Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > LULA, O FILHO DO BRASIL

O que a imprensa viu na estréia

Por Washington Araujo em 19/11/2009 na edição 564

128 minutos. Este foi o tempo decorrido entre o nascimento de Luiz Inácio da Silva, em Caetés, subúrbio de Garanhuns, em Pernambuco, e o momento em que é aclamado como a maior liderança sindical do Brasil, em São Bernardo do Campo. 128 minutos cobrindo o período que vai de 1945 até 1980.


Como jurado do Festival de Cinema de Brasília, Mostra do Distrito Federal, estive entre os 1.800 convidados para a ‘estréia internacional’ do filme Lula, o filho do Brasil, ocorrida no Teatro Nacional, às 21h de terça-feira (17/11). O burburinho corria solto. A audiência mesclava ministros, senadores, deputados, imprensa, funcionários públicos. Duas dúzias de assentos foram ocupados por deficientes auditivos. E, pasmem, visuais. A sessão foi marcada por protestos da produção do filme contra a organização do festival, que deixou os atores sem assento reservado. Com orçamento de 12 milhões de reais, Lula, o filho do Brasil é o filme mais caro da história do cinema brasileiro e será exibido em quase 400 salas no Brasil, a partir do dia 1º de janeiro de 2010.


Havia muita expectativa e a noite era realmente de celebração. As luzes se apagam. Escutamos algumas palavras de ordem: ‘Cesare! Cesare!’. Uns poucos manifestantes, 10 ou 12 pessoas, sobem ao palco com uma longa faixa com os dizeres: ‘Lula: liberte Cesare!’. O grupo não empolga a audiência. Estavam gritando sozinhos, continuariam gritando sozinhos. Extraditar ou não o italiano Cesare Battisti definitivamente não será o assunto da noite. Até que os apresentadores do festival, após os cumprimentos de praxe, convidassem ao palco Luiz Carlos Barreto e Fábio Barreto, produtor e diretor do filme.


Barretão, o pai, não se fez de rogado e reclamou de maneira agressiva pela ausência de bombeiros e brigadistas para o caso de haver algum acidente – ‘acho isso uma temeridade’. Reclamou também dos organizadores por permitir que centenas de pessoas assistissem à estréia, sentados no chão, ocupando qualquer espaço possível e, obviamente, dificultando a passagem em caso de acidente. Foi vaiado.


Em seguida usou a palavra o diretor Fábio Barreto – este é seu oitavo longa-metragem –, que continuou a ecoar os queixumes do pai e foi ainda mais incisivo: ‘O Festival não reservou assentos para os atores e a equipe técnica do filme. Estamos aqui todos em pé. Não tem uma cadeira para Glória Pires. Como vamos assistir? Peço que uma fileira, uns 30 lugares, sejam desocupados para que possamos nos sentar’. Mais vaias.


A dupla passou atestado de pessoas sem noção. Porque não reclamar a quem de direito, no momento adequado? Por que embaçar a noite de estréia do aguardado – e já polêmico filme sobre Lula – com questões miúdas e para as quais, com certeza, a platéia nada poderia fazer? Óbvio que o mal-estar não surgia ali, naquele instante. Bem antes da projeção, o clima de briga entre produção da fita sobre Lula e a (des)organização do festival lembrou clima de feira. Só faltaram, mesmo, as luvas de boxe. Fiquei pensando como seria… a organização da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Chega um momento em que amadorismo, realmente, não dá.


Como os jornais trataram da estréia ontem à noite do filme sobre Lula?


A Folha de S.Paulo abriu matéria com o título ‘Desorganização marca pré-estreia de `Lula´‘ [para assinantes; matéria da Folha Online, de acesso livre, aqui]. Destacou em subtítulos que ‘Ministro Paulo Bernardo rebateu críticas ao uso político do filme e desafiou a oposição a tentar fazer o mesmo com seus líderes’ e que ‘apesar da ausência de Lula, estreia atraiu tanta gente que elenco quase ficou de fora; Luiz Carlos Barreto reclamou e acabou vaiado’. O jornal preferiu tratar da desorganização do Festival, o que não é nenhuma novidade, do que do filme que era o tema principal do dia.


O Globo foi pelo mesmo caminho: ‘Confusão e superlotação marcam estreia de filme sobre vida de Lula’. O texto é curto e fala de tudo, menos do filme. É mais afeito à crônica social listando autoridades presentes. Destaca a manifestação contra a extradição de Cesare Battisti e as vaias para Luiz Carlos Barreto.


