Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O mundo perdeu valor

Por Maria Helena Tachinardi em 30/06/2015 na edição 857

“Quando cheguei à sala de briefings do Itamaraty, em meados de 1985, para iniciar pela Gazeta Mercantil a cobertura de política externa, ainda havia cabines de telefone fechadas para os jornalistas falarem com seus jornais e ditarem matérias. Contígua a esse espaço, a sala de imprensa com vista para o lago. Mesas, máquinas de escrever e telefones… Hoje, decorridos 30 anos, fica na memória o retrato de uma velocidade de fazer jornalismo talvez mais próxima do trabalho diplomático, em que predominam as negociações lentas entre Estados, sem o caráter da instantaneidade. Em meados dos anos 1980 até meados da década de 1990, os meios para elaborar e transmitir notícias eram a máquina de escrever, o telex, o fax, o telefone, o aparelho de telefoto, instrumentos de baixa velocidade quando comparados às tecnologias da revolução digital: internet, e-mail, smartphones, tablets, drones, robôs, redes sociais (Facebook, Twitter, WhatsApp, YouTube, LinkedIn, Instagram, Reddit…). A lentidão, a apuração mais demorada das informações e o modo sequenciado de transmiti-las combinavam com a natureza da atividade diplomática de então, com o componente do telegrama diplomático, substituído posteriormente pelo e-mail.”

selo_rev_jorn_espmA qualidade e a intensidade da cobertura jornalística de política externa e diplomacia, no Brasil, nem sempre foram influenciadas pelas tecnologias disponíveis. No período da ditadura militar e da redemocratização, época do romantismo das máquinas de escrever, das anotações à mão, de reportagens datilografadas em laudas com até 32 linhas de 72 caracteres cada uma, das redações esfumaçadas e barulhentas, o país conheceu uma imprensa atuante na cobertura diplomática. O mesmo não ocorre hoje, quando em plena era da informação digital e da instantaneidade nota-se uma combinação de política externa brasileira tímida com crise financeira das empresas jornalísticas. Estas se adaptam com dificuldade a um novo modelo de negócios online e o resultado são os cortes dramáticos do profissional especializado na cobertura das negociações diplomáticas e do espaço destinado a ela.

No período da ditadura militar, o contexto era de cerceamento da liberdade de expressão, e isso empobrecia o noticiário, com exceção do relacionado à política externa. Na época, esse assunto ocupava lugar de destaque nas páginas dos jornais, ao contrário dos acontecimentos internos, cuja informação era censurada. A cobertura de política externa era garantida por entrevistas com diplomatas e briefings rotineiros no Itamaraty sobre temas que refletiam o espírito do período.

Na ditadura

No governo Médici (outubro de 1969-março de 1974), por exemplo, foram temas marcantes, como o reconhecimento imediato pelo Brasil do governo de Pinochet, no Chile, sequestros de diplomatas estrangeiros e acusações de torturas no país, declarações favoráveis à desocupação de todos os territórios ocupados por Israel e posição polêmica sobre o TNP (Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares), que, de acordo com o Itamaraty, constituíam o ponto mais alto da política de congelamento do poder mundial.

No governo Geisel (1974-1979), falava-se do rompimento do acordo militar com os Estados Unidos em função das críticas da administração Carter à política brasileira de direitos humanos, a assinatura do acordo de cooperação nuclear com a Alemanha, a forte aproximação com os países árabes produtores de petróleo, o restabelecimento de relações com a China, a condenação ao apartheid.

No período Figueiredo (1979-1985), a cobertura tratou da reaproximação com a Argentina após resolução do conflito causado pelo projeto brasileiro-paraguaio de aproveitamento hídrico do Rio Paraná, ampliação das relações com a União Soviética e com a Polônia, visitas a países africanos, forte aproximação com o Iraque, atuação econômica externa voltada para o problema da dívida.

Os principais jornais do país destacavam para acompanhar essa área profissionais que se notabilizaram. O Brasil contava com jornalistas especializados em diplomacia que deixavam bem informada a sociedade acerca das questões que preocupavam as Forças Armadas no mundo da guerra fria.

Novo contexto

Tempos depois, com a abertura política e a redemocratização, a liberdade de expressão foi novamente assegurada, e já se tinha a evolução da máquina de escrever para o computador, o telex foi abandonado e substituído pela transmissão por internet. O contexto era diverso daquele que o antecedeu: o Brasil se abria para o mundo e uma série de novos problemas despontavam, enquanto os de sempre, como a dívida externa, a inflação e o conflito tecnológico, se agudizavam.

De meados da década de 1980 aos anos 1990, o Brasil vivia efervescência diplomática: visitas de chefes de Estado a Brasília tornaram-se rotineiras, viagens presidenciais ganharam consistência, os conflitos em diferentes temas demandavam uma diplomacia à altura. Os principais jornais do país acompanharam a movimentação, confiando a alguns jornalistas a tarefa de seguir de perto a política externa da redemocratização.

