Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > CASO ISABELLA NARDONI

O show não pode parar

Por Luciano Martins Costa em 29/03/2010 na edição 582

Quando se pensava que o assunto estava encerrado, que o circo seria desarmado e o que restariam eram os comentários da torcida, eis que os advogados do casal Nardoni anunciam que pretendem tentar novo julgamento.


A pretensão tem base numa lei já alterada, segundo a qual os condenados a penas de vinte anos ou mais de prisão tinham automaticamente direito a novo júri.


A lei foi mudada em agosto de 2008, cinco meses depois do crime que vitimou a menina Isabella. Os advogados dos acusados sustentam que a nova lei, que acabou com o benefício do novo julgamento, não pode ser aplicada a um caso ocorrido anteriormente. Outros advogados e juristas afirmam que o que deve ser considerado é a data do julgamento, não a data do acontecimento a ser julgado.


De qualquer modo, o julgamento que polarizou as atenções dos brasileiros durante a última semana ainda não acabou. Os advogados de defesa já requereram a anulação da sentença logo depois de dado o veredicto, mas ainda precisam fundamentar esse pedido e têm dois dias para pedir um novo júri.


Convicções definidas


Alexandre Nardoni, pai de Isabella, foi condenado a 31 anos e um mês de prisão, que podem se reduzir a dez anos. Anna Carolina Jatobá, madrasta da menina, foi condenada a 26 anos e oito meses.


Os jornais de segunda-feira (29/3) refletem a controvérsia doutrinária e já anunciam os futuros capítulos da novela em que se transformou o crime hediondo.


A defesa do casal Nardoni considera que o júri foi influenciado pelo chamado ‘clamor público’ e vai alegar que o direito de defesa foi cerceado, na medida em que a polícia deixou de realizar algumas investigações pedidas pelos advogados.


O intenso noticiário dos últimos dois anos, principalmente a rapidez com que se consolidou na imprensa a versão de que o casal era culpado pela morte da menina, teria definido dois anos atrás as convicções dos jurados, alegam os advogados. Eles pretendem recorrer ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal daqui a um ano, esperando que nesse período os jornalistas esqueçam o caso.


A imprensa, definitivamente, entrou em simbiose com o sistema judicial.


A influência da mídia


O caso da menina Isabella mostrou que, quando querem, os diários conseguem fazer coberturas intensas. Nos cinco dias em que a atenção do público foi capitalizada pelo julgamento, os jornais souberam complementar com detalhes interessantes a cobertura exageradamente emocionalizada das emissoras de rádio e televisão.


E, no final, pôde-se constatar que a cobertura dos jornais, no fim de semana, acaba sendo superior à oferecida pelas duas mais influentes revistas semanais de informação, que não conseguiram dar a seus leitores muito mais do que aquilo que estava disponível na imprensa diária.


Época conseguiu ser mais objetiva do que Veja e tem o mérito de colocar em discussão o papel da imprensa nos julgamentos de casos de grande notoriedade. Veja dá o tom do emocionalismo já na capa, ao afirmar que, com a condenação do casal Nardoni, Isabella pode ‘descansar em paz’. Ou seja, dá curso a mistificações sobre a vida depois da morte, como se todos os seus leitores fossem adeptos do espiritismo.


Época, ao contrário, procura se manter mais próxima dos fatos do que da interpretação. E oferece uma interessante contribuição aos debates sobre o efeito da mídia no caso Nardoni. No começo de 2008, repórteres da revista acompanharam durante 50 dias as investigações de oito crimes de morte acontecidos num mesmo fim de semana em São Paulo. Apenas um crime foi esclarecido – e em tempo recorde: 48 horas.


O caso tinha acontecido no interior da mansão do empresário Ricardo Mansur, ex-dono das lojas Mappin. Época também demonstrou que os casos sem repercussão na imprensa sequer são investigados. E relata o drama da faxineira Gonçala Rosa de Freitas, que foi condenada a dez anos de prisão, acusada de haver provocado a morte da filha de dois meses de idade. Há claros indícios de que ela foi vítima de investigações apressadas e negligentes por parte da polícia.


A conclusão da revista Época: as luzes da exposição pública afetam o trabalho da polícia e da Justiça e mexem com os ânimos da população.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/03/2010 mozer francisco

    Norma do espaço-
    “Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime.”

    Texto:

    “….Isabella pode ‘descansar em paz’. Ou seja, dá curso a mistificações sobre a vida depois da morte, como se todos os seus leitores fossem adeptos do espiritismo.”
    Comentário:
    Para sua ciência, posto que seu objetivo é informar e não manipular, os espíritas não acreditamos em descanso eterno; aceitamos a continuidade da vida. Se para você é a mesma coisa, infelizmente…

    mozer

  2. Comentou em 29/03/2010 marcio varella

    é a guerra pela audiência. sensacionalismo dá ibope. enquanto isto, o pau come em frente ao palácio dos bandeirantes entre professores e polícia e ninguém mostra nada. a blindagem do serra e deste prefeito ridículo é perfeita e mostra como vai ser a campanha eleitoral. na caso da isabella, a polícia esqueceu de fazer o DNA do cabelo encontrado na janela e de saber o que é que estava fazendo embaixo do prédio, após a queda da menina, o tal PM acusado de pedofilia que depois de suicidou. é como o caso da eloá: será que foi mesmo o garoto que atirou na menina? lembram o estado do rosto dele quando foi preso?
    imprensa é um bem público. não existe para fazer o jogo de grupos políticos e econômicos. mas faz. por isso, o daniel dantas, o maior bandido brasileiro dos últimos tempos, está solto.