O Correio Braziliense publicou matéria com a manchete ‘Lula na telona, poder de pé’. No subtítulo ficávamos sabendo que o filme mesmo seria escanteado: ‘Superlotação, ministros e parlamentares em pé e produtores assustados. Esse foi o retrato da estreia do filme Lula, o filho do Brasil‘. Destacou algumas aspas interessantes: o cientista político Paulo Kramer dizendo que ‘o filme é o resultado da opinião favorável ao presidente’, enquanto David Fleischer, cientista político, acredita que a película foi feita justamente para ter efeito eleitoral: ‘[efeito eleitoral] foi o motivo principal. Havia a hipótese do terceiro mandato’. O pernambucano Jornal do Commercio: ‘Filme sobre Lula estreia com emoção e tumulto’


Não sei o que aconteceu com nossos principais jornais, mas o fato é que trataram de quase tudo, menos do filme. Disseram o que desejavam dizer e escreveram muito sobre nada. Um caso raro de passar batido no bingo. A cartela premiada falava do filme, mas as pedras cantadas ecoavam desorganização, vaias, protestos, medo de incêndio, imensos aplausos mornos. Exemplo acabado do que teremos em 2010. Sendo um dos 1.800 que assistiram a esta estréia, posso afirmar que a cobertura da imprensa deixou a desejar. E muito. Não tenho a menor dúvida que leitores dos jornais de quarta-feira (18/11) receberam gato por lebre se desejaram saber como foi a recepção ao sempre falado Lula, o filho do Brasil.


Obra contida


O filme de Fábio Barreto, estrelado por Rui Ricardo Diaz, Gloria e Cleo Pires, reproduz na tela grande o mito do herói. Da extrema penúria do sertão pernambucano à periferia do cais do porto de Santos, em viagem de 13 dias e 13 noites em um pau-de-arara, e dessa viagem o nascimento de emblemática liderança operária. A matriarca, dona Lindu, vivida por Glória Pires, pontua a trajetória. Mulher sofrida, abandonada pelo marido, cheia de filhos pequenos, estrangeira na cidade grande. Como viúva de marido vivo, Lindu protege Lula e seus irmãos do mundo e do pai sempre bêbado, o agressivo Aristides. Ela é a âncora, o chão emocional e a única personagem que infunde valores ao filho. É recorrente seu conselho ao filho prenhe de futuro glorioso: ‘Se você tem que fazer, vá e faça; e se não pode fazer, espere e depois faça’; e também o não menos incisivo chamado à perseverança usando o curioso verbo: ‘Teime, meu filho. Teime’.


Dona Lindu é quem tece os fios do destino. A bem da verdade, o nome do filme deveria ser Lindu, a filha do Brasil.


Fiel ao livro de Denise Paraná, o filme assume cores do épico. Não temos aqui Moisés abrindo o Mar Vermelho nem Jivago, em meio à revolução bolchevique de 1917, vivendo tórrido romance com Lara. Mas temos um Zé Ninguém brotando como xique-xique no sertão nordestino e guiado pelo bordão popular do ‘deixe a vida me levar, vida leva eu’.


Toda pobreza quando bem evocada no cinema já traz um que de trágico – e daí é um pulo para o épico. No caso desse filme não vemos pobreza, encontramos penúria. Os personagens parecem destituídos de tudo. Cada pequeno dia vivido é uma vitória. Se dona Lindu é a heroína, o pai Aristides é o vilão. Vilão agressivo quando presente. E não faltam situações a nos levar ao mundo das emoções mais sentidas: o frangote que se interpõe entre a mãe e o pai quando este ameaça surrá-la; o ainda imberbe adolescente Luiz Inácio recebendo o diploma de torneiro mecânico do Senac; o casamento e o sonho da casa própria; a morte do primeiro filho e da mulher durante o parto; o acidente na metalúrgica que lhe custou o dedo mindinho; a assembléia com milhares de operários lotando o estádio de Vila Euclides e na falta de microfone a forma encontrada para se passar à multidão seu discurso; a liberdade da prisão, por algumas horas, para ir ao cemitério se despedir da mãe.


Rui Ricardo Diaz, o ator que vive Lula dos 18 anos 35 anos, merece todos os aplausos. Sua performance é cativante e, o melhor, é crível. O diretor, se quisesse, poderia se desencaminhar para o estilo lacrimogêneo – afinal, a história de Lula é em si mesma um roteiro, onde não faltam emoção e lágrimas, muitas lágrimas. Mas Fábio Barreto optou por uma obra contida. E acertou em cheio. É que não existe um personagem a ser construído nas telas, e sim uma história a ser contada na tela.


