Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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O quinzenário de um homem só

28/10/2009 na edição 561

Com quatro prêmios Esso de Jornalismo, dois internacionais, 33 processos e cinco condenações nas costas, Lúcio Flávio Pinto é, aos 60 anos, uma das principais referências sobre Amazônia no jornalismo brasileiro. Seu nome já não circula na grande mídia há algumas décadas e, por este motivo, talvez não seja tão reconhecido nacionalmente como poderia ou deveria ser. Hoje, ele é pauteiro, redator, editor e mantenedor do Jornal Pessoal, um tablóide quinzenal produzido sem ajuda de mais ninguém – nem de anunciantes – em seu escritório na capital paraense, Belém.


Lúcio Flávio Pinto é ‘o segundo filho mais velho dos homens’, como ele mesmo diz. Dos sete irmãos, quatro são jornalistas. ‘Mas dos 16 netos da família, nenhum quis seguir a profissão… pode ser trauma. Para ser jornalista, tem que ter vocação’, defende. Vocação foi o que não lhe faltou desde os 16 anos, quando fez sua primeira reportagem, em 1966. Ao longo da carreira, enfrentou ações judiciais de grileiros de terras, madeireiros, políticos e da maior empresa de comunicação do Norte do Brasil, o Grupo Liberal, afiliada da Rede Globo, que já o processou 19 vezes.


‘Nenhum jornalista foi tão processado pelo mesmo grupo como eu’, calcula. Para responder judicialmente, Lúcio Flávio procurou oito advogados. ‘Nenhum quis me defender por medo.’ Uma prima do jornalista faz o que pode sem cobrar nada, mas o esforço não foi o suficiente para vencer a última batalha contra o Grupo Liberal. No último dia 3 de julho, Lúcio Flávio sofreu a quinta derrota. ‘Fui condenado a pagar R$ 30 mil, mais os honorários, mas recorri e pedi a suspensão do juiz porque o julgamento foi tendencioso.’


Sem dinheiro, mas independente


Cada um dos 2 mil exemplares quinzenais do Jornal Pessoal, que circula em Belém, custa R$ 3, mas cerca de 40% deste valor vai para a distribuição em bancas e outros tantos ficam no encalhe. Sobra apenas R$ 0,90 líquido por exemplar. Pior, desde que decidiu publicar o conteúdo do jornal na internet, suas vendas caíram. ‘Eu até peço doações pela internet, mas é simbólico. Elas nunca vêm’, constata. Para manter-se, o jornalista vive de trabalhos esporádicos, palestras e algum repasse das editoras que publicaram seus 12 livros, todos sobre a Amazônia.


O site recebe 4 mil visitas por semana, ou seja, tem potencialmente oito vezes mais leitores que o jornal impresso. Cerca de 25% dos acessos vêm dos Estados Unidos e 40% são de fora de Belém. ‘Na internet, sempre publico um ou dois números atrasados’, revela. Com essa estratégia, Lúcio Flávio pretende aumentar as vendas em bancas e garantir, ao menos, os R$ 0,90 por exemplar. Aceitar publicidade está fora de cogitação. O formato menor e mais pobre, que não depende de anunciantes, garante sua liberdade de criticar governos e empresários, segundo o jornalista.


Ao recusar anúncios, Lúcio Flávio quer evitar repetir o que viu e viveu ao longo de sua carreira na grande mídia. ‘Tive vários problemas no Estadão na época da ditadura’, conta. Ele se refere a discordâncias editoriais sobre a cobertura de questões da Amazônia dentro da própria empresa, que deixou em 1988 para fundar o Jornal Pessoal. ‘Os veículos hoje não conseguem descobrir a Amazônia moderna, internacionalizada, que tem a maior fábrica de alumínio do mundo, tem mineradora de ferro, de bauxita’, critica. Para ele, a imprensa está sempre descobrindo. ‘Pega um monte de repórter e manda pra cá. Não tem um passado, não tem uma cobertura sistemática. A Amazônia é um resíduo do Brasil. Não tem quase ninguém aqui cobrindo, acompanhando.’


Relação com o governo


Aluno do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Lúcio Flávio Pinto formou-se em sociologia pela Universidade de São Paulo, em 1973. Vinte e quatro anos depois, durante o terceiro ano do mandato de FHC, o jornalista e sociólogo recebeu o prêmio mais expressivo de sua vida, o Colombe d´Oro Per La Pace, oferecido anualmente pela organização não-governamental italiana Archivio Disarmo a personalidades e órgãos de imprensa que contribuam para a paz. ‘Dos seis vencedores do prêmio, o único que não tinha um embaixador como representante de seu governo era eu’, lamenta.


Em 1982, conheceu o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, que viajava por todo o Brasil, inclusive Belém, para consolidar o recém-fundado Partido dos Trabalhadores (PT). ‘Tenho uma boa lembrança dele. Conversamos muito e vi que ele tinha boas intenções’, lembra. ‘Aquele personagem que eu conheci não existe mais’, completa em seguida.


Sobre a possibilidade de Marina Silva ser candidata à presidência da República pelo Partido Verde (PV), Lúcio Flávio é categórico. ‘Marina Silva não tem fôlego. Nem líder amazônica ela é. Ela é acreana, não tem expressão no Pará’, dispara. Ele pondera, no entanto, que considera a candidatura da ex-petista um fator ‘positivo’, embora ressalte que ‘ela não tem condições de realizar o que promete’ por já ter feito acordos demais com o PV.


‘Não sou confiável a governo nenhum’, diz.

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