Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & ELEIÇÕES

O ‘novo’ jornalismo americano

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 09/11/2004 na edição 302

A cobertura das eleições presidenciais de 2004 constituiu desafio particularmente importante para o jornalismo americano. O comportamento acrítico e engajado em favor da Presidência após os atentados de 11 de setembro de 2001, e nos preparativos e início da invasão do Iraque em 2003, havia deixado no público mais sofisticado – e na maioria dos próprios jornalistas – um sentimento de frustração e desapontamento, que poderia de alguma forma ser superado durante a campanha para a Casa Branca.

De algum modo, no entanto, a ansiedade para provar a si mesmos e à sua audiência que eles não estavam comprometidos com George W. Bush pode ter levado muitos profissionais e veículos de comunicação a cometerem erros de desinformação similares aos observados na guerra do Iraque e nos desdobramentos do 11 de Setembro, só que agora em direção ideológica diversa.

Nos grandes meios de comunicação do establishment liberal do país, como The New York Times, CBS, The Washington Post, ABC, Newsweek etc., a torcida por John Kerry foi quase indisfarçável no noticiário e declarada nos editoriais.

Em alguns casos, como na reportagem de Dan Rather no programa 60 Minutes da CBS sobre o serviço militar de George W. Bush [veja remissão abaixo], sua credibilidade saiu indiscutivelmente chamuscada. O assunto era conhecido: o presidente não apenas havia usado de artifícios para escapar dos combates no Vietnã como deixara de cumprir suas mínimas obrigações como integrante da Guarda Nacional nos EUA. Rather relatou haver provas incontestáveis de que Bush não havia nem mesmo aparecido para realizar exames físicos compulsórios.

Os tais documentos, logo se descobriu, estavam impressos com uma tipologia de computador, inexistente na década de 1970, e não das máquinas de escrever que havia na época. Rather, que protagonizou um dos mais lastimáveis espetáculos do pós-11 de Setembro, ao se colocar à disposição de Bush em entrevista a David Letterman, insistiu por dias na autenticidade de seus papéis até ter de reconhecer que eles haviam sido forjados por pessoas ligadas ao Partido Democrata (de Kerry).

Há 50 anos

Emissoras de rádio e TV claramente identificadas com Bush e seus aliados não parecem ter tido problemas de consciência por mistificar, exagerar, mentir em relação a fatos ou insinuações com referência a Kerry e, antes de ele vencer a convenção democrata, a outros aspirantes à candidatura de oposição. Da mesma forma, o cineasta Michael Moore e outros não demonstraram nenhum tipo de dúvida ou remorso por distorcerem e manipularem fatos para prejudicar e difamar o governo de Bush.

Assim, os meios de comunicação dos EUA reproduziram, alguns com sentimentos de culpa e outros descaradamente, a grande divisão em que a sociedade americana está engolfada. Pode-se condená-los por terem se afastado do distanciamento crítico e rigor metodológico na apuração dos fatos. Mas não se pode deixar de levar em conta que jornalismo e jornalistas fazem parte do ambiente social em que vivem e é muito difícil escapar dele.

Por exemplo, é simples acusar a mídia americana de ter dado tanto espaço e importância a assuntos como as inverossímeis alegações de antigos inimigos pessoais de Kerry de que o senador na verdade não foi merecedor das medalhas por heroísmo que recebeu da Marinha durante a Guerra do Vietnã, e muitas outras fofocas desse gênero. Em vez de ter-se dedicado ao sensacionalismo, os veículos deveriam estar discutindo plataformas de governo, projetos e idéias, argumentam os críticos.

É verdade. Mas o fato é que os ‘velhos’ meios de comunicação têm controle cada vez menor da agenda da opinião pública. Há 50 anos, eles eram os gatekeepers da sociedade, decidiam o que a sociedade ia ou não ficar sabendo. Mas atualmente, com a internet, os blogs, os canais de TV por assinatura, os anúncios pagos por entidades supostamente apartidárias, é praticamente impossível esconder qualquer tema, por mais escabroso que a princípio pareça ser. E os veículos que não os cobrirem podem ser ou atacados por escondê-los ou perder consumidores.

Dever de jornalistas

Alguns exemplos anteriores a 2004. Quando Genniffer Flowers, uma obscura dançarina de Arkansas, em 1992 começou a espalhar que ela havia tido um caso extraconjugal com o então pré-candidato democrata à Presidência Bill Clinton, o New York Times e outros diários de prestígio resolveram ignorar o caso. Só que ele ganhou tamanho destaque em tablóides sensacionalistas e programas de rádio de extrema-direita que a campanha de Clinton ficou paralisada.

O Times e outros jornais deviam uma explicação a seus leitores sobre as razões por que o líder entre os aspirantes da oposição tinha sumido do mapa político. Como fazê-lo sem citar Flowers?

Da mesma forma, quando o pioneiro do jornalismo da internet Matt Drudge publicou em seu site, em 1998, que Monica Lewisnky tinha guardado um vestido manchado pelo esperma de Clinton, nenhum veículo jornalístico ‘sério’ deu atenção à notícia. Mas quando a Justiça exigiu que Lewsinsky apresentasse o vestido como prova, como evitar o tema?

Atualmente, é impossível evitar o que os meios alternativos divulgam. Mas o jornalismo de prestígio ainda pode se diferenciar se dedicar aos escândalos apuração séria e profissional; e esclarecer os fatos de maneira conclusiva e discreta (ao contrário do que fez Dan Rather no caso da Guarda Nacional), em vez de competir com o sensacionalismo barato, como muitos fizeram na campanha de 2004.

Outra maneira de os jornalistas dignos se diferenciarem é forçar políticos e autoridades a responder suas perguntas. Generalizou-se, nos EUA e também no Brasil, o hábito de personalidades públicas simplesmente ignorarem o que lhes é questionado por um jornalista, um cidadão ou outro político e discorrer sobre qualquer outro assunto que lhes convenha. Esse comportamento foi visto nos debates eleitorais deste ano nos dois países.

Os jornalistas têm o dever de não aceitar esse procedimento e exigir, com educação mas firmeza, que a pessoa a quem uma pergunta é feita trate do tema a que ela se refere. Com isso, estará contribuindo para que o eleitorado seja esclarecido e tome decisões mais conscientes.

Outro dever do jornalismo é checar se as respostas dadas estão corretas ou são mentirosas ou inexatas. Fez-se um pouco disso nas eleições deste ano, tanto nos EUA quanto no Brasil. Mas não o suficiente. As respostas, assim como os programas e propostas de governo, são divulgadas com muito mais destaque do que eventuais checagens de sua viabilidade ou acurácia.

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Jornalista, diretor da Patri Relações Governamentais & Políticas Públicas

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