Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > TELEJORNALISMO

O presente de Natal do Jornal Nacional

Por Venício A. de Lima em 05/01/2010 na edição 571

Qualquer lista séria dos principais jornais do mundo incluirá o Le Monde. Fundado pelo general Charles de Gaulle (1890-1970), em dezembro de 1944, era parte do programa maior de libertação da França que se seguiu ao fim da ocupação nazista na Segunda Grande Guerra. Dirigido ao longo de 25 anos por um membro da Resistência e respeitado intelectual – Hubert Beuve-Méry (1902-1989) –, o Le Monde consolidou sua posição de ‘independência’ com as denúncias de tortura perpetradas pelo exército francês na Argélia, convencendo seus leitores de que a guerra colonial ‘não era apenas uma questão política, mas era também moral’. Tornou-se, desde então, uma referência na e da França.


Depois de 65 anos de existência, o Le Monde decidiu eleger, pela primeira vez, um personagem do ano em 2009. E essa escolha recaiu sobre o presidente Lula. O tema mereceu a primeira página do jornal francês na edição de 24 de dezembro, mais capa e longa matéria na sua revista semanal.


O que é notícia?


Serviria ao interesse público saber que um dos mais importantes jornais do mundo escolheu um presidente brasileiro – qualquer que seja o presidente brasileiro – como ‘Homem do Ano’ e quais as razões que justificaram tal escolha? Constituiria esse fato uma ‘notícia’ a ser divulgada no Brasil?


Aparentemente, sim. O portal G1, das Organizações Globo, por exemplo, postou matéria às 10h46 do dia 24/12 com o título ‘Le Monde escolhe Lula como `homem do ano 2009‘.


Vejamos qual foi o julgamento dos editores dos nossos principais telejornais sobre a ‘noticiabilidade’ da escolha do Le Monde


O Repórter Brasil Noite, da TV Brasil, deu chamada…




O jornal francês Le Monde elege o presidente Lula o homem do ano de 2009. É a primeira vez que o diário de Paris, com 65 anos de história, faz esse tipo de indicação (ver aqui).


… e nota com o seguinte texto:




Pela primeira vez o Le Monde escolhe o homem do ano: Lula


Apresentadora Carla Ramos – Pela primeira vez, em seus 65 anos, o jornal francês Le Monde escolheu a personalidade do ano e o eleito foi o presidente Lula. Segundo o jornal, um dos mais tradicionais da França, a escolha levou em conta a projeção internacional que o presidente Lula ganhou com as iniciativas de diálogo entre os países pobres e ricos. O jornal diz que Lula mudou a cara da América Latina e transformou o Brasil em uma potência. Mas o Le Monde lembrou que o Brasil ainda tem problemas estruturais na educação, casos de corrupção e uma Justiça preguiçosa (ver aqui).


O Jornal da Record não deu chamada, mas deu nota com o texto abaixo:




Presidente Lula é eleito o homem do ano pelo Le Monde


Apresentador Celso Freitas -: O presidente Lula foi eleito personalidade do ano pelo jornal francês Le Monde. É a primeira vez, em 65 anos de história, que o jornal elege uma personalidade. Em uma reportagem de quatro páginas com o título `O homem do ano`, a revista semanal do veículo destacou a preocupação de Lula com o desenvolvimento econômico do Brasil, além dos esforços do presidente na luta contra a desigualdade social e na defesa do meio ambiente (ver aqui).


O Jornal da Band deu chamada, nota e comentário:




Jornal da maior prestígio da França elege Lula homem do ano (ver aqui).


Apresentador Ricardo Boechat – O presidente Lula foi eleito pela segunda vez o homem do ano. Depois do jornal espanhol El País, agora o título veio do francês Le Monde.


Apresentadora Ticiana Villas Boas – É a primeira vez, em 65 anos de história do jornal, que o Le Monde faz esse tipo de indicação. A publicação justificou a escolha de Lula como o homem do ano por sua trajetória de antigo sindicalista por seu sucesso à frente de um país tão complexo como o Brasil, pela preocupação com o desenvolvimento econômico, com o combate à desigualdade e com a defesa do meio ambiente.


No começo do mês, o presidente já havia recebido a mesma homenagem do jornal espanhol El País. Em um artigo escrito pelo primeiro-ministro, José Luis Zapatero, Lula foi chamado de homem que assombra o mundo.


