Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA E A CRISE POLÍTICA

O PT sem Dirceu e a esquerda sem mídia

Por Enock Cavalcanti em 12/07/2005 na edição 337

Meus amigos, meus inimigos: começo a imaginar o que até bem pouco tempo parecia impossível. Sim, começo a sonhar com um PT sem o controle de José Dirceu, um PT sem a centralização lastimavelmente castradora que o ex-ministro-chefe da Casa Civil soube implementar, desde que impôs a hegemonia de sua corrente, a Articulação (chamada por alguns de ‘Articulação de Direita’), sobre a vida de todo o partido.

Confesso que não é fácil ir desenhando os contornos deste novo PT, de tal forma o conjunto do partido foi se viciando em encaminhar, simplesmente, as propostas que emanavam da cabeça e das articulações de Zé Dirceu – que se comportava, no PT e no governo Lula, como uma espécie de Guia Genial dos Petistas e, em vez de investir na organização e na mobilização da sociedade civil para viabilizar o projeto de poder do partido, preferiu levar o PT e o governo Lula a submeterem-se à maioria institucional da classe dominante, assumindo articulações no Congresso Nacional que, agora, vão sendo reveladas, dentro e fora do PT, como verdadeiros escândalos.

Força da natureza

Por isso, pensar um PT sem o peso de Zé Dirceu sobre o partido é qualquer coisa de delirante. E não falo apenas dos militantes mais humildes, lá de Junco do Siridó, na Paraíba, ou de Santa Rita do Trivelato, em Mato Grosso. O estilo José Dirceu congelou, quase que sepultou, a todos que compunham a aguerrida militância da agremiação, e se agora o PT se vê tão perplexo e paralisado diante dessa crise do mensalão, marcando passo em meio a uma conjuntura que parece apontar para a derrocada da estrela vermelha, tudo se deve muito ao fato de que há tempo trocou-se o ativismo político nas instâncias partidárias pela obediência quase cega a uma liderança que nos parecia extraordinária.

Reflexões sobre este processo, nesse momento, são vitais – e gostaria de ver não somente este Observatório da Imprensa, mas toda a grande imprensa brasileira se abrindo para que palpites sobre os rumos do PT começassem a fluir. Quando será que nossa imprensa mais tradicional se abrirá a artigos e comentários regulares de pensadores da esquerda militante?! Já imaginaram Leda Paulani comentando economia na CBN?! Valter Pomar discorrendo, com a verborragia que lhe é peculiar, sobre questões do modo de vida na Veja? Daniel Aarão Reis dando toques sobre a conjuntura no Jornal da Globo? Bruno Maranhão avaliando conflitos agrários para o Globo Rural? Eu nunca paro de delirar.

O fato é que, no PT, Zé Dirceu atuou como uma verdadeira força da natureza. Agora reduzido à posição de mais um dos integrantes da bancada federal, enquanto pontificava como ministro todo-poderoso do governo Lula e presidente-licenciado-mas-sempre-presente do PT, Dirceu trovejou, se fez relâmpago, só faltou fazer chover. Concentrava o poder e gostava disso. Basta recordar que agiu com tal truculência e com tal competência na defesa e no encaminhamento de seus interesses que lideranças petistas que poderiam lhe fazer sombra acabaram por se curvar a ele de uma forma humilhante, canhestra, facilitando a proeminência do seu estilo.

Para a mídia, só espetáculo

Lá no Rio de Janeiro, quando Dirceu lançou suas tropas de choque, em 1998, contra a candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do estado, a reação foi tímida, circunstancial, e vimos o feérico Vladimir, da Passeata dos 100 Mil, que enfrentou com garbo a ditadura dos militares no seu nascedouro, transformado numa espécie de fantasma a vagar pelos porões do partido, enquanto Zé Dirceu ia multiplicando, com furor, o seu poder, aquilo que no jargão da esquerda chamamos de o seu hegemonismo. Engraçado é que Dirceu sempre se refere a Vladimir como seu irmão, uma pessoa com quem teria uma ligação de sangue. Caso perfeito para se parafrasear Jô Soares: ‘Muy hermano!’

Claro que a desconstrução da liderança de Vladimir Palmeira nos custou o surgimento de Anthony Garotinho como um decodificador oportunista do ‘partido da boquinha’ – mas esse é um processo que os olhos cegos pela adoração a Zé Dirceu jamais permitiram que fosse enxergado por muitos. A Convergência Socialista, uma das primeiras correntes a clamar e a trabalhar (quando ainda contava, nos seus quadros, com a militância da então bela e irriquieta Tereza Cruvinel), no início da década de 70, pelo surgimento do PT no cenário político nacional, também não teve argumentos, nem estrutura, para se confrontar com a máquina stalinista (permitam-me recorrer a mais um chavão da esquerda) que Zé Dirceu montou no PT. A Convergência acabou, então, sendo jogada para um canto, de onde articula (já sem qualquer contribuição da menina Cruvinel) esta até agora inexpressiva rebelião que se denomina PSTU.

Também foi assim, de forma canhestra, que foram sendo ejetados para fora do PT dissidentes como Fernando Gabeira, Heloisa Helena, Chico de Oliveira, Paulo Faria, Reynaldo Gonçalves, Plínio de Arruda Sampaio Jr., o ‘menininho’ César Queiroz Benjamin, Ismael Lopes e tantos e tantos – muitos deles tiveram seu êxodo colocado em destaque na mídia nacional, outros cito apenas por razões do coração. Uma mídia que sempre encarou o processo de formação do PT mais como espetáculo do que como um fenômeno sociológico de grande repercussão. O fato é que lideranças do porte das que relaciono aqui saíram do PT, não tiveram como se impor diante da política ao mesmo tempo concentradora (de poder) e dispersiva (de adversários) de Zé Dirceu – e a versão que tentava se passar para a história era que o PT estava se firmando como ‘o maior partido de esquerda do mundo’ e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva como ‘a mais importante experiência de gestão da esquerda em toda a história deste planeta chamado Brasil’. Ledo e ivo engano.

