Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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O que vale é a versão oficial

Por Ligia Martins de Almeida em 13/02/2007 na edição 420

Trinta dias atrás os jornais não falavam de outra coisa: o desabamento na obra do metrô no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Até a retirada do último corpo da cratera formada pelo acidente, o assunto foi discutido diariamente. Sempre do ponto de vista oficial, sempre dando prioridade à fala de técnicos e das autoridades.

O lado humano da tragédia só foi destacado com relação aos mortos. Dos vivos – 54 famílias obrigadas a deixar suas casas e morar em hotéis da região, sem previsão de volta à normalidade – muito pouco foi dito.

Depois de um mês da tragédia, só três vítimas apareceram nos principais jornais:

** ‘Maria do Carmo Medeiros, 78 anos, morava com o marido no número 178 da rua Capri há 28 anos. Ela não sabe se poderá voltar porque a casa vizinha corre o risco de desabar. Ela buscou hoje documentos, quadros e fotografias, mas os móveis, inclusive a máquina de costura em que trabalha, não poderão ser removidos.’

** ‘As palavras soaram como um balde de água fria para o microempresário Manoel Firmino de Lima, de 38 anos, que morava e trabalhava na casa de número 188 da Rua Capri, principal acesso à cratera aberta com o acidente do último dia 12. O imóvel dele, onde funcionava um estúdio de gravação, foi condenado pela Defesa Civil e corre risco de demolição.’

** ‘Segundo a moradora Daniela Amâncio, 29 anos, inquilina de uma casa na rua Eugênio de Medeiros, o valor oferecido pelo consórcio, formado pelas empresas Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Correa e Queiroz Galvão e responsável pelas obras, era muito baixo. Ela não quis revelar a proposta. Daniela se queixa da vida no hotel e afirma estar passando por problemas emocionais: `Estou nervosa, agressiva e comendo muito mais do que o normal. Passei mal a semana passada inteira´.’

Sobram fontes, falta pauta

De 54 famílias desalojadas, só três pessoas ganharam espaço na mídia para falar de seus problemas. O assunto não interessa ou os jornalistas só consideram notícia a informação vinda das fontes oficiais? Qualquer repórter minimamente curioso tem ao seu inteiro dispor uma centena de depoimentos para fazer uma bela matéria sobre os sobreviventes.

É só passar algumas horas num dos hotéis onde essas pessoas estão hospedadas, conversar um pouco, ou simplesmente acompanhar o movimento do saguão ou restaurante para descobrir que:

** Os desalojados foram divididos entre vários hotéis, já que alguns não aceitam animais domésticos.

** Os desalojados têm direito a todos os serviços do hotel – lavanderia, serviço de quarto, refeições, TV a cabo, internet, estacionamento. O consórcio só não paga bebidas alcoólicas.

** Não é a primeira vez que moradores das vizinhanças de obra do metrô são obrigados a sair de suas casas. Da última vez, por exemplo, ficaram três meses hospedados em hotéis de São Paulo, antes de qualquer desabamento.

** No caso das pessoas que não puderam tirar nada de casa, o consórcio pagou até um enxoval completo.

** Desta vez não há qualquer previsão de saída dos novos hóspedes e alguns até já estão procurando apartamentos para alugar. Por conta do consórcio, é claro.

Todos esses itens, que à primeira vista poderiam ser chamados de ‘mordomia’, absolutamente não substituem o conforto da casa. Isto, mesmo os repórteres mais desatentos perceberiam.

Entre os hóspedes da tragédia existem casais jovens, crianças em idade escolar, adolescentes, aposentados: uma riqueza de personagens para que um repórter aplicado contasse como é a vida de pessoas que tiveram sua rotina completamente alterada e, pior, não sabem se – e quando – poderão voltar à vida antiga.

Sem importância

Admitamos, porém, que que matérias ‘humanas’ estão fora da moda. Se isso é verdade, um bom repórter poderia fazer uma matéria econômica explicando quanto custa, para o consórcio, manter essas pessoas em hotel, com direito a todos os serviços, por tempo indeterminado. Um valor que, obviamente, será acrescentado ao custo da obra que, em última análise, é paga pelos cidadãos. Como não é a primeira vez que isso acontece, é possível concluir que se trata de uma tragédia anunciada e que os representantes do consórcio estão fazendo de tudo para evitar processos judiciais.

Somando isso aos custos da obra, da reforma das casas e das indenizações, chegaremos, com certeza, a um valor muito maior do que a imprensa está divulgado.

O problema é que a mídia – afogada em notícias vindas de agências e assessorias de imprensa – parece se satisfazer com a versão oficial dos fatos, quando os fatos não envolvem mortes ou celebridades. As tragédias diárias de pessoas comuns, ao que tudo indica, perderam a importância que deveriam ter.

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Jornalista

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