Comentário de Joelmir Beting – Para o Le Monde, francês, Lula é o homem do ano. Agora, para a revista Time americana, o cara do ano é Ben Bernanke, presidente do Banco Central dos Estados Unidos. Pararraios da crise global, ele usa e abusa. Para Lula, a crise não passou de `marolinha´, sua versão light aqui no Brasil. Para Bernanke, ela custou um desembolso em pronto-socorro, até agora, de US$ 2,7 trilhões, ou dois PIBs do Lula (ver aqui).


O SBT Brasil também deu chamada e nota:




O presidente Lula é o homem do ano. É o que diz um dos jornais mais importantes do mundo (ver aqui).


Apresentador César Filho – O presidente Lula ganhou o prêmio de `homem do ano´ de um dos jornais mais importantes do mundo: o Le Monde, da França. Pela primeira vez, em 65 anos, o Le Monde escolheu a personalidade mais importante do ano. Lula foi eleito pela trajetória singular à frente de um país tão complexo como o Brasil. Esta é a segunda homenagem a Lula na imprensa internacional só neste mês. No dia 11, ele entrou na lista das 100 personalidades mais importantes de 2009 feita pelo jornal espanhol El País. Em um artigo assinado pelo próprio primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero, Lula foi classificado de `homem que assombra o mundo´ (ver aqui).


E o Jornal Nacional da Rede Globo, o telejornal de maior audiência do país, editado e apresentado pelo jornalista que, segundo pesquisa da Datafolha, é a personalidade que recebe da nossa população a segunda maior nota na escala de ‘confiabilidade’ entre todos os brasileiros?


Para o JN, a escolha de um presidente brasileiro como ‘Homem do Ano’ pelo Le Monde não é notícia. O assunto simplesmente não entrou na pauta do telejornal (ver aqui).


Direito a informação e censura


Qual seria a justificativa editorial do JN para, ao contrário dos outros telejornais brasileiros, sonegar de seus muitos milhões de telespectadores essa informação?


Seria pedagógico conhecer essas razões, já que o JN considera – e anuncia, inclusive, nas universidades brasileiras – que pratica o paradigma do ‘bom jornalismo’, a ser seguido por todos nós.


Seria, sobretudo, pedagógico discutir o critério jornalístico do JN à luz do direito à informação do telespectador. Esse direito tem sido veementemente evocado e defendido, não pelo seu sujeito, o cidadão, mas por grupos de mídia concessionários do serviço público de radiodifusão na permanente e incansável campanha que movem contra as ‘ameaças’ de censura advindas do que consideram um Estado autoritário, incluindo decisões judiciais.


Seria a censura – partindo de onde? – uma possível justificativa para a omissão do JN, inexplicável do ponto de vista jornalístico?


Até que as razões sejam tornadas públicas, o telespectador do JN terá que se contentar com esse ‘presente de Natal’ às avessas, no 24 de dezembro de 2009: omitir e esconder uma informação à qual ele – o telespectador – tem direito.

******

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Diálogos da Perplexidade – reflexões críticas sobre a mídia, com Bernardo Kucinski (Editora Fundação Perseu Abramo, 2009)

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/01/2010 eduardo salina

    Ufa,Marcelo,que alívio ! Seu texto é um desabafo sincero,uma prova de que nem tudo está perdido nestepaíz .Só uma pequena correção, se me permite:o Le Monde nao é um jornal que ninguém lê fora da França.O Le Monde ,atualmente, é apenas um jornal que ninguém lê. Nem fora nem dentro da França.

  2. Comentou em 09/01/2010 Marcelo Idiarte

    ‘Taradinhos por um bom selvagem’, Eduardo Salina? O que me dói é saber que você é o ‘civilizado’ da história. Que coisa mais vulgar para alguém que tem formação superior. Minha referência era para ter sido ao El País e ao Financial Times, afinal ser uma das 50 pessoas mais influentes da década teoricamente é por si só mais contundente do que ser o homem do ano. De qualquer modo o glorioso professor de inglês poderia ter traduzido este trecho da Economist: ‘Under the presidency of Luiz Inácio Lula da Silva, a former trade-union leader born in poverty, its government has moved to reduce the searing inequalities that have long disfigured it’. Não que esta consideração seja algo muito relevante ou contundente, mas já que o seu ofício agora é traduções… Aproveite, depois, e diga se você acha que é correto não veicular uma informação de repercussão internacional por discordar de seu conteúdo, já que este é o enfoque do artigo do professor Venício.

