Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > ROYALTIES DO PRÉ-SAL

O olhar vesgo da imprensa

Por Luciano Martins Costa em 18/03/2010 na edição 581

Atenta, como sempre, às oportunidades do jornalismo como espetáculo, a imprensa brasileira dá grande destaque, nas edições de quinta-feira (18/3), à manifestação ocorrida no Rio de Janeiro em protesto contra a emenda do deputado Ibsen Pinheiro, que tenta alterar o sistema de partilha dos recursos da exploração do petróleo.


Os jornais estão prenhes de imagens e declarações, quase unanimemente repercutindo as queixas dos estados em cujas áreas territoriais é feita a extração, mas nenhum deles vai ao que interessa na questão dos royalties.


A análise mais interessante não cativou os editores e nem brotou de uma pergunta inteligente de um repórter. Ela foi dada espontaneamente pelo empresário Oded Grajew, um dos criadores do Instituto Ethos de Responsabilidade Social Empresarial e o principal articulador do movimento Nossa São Paulo.


Baixo IDH


Grajew declarou, inicialmente à rádio CBN, que os debates em torno da riqueza potencial das novas reservas de petróleo estão deslocados do seu eixo mais importante. Discute-se para onde deve ir o dinheiro, quanto cabe a cada estado e a cada município detentor dos direitos segundo a lei; se o dinheiro deve privilegiar ou compensar essas unidades da Federação ou se deve ser repartido igualmente para todos os Estados.


Na opinião de Oded Grajew, que sequer foi suspeitada pelos jornais, a questão principal é: o que fazer com a dinheirama.


O empresário lembra que, até agora, os royalties pago aos municípios que são sede de atividades petrolíferas não serviram a suas populações. Ele observa que os municípios fluminenses de Campos dos Goytacazes e Macaé, duas das principais entradas do petróleo da bacia de Campos, não registraram melhoras significativas nas condições de vida de suas populações desde que o petróleo começou a jorrar.


Segundo dados da ONU, Macaé se encontra na posição 815 no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal no Brasil. Campos dos Goytacazes é o município número 1.818 na lista do IDH-M, com altos índices de analfabetismo e uma renda per capita equivalente à de Nova Iguaçu e inferior à de Nilópolis.


Os jornais passam ao largo dessa questão. Por quê?


Benefícios de longo prazo


A maioria dos principais meios da imprensa brasileira ainda separa a economia do bem-estar social. Orçamentos, faturamentos, receita tributária, Produto Interno Bruto e outros dados sobre a riqueza nacional raramente são cotizados com o que podem ou devem produzir de bem-estar para a população.


No caso dos royalties do petróleo, a observação de Oded Grajew apanha a imprensa de olhos tapados. Por que antes que ele fizesse essa observação nenhum jornal havia proporcionado a seus leitores esse questionamento, que deveria ser a essência de todo o noticiário sobre os recursos financeiros disponíveis? A quem devem beneficiar?


No caso do Rio, centro principal dos protestos dos estados e municípios produtores de petróleo, que se sentem lesados pela emenda do deputado Ibsen Pinheiro, o principal argumento que se apresenta é o da suposta dificuldade que tal emenda, se vier a ser aprovada pelo Senado e aceita pelo Executivo, poderá provocar para o financiamento da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.


Muito provavelmente os queixosos têm razão, a se considerar o que diz a Constituição.


A pergunta que nenhum jornalista fez, e que foi respondida assim mesmo pelo empresário Oded Grajew, é: que benefícios de longo prazo as populações desses e de outros estados podem esperar da anunciada riqueza que deve jorrar das reservas do pré-sal?


Reproduzindo o chororô


Os principais jornais do país, aqueles que têm influência nacional, não se tocaram que essa é a questão mais importante porque não possuem, em seu DNA e em sua cultura interna, a sensibilidade para os temas relacionados à questão do desenvolvimento sustentável.


Costumam investir tempo e dinheiro na remodelação gráfica, como fez o Estado de S.Paulo na semana que passou, fazem esforços de cobertura dos grandes eventos, mas não tratam de introduzir em seu sistema de convicções os paradigmas da sustentabilidade.


Aceitar o chororô de governadores e prefeitos que alegam o risco da falência – sem perguntar o que o dinheiro do petróleo tem feito pelo bem-estar de suas populações – é o mesmo que reproduzir os press-releases, os comunicados oficiais dos governantes.


Para isso nem é preciso ser jornalista.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/03/2010 Otávio Santos

    Mas se o Governador do Rio fosse do PT, não se discutiria sobre isso. As reivindicações seriam justas. Os royalties deveriam ficar mesmo no estado. Mudam-se os discursos conforme a conveniência.

  2. Comentou em 18/03/2010 Laercio Lucas Baryoussef

    Aqui na Bahia temos uma exemplo emblemático. São Francisco do Conde tem uma das maiores rendas per capita do país. Os royalties dariam pra pagar um salário mínimo a cada morador e ainda sobraria. No entanto, a cidade é um pobreza só, tanto social quanto estruturalmente; alguns edifícios históricos (parecidos com o Pelourinho) e mais nada. ‘Onde está o dinheiro? O gato comeu, o gato comeu. E ninguém o viu? O gato fugiu, o gato fugiu’.

  3. Comentou em 18/03/2010 Maurício Tuffani

    A revista Unesp Ciência dedicou a matéria de capa de sua edição de fevereiro deste ano ao tema do uso dos royalties do petróleo. Para quem tiver interesse no assunto, a reportagem do jornalista Pablo Nogueira está acessível pelo endereço http://www.unesp.br/aci/revista/ed05

  4. Comentou em 18/03/2010 Maurício Tuffani

    A revista Unesp Ciência dedicou a matéria de capa de sua edição de fevereiro deste ano ao tema do uso dos royalties do petróleo. Para quem tiver interesse no assunto, a reportagem do jornalista Pablo Nogueira está acessível pelo endereço http://www.unesp.br/aci/revista/ed05

  5. Comentou em 18/03/2010 kelly cristina de aquino

    Se o lucro do petroleo fosse investido pelo menos na população próxima das refinarias , com certeza seria o mínimo que poderia fazer pelas pessoas, Nas áreas de saúde, educação, moradia, mas a ganância é demais, infelizmente o povo é que paga o preço da indiferença.

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