Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > VOZ DOS DONOS

O seletor de opiniões

Por Washington Araujo em 12/10/2010 na edição 611

Liberdade de expressão parece ser um seletor de opiniões grudado nas mãos dos donos de veículos de comunicação ou de seus prepostos (diretores de Redação, editores-chefes, editores em geral). A liberdade de expressão pode até ser exercida, mas seu alcance é limitado e não pode, em hipótese alguma, ultrapassar a cadeia hierárquica de comando. Que é louvável clamar por esta preciosa liberdade ninguém tem dúvidas, mas que é execrável concedê-la apenas aos que se alinham com a ideologia dos patrões, pouca gente se arrisca a duvidar.

Vejamos alguns casos bem recentes. Observo que ver apenas um caso nas cercanias da própria imprensa já reclamaria uma boa dose de atenção. Pois bem, até as paredes e os cenários da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, sabem o que teria sido o real motivo para a demissão do experiente jornalista e apresentador de tevê Heródoto Barbeiro: o exercício de sua liberdade para perguntar, da bancada do programa Roda Viva, ao ex-governador José Serra sobre os preços dos pedágios paulistas (ver aqui). No entanto, são estes mesmos que demitem, que mostram truculência e que desfraldam bandeiras pela liberdade de expressão; que altas horas da madrugada mostram-se receptivos a telefonemas exigindo a demissão desse ou daquele profissional que, na pior das hipótese, tenha cometido por pensamento ou por ação apenas um crime: o crime de pensar.

Não mais que passada uma semana e, em 8 de julho deste 2010, ainda na mesma emissora de cunho estatal, ficamos sabendo pela contumaz marolinha com que a imprensa repercute casos do gênero que o jornalista Gabriel Priolli deixara de ser diretor de jornalismo da TV Cultura. A decisão, tomada pelo jornalista Fernando Vieira de Mello, vice-presidente de conteúdo da emissora, alimentou boatos a respeito da ingerência política sobre o canal. O fato é que tanto nos corredores da emissora como na blogosfera, circulou – e ainda circula – a informação de que, por trás da demissão de Priolli, pendia em forma de guilhotina uma suculenta matéria sobre – adivinhem – o aumento nos pedágios paulistas.

Mais um pouco e ficaremos convencidos de que no jornalismo paulista expressões como ‘pedágios’ e ‘liberdade de expressão’ são como óleo e água e não podem conviver em uma mesma Redação. Um deles tem que cair, sumir, desaparecer, submergir, calar.

Indignação e espanto

Curioso é que o ato de pensar equivale em importância ao mesmo que cimento e tijolos representam para se tirar da prancheta de um arquiteto uma casa. Chama a atenção a este observador que nesses dois casos nem Barbeiro nem Priolli levaram os lábios ao trombone. No segundo caso é fácil de entender o motivo, uma vez que ele é funcionário da Cultura.

Mas tinha que ser assim? Estaremos diante de um imenso trololó midiático, essa coisa de defender em público seus próprios interesses e em privado fazer o que bem entender e do jeito que melhor lhes convier?

E, então, ficamos sabendo que o crime de pensar pode ser letal se não altamente contagioso: a psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida do jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no sábado (2/10), artigo sobre a ‘desqualificação’ dos votos dos pobres. Sintomaticamente, recebeu como título duas palavras e reticências: ‘Dois pesos…‘. Mas foi sua possível continuação – … duas medidas – que levantou ondas e ondas na internet. Todas elas mesclando indignação e espanto por ver como é comum que nas casas dos abastados ferreiros os espetos continuem teimando em ser de pau. 

140 toques

A explicação oficial do jornal paulista é que a colunista vinha de há muito enveredando por outros assuntos em sua coluna, que não os da psicanálise. Ora essa, pergunto a minha camisa sem botões: de qual tipo de imprensa estamos falando, quando se enquadra de forma muito natural o campo de expressão de um colunista? Então, na condição de psicanalista, é-lhe vedado abordar política? Tratar de política é campo de algum especialista somente – aqueles que portam carteirinha partidária – ou não se configura o tipo de tema que diz respeito ao interesse de todos nós cidadãos?

