Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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O outro lado da história não estava lá

Por Rossini Barreira em 27/06/2005 na edição 335

Assim caminha o jornalismo brasileiro. Na sexta-feira (24/6), o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem sob o título ‘PT do Acre tem contratos de publicidade suspeitos’, assinada pelos repórteres Fernando Rodrigues, da Sucursal de Brasília, e Fernando Cazian, enviado especial a Brasília.

Na reportagem, os dois jornalistas levantavam suspeitas acerca do contrato de publicidade que o governo do Acre mantém com a agência mineira Asa Comunicação. Insinuavam que os aditivos orçamentários do contrato eram ilegais e que o negócio somente existia porque um dos diretores da empresa, o jornalista mineiro Américo Antunes, havia sido candidato a deputado estadual pelo PT nas eleições de 1998. O favorecimento haveria, segundo o jornal, porque o governador do Acre, Jorge Viana, é do PT.

Quando um leitor desavisado lê a reportagem, fica pensando em todas as maracutaias que existem ali, já que o texto parece muito exato, pois informa valores dos contratos e expressa a opinião de uma ex-procuradora federal. Mais que isso, a reportagem ouve o próprio Américo Antunes e o secretário de imprensa do Acre, Aníbal Diniz, cumprindo, dessa forma, a regra do bom jornalismo: ouvir os dois lados do fato.

Mas ao se conhecer o teor da carta enviada pelo jornalista Américo Antunes ao ombudsman da Folha de S.Paulo, jornalista Marcelo Beraba, no mesmo dia da publicação da matéria, descortina-se uma outra visão acerca da reportagem. Descobre-se que o texto escrito pelos dois jornalistas não corresponde com exatidão ao que eles apuraram. Ou seja, eles escrevem o que interessava para reforçar a tese da suspeição sobre os contratos e omitem as informações coletadas por eles mesmos, que enfraqueceriam o gancho da matéria.

‘Atestado ideológico’

Os autores da matéria chegam a fazer uma conexão do fato em questão com a denúncia do mensalão. Para isso, utilizam um depoimento de um deputado de oposição [João Correia, do PMDB], que sugere um elo pelo fato de a empresa Asa Comunicação ser de Minas Gerais, assim como também o é a empresa SMPB, do publicitário mineiro Marcos Valério, envolvido nas denúncias do deputado Roberto Jefferson.

Abaixo, a íntegra da carta enviada por Américo Antunes a Marcelo Beraba: o verdadeiro outro lado da história.

Prezado Marcelo Beraba,

Embora já tenha visto muita coisa como repórter, editor de jornais e dirigente do Sindicato dos Jornalistas de Minas e da Fenaj, fiquei estupefato com a matéria de hoje [24/6] da Folha de S.Paulo sobre a publicidade no Acre, assinada por Fernando Rodrigues e Fernando Canzian. O segundo ligou-me duas vezes ao longo dessa semana, pelo meu celular.

Ao se apresentar ao telefone na segunda-feira no final da tarde, Canzian perguntou-me se eu era o Américo Antunes, ex-presidente da Fenaj, candidato a deputado pelo PT em 1998. Com a minha confirmação, ele falou da matéria que estava apurando sobre as ‘irregularidades’ no contrato da Asa Comunicação com o Governo do Acre e do meu envolvimento pessoal.

Quanto aos méritos das alegadas irregularidades, eu ponderei que os contratos podem ser renovados em até 60 meses, como expresso na Lei 8.666, e encaminhei depois, por e-mail, uma extensa lista de renovações similares. Já sobre os valores, eu lembrei que a mesma lei permite reajustes superiores aos 25% previstos, visando resguardar o equilíbrio econômico/financeiro dos contratos, no caso de elevação de encargos de terceiros – em se tratando da publicidade, o aumento periódico dos preços cobrados, por exemplo, pelos veículos de comunicação.

Nessa primeira entrevista, disse também que não tinha qualquer fundamento relacionar a minha condição de ex-candidato do PT com o contrato da Asa no Acre. Afinal, a licitação fora vencida pela agência em 2001 e o contrato assinado em 4 de abril daquele ano. Portanto, dois anos e dois meses antes da minha entrada na sociedade!

No segundo telefonema, na quarta-feira, Canzian informou-me que tinha fontes que sustentavam a sua versão. Mais uma vez, eu argumentei ao contrário, lembrando-lhe de outras fontes, também especialistas, e da relação que eu havia lhe enviado.

Sobre mim, ele disse que não ‘haviam’ decidido ainda sobre como abordar o meu envolvimento pessoal na matéria. Infelizmente não gravei a conversa, mas o próprio Canzian, que deve ter gravado a entrevista, chegou a usar a palavra ‘ilação’ para expressar o seu entendimento quanto a possibilidade de vincular o contrato à minha condição de ex-candidato. Informou-me, então, que estava aguardando algumas outras informações do Governo do Acre e que me ligava depois; o que não ocorreu.

Pois bem, abro hoje o jornal e lá está estampada a matéria, que dá um bom e inadiável debate sobre a prática e a ética jornalística, a começar pelo lead, ao tentar vincular as alegadas irregularidades ao mensalão. Aliás, as tais ‘irregularidades’ são sustentadas por apenas uma especialista, sem o contraditório – os repórteres sequer levaram em conta a relação de contratos e outras fontes especialistas que sugeri. Fica então a nossa palavra contra a dela, mas quem sou eu, o suspeito?

Prosseguindo a leitura, a matéria mistura alhos e bugalhos, vinculando as ‘irregularidades’ da publicidade a estradas superfaturadas, segundo outra fonte – um deputado de oposição ao governador Jorge Viana, é claro –, ‘para pagar a eleição presidencial de 2002’. Se não fosse de tão grave a leviandade, seria até risível essa e a alegação seguinte do deputado, destacada na matéria: ‘Na publicidade há, mais uma vez, uma ligação mineira’.

Não bastasse esse festival de acusações absurdas, o repórter insere o meu nome, ‘que já foi candidato a deputado pelo PT de Minas, entrou na Asa em julho de 2003, no primeiro ano do governo Lula’. E o [box] ‘Outro Lado’, ao invés de dar uma outra versão como sugere o seu título, prossegue na ilação da matéria, desdenhando a área em que atuo, ‘desmentindo’ a relação ‘de ter sido candidato da deputado pelo PT duas vezes’ com o contrato do Acre – um Governo do PT, como diz o título da matéria – e, por fim, jogando seis palavras minhas: ‘Não ganhei absolutamente nada nesse governo’. Mas que governo e o quê eu não ganhei?

Não gostaria aqui de repetir bordões, mas é incrível como, com tanta facilidade e irresponsabilidade, escreve-se e publica-se uma matéria que joga na sarjeta a honra e a reputação de instituições, empresas e pessoas, em dez minutos de leitura. No caso da Asa, a matéria colocou sob suspeita a história e a honestidade de uma agência de 42 anos, deixando desde já sub judice qualquer um de seus negócios futuros.

E eu, Américo, cometi o crime de ter sido dirigente sindical dos jornalistas, candidato pelo PT um dia e trabalhar hoje em uma agência de publicidade, que cometeu o erro de não pedir atestado ideológico ao me receber. Pior: a agência é mineira ainda por cima!

Abraços, Américo Antunes

******

Jornalista, doutorando em comunicação na Universidade de Salamanca (Espanha); texto originalmente postado em seu blog

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