Canção antiga


Outros presidentes populares do Brasil, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, também tiveram sua história levada às telas. Nos dois casos o aspecto político era predominante. E um detalhe: os filmes foram produzidos após a morte dos personagens-títulos. Ou seja, os arquivos estavam fechados. No caso de Lula, os arquivos estão abertos, muito abertos. Lula, o filho do Brasil está mais para Dois filhos de Francisco, a obra de Breno Silveira que relata a saga dos irmãos Zezé Di Camargo e Luciano, lançado em 2005.


Vale destacar que esta não é a primeira empreitada do cinema de levar Lula para as telas. Não. No entreato temos os peões. As greves e Lula movem o filme Peões, dirigido por Eduardo Coutinho e lançado em 2004. Os depoimentos sobre os movimentos grevistas e sobre as vidas dos operários que participaram deles foram tomados às vésperas da eleição presidencial de 2002; na sua maioria, eles declaram sua paixão por Lula.


Entreatos é Lula. O filme de João Moreira Salles, realizado em um período de 40 dias, principalmente entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais de 2002, acompanha o futuro presidente em suas viagens e reuniões de campanha. Se em Peões já se vê, através de imagens de arquivo, um Lula humano, perspicaz, intuitivo, em Entreatos isto é escancarado. Se em Peões temos um Lula sindicalista, combativo, em Entreatos, também lançado em 2004, o que surge é o político articulado e amadurecido.


Agora chega a cinebiografia de Fábio Barreto lançando luz sobre a vida de Lula e passando pela narrativa linear do nascimento, infância, adolescência, maturidade. Neste sentido podemos considerar os três filmes como momentos de uma mesma personagem, fictícia por englobar vidas diferentes, mas real ao tratar do tema. Em um primeiro ato tem-se o primitivo e alienado, que em um segundo momento se revolta, combate e que por fim articula e é capaz de influir no seu próprio destino.


Se todos estavam alegres, felizes na longa espera para o início da projeção, aos 20 minutos do filme já percebíamos ondas de emoção tomando o imenso salão. E não havia pieguice. O que emocionava não era apenas o alto poder de convencimento de Rui Ricardo como Lula nem de Glória Pires, como Lindu. O que emocionava era ver nas telas o Brasil profundo, aquele país que sofre, no mais das vezes, calado; aquele país que tem bem pouca semelhança com a penitenciária paulista do Carandiru e com o bairro carioca Cidade de Deus. Assistíamos naquele ambiente – que apenas a magia do cinema pode evocar – a vitória dos que já nasciam marcados para o fracasso e a celebração do improvável sobre o provável. E nada disso foi notícia nos jornais.


O filme que a grande imprensa repercutiu nas edições de quarta-feira (18/11) em nada lembrava o filme que assisti no lotado Teatro Nacional de Brasília. Aqueles anos 1960 e 70 foram tão bem evocados que, de repente, me vi cantarolando o antigo sucesso do Moacir Franco:




‘Sua ilusão entra em campo no estádio vazio,


Uma torcida de sonhos aplaude talvez


O velho atleta recorda as jogadas felizes,


Mata a saudade no peito driblando a emoção.’


***


Clique aqui para assistir ao trailer do filme.


Leia também


Ficção ruim converte vida única em história exemplar – Fernando de Barros e Silva [para assinantes do UOL/Folha]

******

Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/11/2009 eduardo salina

    ‘Sempre que resvalo para as cercanias de um lulismo embevecido, toda vez que sou arrastado por um esquerdismo infantilóide’- perora o professor Flávio Gomes…para em seguida o que? Resvalar para um lulismo embevecido e ser arrastado por um esquerdismo infantilóide.

  2. Comentou em 22/11/2009 Max Suel

    Prezado Prof. Flavio Gomes: alguns reparos necessários. 1) Moro muito longe do Morumbi; mais precisamente na Zona Leste, em antigo bairro de classe média e operária e berço da industrialização da cidade. 2) O pouco que consegui na vida foi sempre com o suor do meu trabalho honesto, ao contrário do filho de uns e outros que ganhou milhões, ou de uns que ganham bolsa ditadura. 3) A sua ironia esconde falsa premissa e sofisma: não é proibido escrever sobre o pres Lula enquanto presidente, que foi o que fez com brilho o jornalista Ali Kamel (aliás ele compilou com maestria declarações do pres Lula). O que fere a ética é aceitar que seja feito um filme que tem por objetivo o endeusamento do atual presidente, só mostrando seu lado virtuoso (aumentando obviamente este lado) e escondendo os fatos verdadeiros que contrariariam o mito Lula. Parece também anti-ético que o filme seja financiado por grandes empresas com grandes interesses no governo. Por que o lançamento do filme agora? só para fins eleitoreiros e endeusamento do personagem. O que dizer ainda do fato do pres Lula, que ficou detido apenas 30 e poucos dias, sem sofrer nenhum mau trato, receber desde os anos 90 a bagatela de R$ 5.000,00 (aprox), muito acima do que ganha qualquer aposentado deste país: isto é anti-ético, embora legal.