Sigamos em frente, do contrário este artigo corre risco de ficar inconcluso. Pois bem, Maria Rita, em sua elegância habitual e refinamento intelectual, afixou em entrevista ao Portal Terra na quinta-feira (7/10), este punhado de palavras sobre sua derrubada do Estadão: ‘Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um ‘delito’ de opinião.’ A partir disso minha admiração por ela só fez crescer e olha que já era bem grande.

Na semana que findou o mundo, aquele mundo amante da liberdade de expressão festejou o Premio Nobel da Paz concedido ao pensador chinês Lio Xiaobo, preso por escrever um manifesto pela liberdade de expressão na China. Alguns poucos se apressaram em homenagear Xiaobo. Um deles foi o ex-governador paulista José Serra que escreveu em seu twitter: ‘O ganhador do Nobel da Paz foi o professor chinês Liu Xiaobo, preso por ter publicado um manifesto em defesa da liberdade de expressão’. Assíduo no twitter, bem que ele poderia ter teclado mais 140 caracteres para dizer algo como: ‘Mas se ele fosse brasileiro e escrevesse num jornal paulista, Xiaobo seria demitido’.

Pelo que vejo existem legiões de pessoas decididas a cometer o crime de pensar.

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Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/10/2010 Wallace Lima

    Uma nota de esclarecimento: ‘nunca governou [Lula] para a maioria’ significa nunca ter governado para as classes menos favorecidas, as classes mais pobres. Estou qerendo deixar isso claro porque a candidata do governo já teve a cara de pau de dizer numa propaganda que ‘a maioria no Barsil é classe média’!!

  2. Comentou em 18/10/2010 Wallace Lima

    Uma nota de esclarecimento: ‘nunca governou [Lula] para a maioria’ significa nunca ter governado para as classes menos favorecidas, as classes mais pobres. Estou qerendo deixar isso claro porque a candidata do governo já teve a cara de pau de dizer numa propaganda que ‘a maioria no Barsil é classe média’!!

  3. Comentou em 15/10/2010 Andre Abranches

    Dilma só perde as eleições para ela mesma, se sangrar, a chamada sangria desatada, até morrer de anemia aguda. Vejamos:
    Se 80 dos votos de Marina ( 19.636.359) forem para o Serra (33.132.283), teremos 15.709.087, Serra somaria no total: 33.132.283 15.709.087= 48.841.370.
    Projetando para Dilma (47.651.434) 20 de 19.636.559= 3.872.671. Dilma teria no total: 47.651.434 3.872.671= 51.524.105. Diferença a favor de Dilma: 51.524.105- 48.841.370= 2.682.735. Diferença não tão confortável como no 1o.turno, mas que dá perfeitamente para ganhar. É bom lembrar que esta projeção utiliza números aberrantes, ou quase. Quanto aos votos nulos e brancos (9.603.594), 8.64 do total, podemos raciocinar: 1. os votos brancos (3.479.594) não deverão ser mudados, pois são eleitores que não querem votar nem no PSDB nem no PT, exemplo o Partidão que votará “contra o Serra”, seja lá o que isso signifique ( branco, nulo ou Dilma?). 2. Em se tratando dos nulos as chances de reverterem para Dilma é muito maior, já que a maioria que cai nesta figura são pessoas mais humildes, potenciais eleitores de Dilma, que, provavelmente, ficaram em pânico diante daquele emaranhado de quadradinhos e que agora ficarão tranquilos. Conclusão futebolistica: time que está ganhando não se mexe. Dilma só perde se perder os votos conquistados. Portanto, deve ir devagar com a louça, cozinhando em banho maria, etc., etc.

  4. Comentou em 12/10/2010 Pedro Araújo Lima

    Bem dizia Sir Winston Churchill que ‘não há isso de opinião pública. O que há é opinião publicada’. Mas no Brasil, século XXI, não faltam iludidos(as) (e nem tanto) que vem a público clamar pela ‘liberdade de expressão’… dos donos de jornal. Seria cômico – se não fosse trágico.

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