Na presidência da República, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso. Os temas? Uma nova era livre de desconfianças no relacionamento com a Argentina, construção de alicerces para uma integração macroeconômica com programas bilaterais de harmonização nos mais diferentes campos, constituição do Mercosul, reatamento com Cuba, lançamento da Rodada Uruguai do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), contenciosos da dívida externa, da informática e das patentes farmacêuticas com os Estados Unidos, processos antidumping e de direitos compensatórios, assinatura do Tratado de Não Proliferação Nuclear, desregulamentação da economia, privatizações, abertura comercial, pacotes econômicos, Plano Real, negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), Rio-92, Amazônia e críticas externas ao desmatamento, reuniões de cúpulas, entre elas a dos países ibero-americanos…

Poderia a imprensa da época furtar-se à cobertura de tanta novidade? Os jornais desempenharam bem o seu papel e informaram a sociedade brasileira de forma competente. Quem pesquisar sobre aqueles anos constatará essa realidade.

Não se tinha, nas décadas de 1980 e 1990, a explosão de novas tecnologias como hoje, nesta conjuntura de mudança de paradigma na mídia. Naqueles anos, os jornais ainda ostentavam importantes cifras em matéria de publicidade e circulação. Os jornais e revistas eram a principal fonte de informação dos brasileiros.

Relato de experiências

Continuo aqui o parêntese sobre minha passagem pela cobertura de política externa e diplomacia durante 11 anos, de 1985 a 1996, em Brasília. Fui enviada para escrever sobre política externa na Nova República, como foi chamado o período Sarney, e acabei cobrindo o assunto também nos governos dos outros três presidentes. Para a Gazeta Mercantil eu não era ‘setorista’, pois não cobria o prédio do Itamaraty, mas sim a política externa e as relações diplomáticas do Brasil, o que implicava não apenas ir diariamente ao Palácio dos Arcos para entrevistas, briefings e informações em background, mas também falar com embaixadas, com outros ministérios e fontes no Palácio do Planalto e no Congresso.

Desde o início do processo de discussão da Lei de Patentes, cobri audiências públicas na Câmara dos Deputados e entrevistei especialistas em propriedade intelectual, diplomatas, representantes das indústrias farmacêuticas do Brasil e do exterior e funcionários do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). O assunto foi de tal modo polêmico que o escolhi para a minha tese de mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB). Em 1993, publiquei pela Editora Paz e Terra o livro A Guerra das Patentes – O Conflito Brasil x EUA sobre Propriedade Intelectual, com prefácio do então ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso. Adaptei a dissertação de mestrado ao livro, cujas fontes primárias foram as minhas próprias reportagens na Gazeta Mercantil.

As visitas de autoridades estrangeiras ao Brasil eram precedidas de briefings no Itamaraty, situando o contexto, a importância do assunto. Mas nem sempre o que era dito formalmente pelo porta-voz ou por diplomatas graduados de departamentos da casa, diante de gravadores, refletia o discurso real que o Itamaraty queria que viesse a público. Havia um secretário-geral que se gabava de “usar” a imprensa para mandar recados a autoridades que criticavam o Brasil. E o fazia de tal forma que, na véspera da visita dessas autoridades, “brifava” os jornalistas que cobriam política externa, e o contraponto às declarações mal recebidas dos funcionários estrangeiros era publicado no dia seguinte, tática que visava criar um clima de constrangimento para os visitantes que desembarcavam no país.

Na sala de imprensa do Ministério das Relações Exteriores, encontravam-se diariamente repórteres de O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Agência Brasil, Notimex, Ansa, AP, France Presse, Reuters, EFE. Sempre tinham pautas e requisitavam respostas do porta-voz ou entrevistas com diplomatas especializados no assunto em questão.

Essa variedade de veículos interessando-se por política externa denotava a importância do assunto para a mídia, que vivia tempos de razoável saúde financeira. O período era de democracia plena; portanto, não se tratava de enfatizar a política externa em detrimento da política interna.

Escassez de reportagens

Hoje, já não há setoristas, como nos períodos mencionados, acompanhando as atividades diplomáticas do Brasil. Esses assuntos são tratados esporadicamente em colunas, como a do jornalista Clóvis Rossi e do professor de relações internacionais na Fundação Getulio Vargas (FGV), Matias Spektor, ambos na Folha de S. Paulo, e em reportagens da repórter especial do mesmo jornal, Patrícia Campos Mello. O Valor Econômico, lançado em 2000, que tinha na política externa uma de suas prioridades, com a cobertura sistemática pelos jornalistas Sergio Leo e Daniel Rittner, já não dispõe de setoristas acompanhando rotineiramente os passos da diplomacia brasileira. Em sua coluna semanal no Valor, Sergio Leo trata, em geral, de temas de comércio exterior. O embaixador Rubens Barbosa, que preside o Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), aborda temas de política externa em coluna quinzenal em O Estado de S. Paulo.

No processo de enxugamento de custos dos jornais e migração destes para serviços online de conteúdo fechado, como Valor Pro, do Valor Econômico, e Broadcast, de O Estado de S. Paulo, a principal vítima foi a cobertura de política externa.