  3. Comentou em 21/11/2009 Flavio Siqueira

    Mais um lixo cinematográfico do cinema nacional. Fazer um filme sobre o Lulla com ele ainda no poder não passa de puxação de saco e sabujice da pior espécie. E pensar que o culto à personalidade morreu com Stalin…

  4. Comentou em 20/11/2009 Flavio Gomes

    Eu não vi o filme. Portanto, não sei se vou gostar ou não dele. Gostei do artigo, mas isso não quer dizer nada em relação ao filme. WA gostou do filme e escreveu um artigo do qual eu gostei. Mas continuo sem saber se vou gostar do filme ou não. Em princípio, isso deveria ser o substrato dos comentários aqui, pois, aparentemente, nenhum dos comentaristas, como eu, viu o filme. E aí vem um cavalheiro e diz que o fundo do poço moral é não poder desgostar de um filme. Concordo inteiramente com ele. O problema, ou melhor, os problemas são a) ele não viu o filme do qual desgosta e b) ninguém o atacou por isso. Resta a questão do ‘fundo do poço moral’. Que fundo, que poço, que moral?

  5. Comentou em 19/11/2009 eduardo salina

    Um país chega realmente ao fundo do poço moral quando fica proibidp
    desgostar de um filme que lambe as botas do presidente.

  6. Comentou em 19/11/2009 eduardo salina

    Um país chega realmente ao fundo do poço moral quando fica proibidp
    desgostar de um filme que lambe as botas do presidente.

  7. Comentou em 19/11/2009 Carlos Fortunato

    O filme parece ser muito bom. Dona Lindu sintetizou bem o ideário do Luiz Inácio, essas são frases dela que recolhi na internet: ‘Primeiro a obrigação, depois a distração’; ‘O mais importante é não esquecer de onde você veio’; ‘A gente faz o que dá pra fazer, mesmo que seja pouco’; ‘Se você sabe o que é pra fazer, vai lá e faz, se não der, espera.’ Vai ser difícil separar minha boa estima do presidente para o filme como produto cultural. Mas torço para que faça sucesso porque a historia é realmente boa. Obrigado pela resenha e crítica da estreia que passou batido no bingo da grande e hipócrita mídia. Abraços, Carlos.

  8. Comentou em 19/11/2009 Pedro Costa

    Tem cabimento o cara sair de casa pra ver esse ‘ filme ‘?

  9. Comentou em 19/11/2009 Antonio Carlos Pinheiro

    Saudades do futuro… não vejo a hora de também poder apreciar o filme!

  10. Comentou em 28/12/2006 josenildo augusto da silva

    SR. DIRETOR ,A PRESENTE MATÉRIA ESTÁ SENDO ENVIADA AOS PRINCIPAIS JORNAIS QUE AINDA DETEM INDEPENDÊNCIA NA DIVULGAÇÃO DOS FATOS,SEI QUE É O CASO DO SEU. A CHEVROLET RECEBEU MINHA SUGESTÃO DE NOME DE VEÍCULOS,ENTRE ELES O ‘PRISMA’,MANDOU QUE EU AGUARDASSE E DEPOIS REGISTROU COMO DELA E NÃO ME PAGOU NENHUM CENTAVOS.ABAIXO TEMOS A HISTÓRIA COMPLETA.

    >
    >Contato via Website
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    > >From: noreply@inpi.gov.br > >To:
    >irmaojosenildo2@hotmail.com > >Subject: Ouvidoria – Instituto Nacional
    >da Propriedade Industrial > >Date: Fri, 8 Dec 2006 10:32:38 -0200 (BRST)
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    >de protocolo número: 117277 > > > > > >Sua Mensagem >

    >em dez/2004
    >enviei e-mails e quase todas montadoras propondo a venda de > >alguns
    >nomes para veículos automotores(varios nomes),entre eles o prisma.A GM MANDOU AGUARDAR E EM JUN/2005 REGISTROU COMO DELA E NAO ME PAGOU NENHUM CENTAVO.MAIORES DETALHES FONE 81-99851888

  11. Comentou em 19/11/2004 Breno Tupy Caldas Araújo

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