  3. Comentou em 29/03/2010 alfredo sternheim

    Emily aponta aspectos do show que , por interesse dos veículos da mídia, não foram mencionados. Caso, por exemplo, das frequentes aparições da mãe biológica de Isabella na TV. Logo após o assassinato, ela estava no show do Padre Marcello, ao lado de Xuxa e de cantores sertanejos. Mas o mais grave foi saber como age um júri no Brasil. Sempre pensei que, a exemplo do filme Doze Homens e uma Sentença, com Henry Fonda, os jurados tivessem, depois do julgamento, direito de se reunirem numa sala fechada e sem a presença do juiz, analisarem com independência o julgamento, apontarem acertos e falhas eventuais de juiz, advogado de defesa e promotor. Nada disso, conforme informou o Jornal Nacional. Logo após o julgamento, o juiz presidiu uma reunião dos jurados, fez as perguntas essenciais para as sentenças (são várias). Vejo nisso e no clamor popular chegando aos ouvidos dos jurados (havia isolamento acústico? )uma coação ao júri. A imprensa não esclareceu quais foram as investigações solicitadas pelo advogado de defesa que não foram atendidas. Por acaso, envolve o policial que fez a primeira varredura na cena do crime e que, posteriormente, foi acusado de ligação com gangue de pedofilia? (Lembre Isabella, era criança). O policial, segundo a policial, matou-se ao ser detido. Foi mal o juiz dizer que a Justiça saiu prestigiada, mencionar o clamor popular .E a liberdade de Pimenta?

  4. Comentou em 29/03/2010 alfredo sternheim

    Emily aponta aspectos do show que , por interesse dos veículos da mídia, não foram mencionados. Caso, por exemplo, das frequentes aparições da mãe biológica de Isabella na TV. Logo após o assassinato, ela estava no show do Padre Marcello, ao lado de Xuxa e de cantores sertanejos. Mas o mais grave foi saber como age um júri no Brasil. Sempre pensei que, a exemplo do filme Doze Homens e uma Sentença, com Henry Fonda, os jurados tivessem, depois do julgamento, direito de se reunirem numa sala fechada e sem a presença do juiz, analisarem com independência o julgamento, apontarem acertos e falhas eventuais de juiz, advogado de defesa e promotor. Nada disso, conforme informou o Jornal Nacional. Logo após o julgamento, o juiz presidiu uma reunião dos jurados, fez as perguntas essenciais para as sentenças (são várias). Vejo nisso e no clamor popular chegando aos ouvidos dos jurados (havia isolamento acústico? )uma coação ao júri. A imprensa não esclareceu quais foram as investigações solicitadas pelo advogado de defesa que não foram atendidas. Por acaso, envolve o policial que fez a primeira varredura na cena do crime e que, posteriormente, foi acusado de ligação com gangue de pedofilia? (Lembre Isabella, era criança). O policial, segundo a policial, matou-se ao ser detido. Foi mal o juiz dizer que a Justiça saiu prestigiada, mencionar o clamor popular .E a liberdade de Pimenta?

  5. Comentou em 29/03/2010 Igor M. Rodrigues

    Esse episódio lamentável protagonizado pela mídia só prova que o discurso que os jornais devem agir “somente com a ética” é falacioso. Qual “ética”? “Ética” ao incitar revolta contra a defesa natural do casal? “Ética” ao promover uma verdadeira transmissão de jogo de futebol, com direito ao jornalista dizer que o juiz estava fazendo um “fair play” [sic] antes de anunciar o “resultado” do julgamento? Essa “ética” inexistente e mentirosa, típica de cidadãos e empresas com senso de impunidade (não diferencio da ética dos traficantes, por exemplo), só resulta em: advogado de defesa quase sendo agredido por delinquentes (não acho outro termo para estes), a casa dos pais do pai condenado sendo pichada (país medieval?) em relação a um crime que ele não cometeu – mas sim seu filho – , desocupados soltando fogos na porta do tribunal (e agora, em um tribunal do júri qualquer, um caso semelhante pode estar sendo julgado e ninguém faz o mesmo), etc. A mídia vem tentando cercear a liberdade de expressão e de informação dos cidadãos, assim como atenta contra outras garantias fundamentais reconhecidas por nossa Constituição, ora com status de direitos humanos! E a coisa só tende a piorar se nada for feito…

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