“A política externa não se enquadra na cobertura em tempo real, pois é de baixo valor agregado, não mexe com o mercado, não faz preço”, diz Daniel Rittner, que no início do seu trabalho no Valor, 15 anos atrás, cobria diplomacia com a ênfase dada à área pelo jornal, o que incluía garimpar notícia no dia a dia por meio de conversas com diplomatas, nem sempre com a preocupação imediata de levar matéria para o jornal. Hoje, é impensável esse tipo de cobertura.

Com o protagonismo que alcançou nos dois governos do presidente Lula, tendo à frente do Itamaraty o chanceler Celso Amorim, a política externa, até 2010, ainda conseguia espaço nos jornais. Hoje, porém, transformou-se em um tema mais de análise do que de cobertura. Daí ser tratada por colunistas.

O profissional com experiência na cobertura diplomática é “pouco cobiçado” nas redações, comenta Rittner. Os jornais não sentem necessidade alguma de cobrir política externa. Essa baixa valorização também se deve à “indigência da política externa” atual. Sobre esse tema e com esse título, Patrícia Campos Mello, em coluna na Folha de S.Paulo online do dia 13 de março, relatou debate na FGV com acadêmicos, jornalistas e representantes de governo e sociedade civil. O debate versou sobre o Brasil, a cooperação sul-sul e os desafios para a paz e a segurança mundial. “No debate, não conseguimos abstrair o atual cenário de crise e seus reflexos sobre nossa política externa”, diz ela.

De fato, depois de um período de estridência da política externa “ativa e altiva” (slogan cunhado por Celso Amorim), com abertura de novos postos diplomáticos no exterior, sobretudo na África, o Itamaraty frequenta o noticiário pelo prisma da penúria, pois sofre com cortes no orçamento, e o resultado são as constantes reclamações de consulados brasileiros ao redor do mundo. O Brasil também está atrasando contribuições obrigatórias a organismos internacionais. Sem falar no déficit de liderança do país em assuntos nos quais se envolveu fortemente no passado.

“Por mais que o Itamaraty encontre maneiras de otimizar seus recursos – e há gordura para ser cortada, ao mesmo tempo que falta dinheiro para pagar a conta de luz –, sem a ‘vontade’ da presidente Dilma Rousseff de investir seu tempo e atenção em política externa, vai ser difícil essa situação mudar”, escreveu Patrícia Campos Mello.

Hoje, não é tanto o modelo de jornalismo online, que exige rapidez, que ameaça a intensidade e a qualidade da cobertura de política externa, mas a crise do jornalismo impresso e da própria política externa brasileira.

Valor agregado

Uma vantagem dos meios digitais é que facilitam as informações para os jornalistas. Mas, no caso da diplomacia, até pelo seu caráter sigiloso, essa vantagem é irrelevante. No site do Ministério das Relações Exteriores constam discursos da presidente da República e do chanceler e notícias sobre visitas de autoridades estrangeiras, mas esse “declaratório” não tem valor para quem pesquisa uma história com valor agregado. No Itamaraty, o valor agregado está nos telegramas (e-mails) diplomáticos, sobre os quais não há transparência. Daí a necessidade de uma cobertura em que o repórter extraia de suas fontes diplomáticas algo que mexa com as relações comerciais, econômicas e políticas entre os países. Atualmente, em função do controle do fluxo de informações e da centralização, torna-se ainda mais difícil para o jornalista obter notícia de “valor agregado”.

Política externa é composta de processos, como o de construção do Mercosul, ou a negociação do acordo de preferências tarifárias entre o Mercosul e a União Europeia. Para efeito do jornalismo online, uma informação que interessaria a quem assina os serviços de conteúdo fechado, como o Valor Pro, seria a troca de listas de produtos passíveis de redução tarifária.

Nem em colunas de edições online dos jornais nem em blogs sobre temas variados a política externa é abordada. Em OGlobo.com, a jornalista Eliane Oliveira, que há anos cobre comércio exterior, tem uma coluna em que algumas vezes menciona fatos ligados ao Itamaraty. Na coluna do dia 7 de abril, por exemplo, refere-se ao acordo nuclear entre potências ocidentais e o Irã e o compara com tentativa semelhante no governo Lula, conforme descrito no livro do ex-chanceler Celso Amorim, Teerã, Ramalá e Doha – Memórias da Política Externa Ativa e Altiva (Benvirá, 2015).

Blogs dos principais jornais brasileiros, assinados por correspondentes e ex-correspondentes do Brasil no exterior, ocupam-se mais de mostrar fatos sociais, culturais, políticos e econômicos de países onde esses profissionais vivem do que contar o que se passa na política externa brasileira. Ou seja, fala-se mais para os brasileiros sobre o mundo que acontece lá fora. Fala-se quase nada sobre as relações do Brasil com o mundo. Sabe-se pouco do Brasil no concerto das nações.

***

Maria Helena Tachinardi trabalhou na Gazeta Mercantil de 1980 a 2003. Cobriu política externa em Brasília, foi correspondente em Washington, e editora-executiva da Gazeta Mercantil Latino-Americana. É autora de A Guerra das Patentes (Paz e Terra, 1993), entre outras obras.

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