tarde e o Globo – publicaram a notícia. Pouca novidade? Certamente, não.

Relatórios desse tipo são produzidos com regularidade pelo Dieese, mas a informação nada tinha de rotineira. Bem explorado, o material poderia enriquecer tanto as análises do consumo – ainda vigoroso, apesar do aperto de crédito – quanto o debate sobre a tendência da economia: já começou, de fato, a desaceleração?

Boa parte do material publicado nas últimas duas semanas trata dessa questão. A avaliação do cenário tem variado de um dia para outro e nenhuma reportagem ou análise forneceu, até agora, uma resposta firme. Alguns dos textos mais cuidadosos deixam clara a dificuldade do diagnóstico. Neste momento, o problema tem especial importância política por causa da instabilidade dos preços. Decisões sobre o combate à inflação dependem da avaliação do ritmo de atividade.

Alguma desaceleração parece inevitável, depois da expansão de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010. O Ministério da Fazenda estima para este ano um crescimento econômico de 5%. O dado apareceu no documento ‘Economia Brasileira em Perspectiva’, juntamente com uma nova projeção da demanda interna. Estranhamente, a maior parte dos jornais desprezou esse material.

Barreiras comerciais e algodão

O mercado financeiro tem projetado um crescimento em torno de 4,5% para o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, o resultado final do ano talvez nem chegue a isso. Mas um indicador elaborado pelo próprio BC mostrou em janeiro uma atividade mais intensa que no mês anterior. Pergunta evidente: será preciso pisar no freio mais fortemente para reduzir o crescimento a um ritmo sustentável?

A discussão continuará nas próximas semanas, enquanto se esperam informações mais amplas sobre o nível de atividade. Dirigentes de entidades empresariais têm procurado transmitir a noção de uma economia já em marcha mais moderada e sem grandes pressões de demanda. É a sua maneira de argumentar contra novas medidas de aperto monetário.

Mas tanto os dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) quanto os do Ministério do Trabalho mostraram uma oferta de emprego ainda em rápida expansão em fevereiro. Empresários não costumam empregar, e muito menos com carteira assinada, só pelo prazer de aumentar a folha de salários e o recolhimento de contribuições previdenciárias. Provavelmente já ocorre alguma desaceleração em alguns setores, mas ainda faltam peças para a montagem do quebra-cabeças. Descobrir e juntar essas peças será um bom trabalho para a imprensa nas próximas semanas.

A propósito de juntar peças, faltou, pelo menos até sábado (19/3), quando o presidente Barack Obama desembarcou em Brasília, um pouco mais de esforço para oferecer aos leitores um material bem organizado e fácil de ler sobre a relação Brasil-Estados Unidos. A maior parte dos jornais gastou muito espaço com reportagens e artigos preparatórios, mas faltou ordenar e sintetizar as informações. Pontos de atrito comercial foram citados, mas não se ofereceu ao leitor um quadro organizado e claro do conjunto dos problemas.

A Folha de S.Paulo chegou a publicar, no caderno de Economia e longe da cobertura da visita, um pequeno e bem organizado material sobre barreiras comerciais contra produtos brasileiros nos Estados Unidos. Os jornais poderiam ter feito algo desse tipo, mas em escala mais ampla, sobre velhos problemas (como essas barreiras) e sobre as discussões em andamento (por exemplo, a respeito dos desdobramentos do conflito sobre o algodão). Não basta mandar uma grande equipe de repórteres atrás de histórias e depois enfiar o material em várias páginas. Isso apenas transfere o problema do editor para o leitor.

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