Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > CRISE COM A BOLÍVIA

O que noticiaram os jornais bolivianos

Por Lilian Pachler, de Santa Cruz de la Sierra em 09/05/2006 na edição 337

A nacionalização da indústria petrolífera decretada pelo presidente Evo Morales, no dia em que ele comemorou o seu centésimo dia de mandato, dividiu opiniões na Bolívia e levou a maior parte dos jornais e emissoras de TV a tentar adivinhar como será o país a partir de 1º de maio de 2006.


Foi um exercício onde predominaram dois tipos de atitude: a preocupação, quase um temor, sobre as conseqüências da reação internacional e o otimismo, combinando a esperança e uma aposta na clarividência do ex-dirigente cocalero (plantadores de folha de coca) Evo Morales.


Num país que estava nacionalizando os seus recursos petrolíferos pela terceira vez na história, e onde a maioria da população é indígena e descrente dos anúncios governamentais, a reação das pessoas seguiu a velha máxima do preparar-se para o pior. O fato nem chegou a ser manchete de jornal, mas não foram poucos os bolivianos que trataram de estocar gasolina tão logo souberam da nacionalização, temendo que a Petrobras paralisasse as operações no país.


Donos do gás


Logo depois do anúncio da nacionalização, a imprensa boliviana dedicou páginas e páginas ao tema, mas a cobertura foi esfriando rapidamente. O espectro do caos no abastecimento de combustíveis não se confirmou e a imprensa mudou sua agenda. A expectativa de crise cedeu lugar a notícias burocráticas sobre negociações entre La Paz e os governos estrangeiros.


Cinco dias depois do anúncio, as notícias sobre a nacionalização perderam a primazia na primeira página dos jornais. A capa do El Deber, principal jornal de Santa Cruz de la Sierra, trazia uma enorme foto da Miss Santa Cruz 2006, uma manchete sobre os protestos de Puerto Suárez e um pequeno box informando que baixou a tensão entre a Bolívia e a Espanha, por conta das nacionalizações, e que os países já estavam negociando um novo acordo petrolífero. Espaço bem pequeno, se levarmos em conta que em 2 de maio o mesmo jornal havia dedicado nada menos que 16 páginas ao assunto.


A grande preocupação dos jornais bolivianos foi a reação das empresas estrangeiras afetadas pela nacionalização. Quase todos procuraram traçar um paralelo entre as duas nacionalizações anteriores (1937 e 1969), e o decreto 28.701 de Evo Morales, mostrando os contextos históricos, os benefícios e os cenários internacionais de cada período. [Ver aqui o discurso de Morales quando da promulgação do decreto.]


O tratamento do tema petróleo também deu margem a notas bem humoradas, como o texto do cronista Paulovich (que também se identifica como Paulino Huanca e Paul Anka) intitulado, ‘Ya somos los dueños’ (Já somos os donos), publicado no jornal Los Tiempos, de Cochabamba. O autor comemora o fato de ter se tornado um dos 9 milhões de bolivianos donos do gás nacional e avisa que assim que o dinheiro for parar nas mãos dele, ‘vai arrumar muitas mulheres, seguindo o exemplo de alguns ex-funcionários da estatal YPFB [Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos] e magnatas do petróleo’.


‘Pobres e desesperados’


Os jornais que foram contra o decreto ‘Héroes del Chaco’ não esconderam o fato de que esperavam reações mais duras dos estrangeiros. Em artigo publicado na quarta-feira (3/5) no La Razón, de La Paz, o colunista José Gramunt, um padre católico e diretor da ANF (Agência de Notícias Fides), condena as nacionalizações e garante que elas não vão dar em nada porque o Estado é um péssimo administrador. Apesar de dizer que só o tempo vai mostrar se a nacionalização foi boa ou ruim, ele deixa claro que esperava um desfecho mais problemático. E pelo visto não foi só ele que se decepcionou.


A onda de críticas contra Lula veio parar na Bolívia e foi assunto, no La Razón de sexta-feira (5/5), mostrando que a pressão feita pela imprensa brasileira e a maneira como vem tratando a questão boliviana, em um contexto pré-eleitoral, aumentou a preocupação dos bolivianos sobre a reação brasileira. A matéria do La Razón diz que o tom conciliador de Lula pode prejudicá-lo no Brasil, já que estamos a menos de cinco meses das eleições presidenciais.


Já o Telepaís (da emissora Unitel), telejornal de maior audiência na Bolívia, afirmou que as divergências entre Evo e Lula estariam sendo resolvidas diplomaticamente e num clima de discrição e fraternidade.


No noticiário do dia 4/5, quinta-feira (4), depois de dar detalhes do encontro dos presidentes da Argentina, Brasil, Venezuela e Bolívia em Puerto Iguazú para discutir as conseqüências do decreto de nacionalização do petróleo boliviano, Telepaís procurou colocar o presidente venezuelano Hugo Chávez como uma espécie de tutor do seu colega Evo Morales, lançando a pergunta: ‘Será que Evo está subordinado a Chávez?’