  3. Comentou em 08/01/2010 Angelo Azevedo Queiroz

    A França nunca elegeria um ex-sincalista como Lula para nada, mas a esquerda européia acha chiquérrimo um sindicalista grosseiro, ignorante e iletrado no poder na AL ou na África. Durante os anos Lula, o Brasil foi humilhado pela Bolívia nos tomou os ativos da petrobrás, O Paraguai nos tungou em Iaipu, Rafael Correa nos ameaçou de calote e mandou chantageou nossas empresas e mandou prender seu funcionários,. Lula transformou nossa embaixada em pensão para Zelaya, apoiou os ditadores africanos da líbia e do Sudão, perdeu todas as indicações brasileiras para órgãos internacionais ( a última foi para a Unesco) trouxe para o Brasil o conflito do oriente médio, deu palanque para o um financiador do terrorismo internacional e agora vai comprara bilhões em caças franceses, apesar da FAB achar os suecos melhores.. Por tudo isso Lula é o homem do ano para o le monde. A escolha foi muito adequada para eles.

  4. Comentou em 07/01/2010 Davi Santos

    O jn não noticiou simplesmente pq não é notícia relevante. Um jornal frances que de uma hora para outra inventou uma tal personalidade do ano é muito suspeito, ainda mais sabendo que a frança quer empurrar um caça ruim e caro para o brasil. Todo frances sabe da ‘influencia’ do sarkozy no estado frances e não seria de duvidar que a escolha do lula foi bancada pelo presidente frances.

  5. Comentou em 06/01/2010 Werner Piana

    e tem brasileiros(?) que ainda não reconhecem a EVIDENTE melhoria das condições de vida e trabalho da população de menor poder aquisitivo. Devem viver enquistados em seus casulos da zona sul de suas cidades…

    Deveriam, nem que de carro fosse, passear pelas regiões periféricas pra ver a notável MUDANÇA promovida pelo governo do presidente Lula na vida de todos, em especial dos menos favorecidos…

    é de doer, tanta cegueira teleguiada pelo babaquissimo William – ele sim, o verdadeiro Hommer Simpson – Bonner.

  6. Comentou em 06/01/2010 rafael palomino

    Isso é exemplo não só de mau jornalismo, mas de um claro posicionamento na corrida pelas eleições de 2010. Ninguém é obrigado a gostar de Lula, mas se o presidente do Brasil (seja ele Lula, Itamar Franco ou quem o diabo queira) é considerado personalidade do ano por um dos mais respeitados veículos da imprensa internacional, é dever de todo bom jornal brasileiro repercutir a notícia no Brasil. Quando a Globo deixa de fazer isso, esclarece a todos nós que deixou de fazer jornalismo para praticar, descaradamente, campanha em favor de Serra.

  7. Comentou em 06/01/2010 Max Suel

    Ah, eu se fosse o Venício não assistia mais o Jornal Nacional; como não sou, continuo assistindo. (Max).
    Uma simples perguntinha: se o presidente fosse outro, e tivesse sido eleito pelo Le Monde como foi o pres Lula, o articulista Venício teria escrito algo a respeito ??? hein ??

  8. Comentou em 04/07/2007 Eduardo Ades

    Tudo bem que estamos passando por uma crise aérea, desde o desmanche da Varig e tudo o mais. Mas o que há exatamente de crítico agora? Desde o início da aviação, os vôos são cancelados e aeroportos são fechados devido ao mau tempo. Isso lá é notícia? Então por que a Globonews emite boletins de hora em hora sobre o percentual de vôos atrasados em SP, Porto Alegre e Brasília? Se o aeroporto fecha é óbvio que os vôos vão atrasar. Será que a notícia enguiçou? Será que é bom para encher lingüiça? Ou será que o furgãozinho da transmissão ao vivo está com os pneus furados e tem que transmitir qualquer coisa de lá mesmo?
    Outra questão que ninguém discute é: por que não se transferem vôos internacionais para o Aeroporto Galeão/Tom Jobim, subutilizado, mas plenamente equipado (e recentemente ampliado) para tal fim? Por que os vôos páram primeiro em SP, para depois os outros passageiros fazerem conexões para o resto do país. Desoneraria os aeroportos de SP se a distribuição fosse feita no Rio. E os paulistas iam chegar só meia hora depois do habitual. Nada demais diante dos atuais atrasos por mau tempo!

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