Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O que o leitor precisa saber – II

Por Adriano Faria em 31/03/2009 na edição 531

A revelação de que o jornalista Ricardo Noblat recebe R$ 40.320,00 por ano do Senado Federal para produzir um programa radiofônico teve grande repercussão neste Observatório [ver ‘Um território sem lei‘]. Por outro lado, o tema foi praticamente ignorado pela grande imprensa: mereceu apenas duas discretas notas na Folha de S.Paulo e no Correio Braziliense. O próprio Noblat não achou necessário postar as notas dos jornais em seu blog.


O intenso debate travado no ‘território sem lei’ da blogosfera gerou mais de 200 comentários neste Observatório. Falou-se muito, e de forma apaixonada, sobre valores de contrato, pagamento de impostos, relação de jornalistas com órgãos públicos e até sobre doação financeira ao Senado. Em meio a essas questões secundárias, é preciso manter o caso no ponto central: o leitor tem o direito de saber. Para trazer a discussão de volta ao devido foco, recorro à ajuda do comentário do advogado Emanuel Cunha Lima, de Recife, que participou do debate no OI:




‘Sou leitor assíduo do blog do Noblat. Inclusive, comento com freqüência os artigos postados ali. Tenho respeito pelo Noblat. Confio nele. Por isso mesmo, não gostei de saber desse contrato com o Senado. Melhor seria não existir qualquer vínculo financeiro entre o jornalista e o Senado. As explicações não me convenceram. Acho que até pioram o quadro… Passei um email para o endereço que consta no blog dele dizendo minha opinião sobre o assunto, inclusive sugerindo que não continue com o contrato (nem sei se isso implicaria em punição pecuniária, mas, em todo caso…). Enfim, continuarei lendo o blog do Noblat, mas seguindo o slogan deste Observatório: não mais do mesmo jeito…’


Informação fundamental


O sr. Cunha Lima e por certo milhares de leitores do blog do Noblat ficaram surpresos com a existência do contrato. Teria sido melhor se tivessem recebido a informação do próprio blog. Sabedores desse novo elemento (o contrato), continuarão a ler o blog, mas ‘não do mesmo jeito’, principalmente quando o jornalista postar notícias ou comentários sobre o Senado.


É prática antiga de alguns dos principais jornais informar o leitor de situações em que um repórter faz uma cobertura que tem parte das despesas pagas por uma empresa. Uma explicação no pé da matéria do tipo ‘o jornalista viajou a convite da empresa X’ pode parecer banal à primeira vista, mas tem sua relevância. Permite ao leitor passar os olhos na matéria para tentar identificar qualquer pitada de simpatia além do normal ao produto lançado pela empresa. Não que o leitor necessariamente duvide das motivações do repórter. O repórter é humano e, como tal, pode ser influenciado pelo ambiente que o cerca, inclusive por eventuais benesses de uma empresa que quer passar a melhor impressão possível de seu produto.


O jornalista Ricardo Noblat também é humano. O fato de ser, como diz, ‘duro’ ao escrever sobre políticos, não o exime da necessidade de deixar claro aos leitores do seu blog que é remunerado pelo Senado. Toda vez que postar uma notícia ou um comentário sobre a Casa que paga a ele 40 mil reais anuais, deveria publicar uma nota tal como: ‘O responsável por este blog é remunerado pelo Senado para produzir um programa radiofônico.’


De posse dessa informação fundamental, o leitor – e só ele – poderia soberanamente julgar a situação do jornalista e chegar à conclusão que bem entendesse. É por isso que o leitor precisa saber.

******

Jornalista, Rádio Senado, Brasília, DF

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