Isso ninguém respondeu até agora, mas se a nacionalização não foi vista com bons olhos de por um lado, por outro foi tida como uma atitude de coragem e justiça. O colunista Waldo Peña Cazas, em artigo no Los Tiempos, analisa que se a Bolívia não está vivendo uma revolução com Evo, pelo menos se pode esperar mudanças positivas. Ele diz que ‘para os pobres e desesperados, a revolução não tem ideologia e nem é de esquerda ou de direita; ela só significa empregos, comida, moradia, educação e saúde’.


Principal desafio


De acordo com dados de 2001 do Instituto Nacional de Estatística, os maiores níveis de pobreza da Bolívia estão em Oruro (79,7%) e La Paz (66,2%), enquanto Santa Cruz tem o menor índice do país (38%). Não é de se espantar que para os andinos, a nacionalização foi um presente e a esperança de dias melhores. Evo Morales, que ganhou as eleições, em dezembro de 2005, com 54% dos votos (apoio do povo andino), fez questão de colocar nas emissoras de TV bolivianas uma propaganda governamental mostrando a ocupação das empresas estrangeiras por soldados do exército e as faixas afixadas avisando que agora tudo é propiedad de los bolivianos. A propaganda encerra com um carimbo na tela que diz cumplido, ou seja, cumprido – afinal, essa era uma promessa eleitoral.


Mas o que a imprensa boliviana não mostrou é que o desafio do país vai além da nacionalização dos recursos naturais. Existe uma briga muito mais difícil de ser vencida. O país está divido em dois: cambas [palavra de origem guarani que significa ‘amigo’; era usada para denominar os antigos povos indígenas assentados as margens do rio Piraí, onde Santa Cruz de la Sierra foi construída] e collas [palavra derivada de Collasuyo, uma das quatro divisões do Império Inca, que correspondeu a parte andina – oeste – do que hoje é a Bolívia]. Uma briga entre o povo do oriente (cambas) e do acidente (os andinos, os collas), uma luta entre a modernização e a cultura indígena, que busca proteger os costumes ancestrais da homogeneização provocada pelo processo de globalização.


Para a boliviana Liliana Colanzi, pesquisadora na área de estudos latino-americanos na Universidade de Oxford, na Inglaterra, uma das diferenças mais notáveis entre cambas e collas é a composição étnica das regiões. A população é em sua maioria indígena nas cidades andinas de La Paz (77%), Oruro (74%), Potosí (84%) e nos vales e terras baixas de Cochabamba (74%) e Chuquisaca (66%), em contraste com a maioria mestiça do oriente boliviano, onde os indígenas representam apenas 37% da população de Santa Cruz, 16% de Pando, 33% de Beni e 20% de Tarija.


No oriente, a modernidade se instala de forma absoluta e toma o lugar das antigas raízes. A guerra entre cambas e collas é declarada e conhecida em todo o país. Prova disso foi a criação, em 2001, da Nação Camba (Movimiento Nación Camba de Liberación), expressando o desejo do povo do oriente do país em se tornar uma república independente.


Em Santa Cruz de la Sierra é comum ouvir que eles não são bolivianos e sim cruceños. Diante disso, fica claro que um dos principais desafios do presidente Evo Morales não é só retomar o controle do petróleo boliviano, mas também nacionalizar os cambas.

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Jornalista brasileira residente em Santa Cruz de la Sierra.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/08/2009 Emerson Morais

    O problema é mais grave do que imaginamos. A Gangue do Senador Sarney mais uma vez com o clã Irã Garcete. Saem impune das atrocidades ao qual colaboraram não só para crise na Bolivia como no Paraguay. Apesar de estar em tramitação nos superiores tribunais dos E.U.A… CRIMES CONTRA A HUMANIDADE…OS MESMOS SAEM EM PUNI E MAGISTRADOS BRASILEIROS DE DIRIGEM AO POVO PARAGUAYO E BOLIVIANO COMO ‘MULAS’ ‘-SÃO APENAS MULAS QUE NÃO MERECEM A NOSSA ATENÇAOS’. VOZ DOS QUE SE DISSEM A LEI EM NOSSO PAÍS BRASIL.

    JÁ TRAMITA NO MUNDO GUERRA CIVIL. E O CLÃ DO SENADOR SARNEY E IRÃ GAY CETE. ESTÃO NA LINHA DE TIRO INTERNACIONAL.

    ENTRE OS CRIMES MANIPULAÇÃO INDEVIDA DE SEMENTES DE ALIMENTOS ONDE AS SEMENTES QUE TINHAM QUE ESTAR ISENTAS DE PRAGAS CARREGAVAM PRAGAS, FORÇANDO PRODUTORES A ADQUIRIREM INSUMOS DA PROPRIA PRODUTORA.

    ENTRE OS CRIMES ATIVAÇÃO DO VIRUS DA GRIPE SUÍNA.

    JA TEM EM FOCO DE INVESTIGAÇÃO OS RESPONSÁVEIS POR ESTÁ ATROCIDADE MUNDIAL….

    GANGUE DE SENADOR SARNEI FORA!!!! JÁ!!!!!

  2. Comentou em 11/05/2006 Ana Cristina Rabello

    Muito esclarecedora a matéria. Eu estava em busca de informações sobre o fato e achei muito interessante a visão de um brasileiro em território boliviano. Parabéns a Lilian.

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