Reconstrução coletiva

Claro que não há como deixar de caracterizar como continuísta a política econômica implementada pelo governo Lula – uma política econômica que jamais demonstrou pretender quebrar a hegemonia do capital financeiro e não consegue fazer da geração do desenvolvimento com igualdade seu principal mote, já que reserva poucos recursos aos investimentos sociais, como bem tem dito o ex-freqüentador da ante-sala do poder lulista e também agora dissidente Frei Beto. Só que na política econômica poucos podem apitar, e a contradição de Lula ser aplaudido pelo grande empresariado e pela grande mídia por assegurar, via Palocci, os mesmos rumos da política econômica de FHC jamais ficou muito evidente para as grandes massas.

É o surgimento das denúncias em torno do mensalão que vem desmontar, de vez, a empáfia do esquema Zé Dirceu, arranhado desde que Waldomiro Diniz surgiu em cena. Sim, de repente, não mais do que repente, tudo ruiu como um castelo de cartas, mostrando toda a fragilidade em cima da qual se deu a montagem do esquema do Campo Majoritário. A patuléia, certamente, tira de todo este escândalo a impressão de que se trata de mais um caso de uma liderança que se revela com pés de barro. Para a esquerda e para o PT, o problema é bem mais complicado, já que correm o risco de se esfacelarem inteiramente, se não souberem tirar da atual crise as lições que ela propicia.

Na minha singela opinião, impõe-se a necessidade de readequação de todo o processo de organização do PT, para que o partido não naufrague de vez, levando consigo os sonhos de tantos quantos pensavam construir neste país um pólo de amadurecimento da sociedade brasileira no rumo do socialismo. O PT, que nasceu se apresentando como um reformador da prática político-partidária e como ‘um partido sem patrão’, uma vez desfeitas as amarras que o mantinham aprisionado ao projeto centralizador do Campo Majoritário e de Zé Dirceu, passa a viver agora o desafio de retomar o processo de construção coletiva que o fez parecer, de início, tão diferenciado da experiência organizativa de outros partidos e mesmo do velho Partido Comunista. Núcleos de categoria, plenárias regionais, assembléias massivas, encontros nacionais em que tendências as mais diversas tinham a oportunidade de confrontar suas visões de mundo, gerando um consenso que se renovava a cada conjuntura, faziam pressupor uma inaudita experiência de construção partidária no campo da esquerda.

Ciclo vencido?

O PT sem poder, quando atuava intensamente na oposição parlamentar e tinha suas principais figuras como elementos de destaque nos movimentos sociais, era um. Basta dizer que, nos seus primeiros mandatos, na Câmara Federal, os parlamentares petistas se negavam a subscrever emendas ao Orçamento – já então identificadas como expressão de nefasta promiscuidade entre os interesses dos parlamentares e de empresários que os adotavam ou eram por eles apadrinhados. Depois que passou a galgar postos e mandatos, pelo Brasil afora, até chegar à presidência da República, o PT se transformou num partido que da radicalidade preservou basicamente o discurso. Só que palavras o vento leva.

Para sobreviver como uma experiência válida da esquerda brasileira, o PT terá que apresentar muito mais do que discurso, daqui para a frente. A crise do PT é evidente, só que não congela a luta de classes. Sabemos que os problemas estruturais que o Brasil carrega há séculos se mantêm todos aí, gerando, como sempre, conflitos cada vez mais graves. A questão, agora, é saber se, com a derrocada do Campo Majoritário e do grupo de Zé Dirceu, Genoino, Delúbio, Silvio Pereira, Marcelo Sereno etc., haverá quem seja capaz de recompor a estrutura partidária com o mínimo de criatividade e combatividade, de forma a impedir que a legenda se transforme num travesti político de si mesma.

Será o PT, nesse processo de autocrítica em que se vê mergulhado (eleição direta para a renovação dos seus comandos está marcada para o dia 18 de setembro), capaz de reconstruir seus elos com os movimentos sociais, e de recuperar seu papel de instrumento político de luta para os setores subalternizados da sociedade? Ou, como avaliam os companheiros da Consulta Popular, o ciclo do PT, tal qual aconteceu no passado com o ciclo do PCB, já estará vencido?

Mídia a ser forjada

São reflexões importantes que, no atual ciclo da história brasileira, não têm por que ficar restritas a um nicho qualquer da esquerda militante, ainda não inteiramente desvinculada dos vícios da clandestinidade e das distorções geradas pelo centralismo democrático.

Até quando a mídia brasileira vai tratar a esquerda militante da mesma forma que Zé Dirceu tratou seus desafetos no PT? É uma questão em aberto. Como em aberto continua a questão da necessidade de construção de uma competente mídia que seja ao mesmo tempo de esquerda e de massa em nosso país.

A incompetência da esquerda em forjar essa mídia e em se impor, dentro da mídia conservadora, somada à incompetência revelada agora pelo Campo Majoritário na concatenação do poder do PT pode expressar, para desgraça de todos nós que nos reivindicamos da esquerda brasileira, que ainda falta o fôlego necessário para que nossa esquerda se afirme diante das imensas responsabilidades que tem diante de si. Passado o vendaval do mensalão, talvez só nos reste a alternativa de voltar à canção de Ivan Lins – e começar de novo.

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Jornalista, fundador do PT, assessor técnico do mandato da senadora Serys Slhessarenko (PT-MT) e articulista dos sites Última Notícia e CircuitoOnline

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