Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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IMPRENSA EM QUESTãO > SILVIO PEREIRA NO GLOBO

O velho serviço de encomenda

Por Gilson Caroni Filho em 09/05/2006 na edição 337

Poucas vezes um jornal produziu uma edição tão explícita em intenções como o Globo de domingo (7/5). A entrevista com o ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira é um primor de golpismo travestido de trabalho jornalístico. Prestidigitação e tentativas de projeção inserem-se de forma aguda nas páginas internas. O inédito exercício de futurologia trai os objetivos políticos da publicação. É o velho serviço de encomenda que não deveria surpreender a mais ninguém. A lamentar, sua previsível recorrência, apesar das loas tecidas ao exercício da democracia.

Ocupando a dobra superior inteira da primeira página, o diário alardeia como novidade bombástica a afirmação do ex-dirigente partidário, manchete da página 4: ‘Quem mandava no PT eram Lula, Genoino, Mercadante e Dirceu’. Se notícia é divulgação, sob formato jornalístico, de algo socialmente relevante que merece publicação, fica difícil definir o que norteou o jornal carioca. Se, tal como definem os manuais, a novidade é um dos fatores de qualidade da informação, os editores parecem não ter noção de regras elementares. Ora, quem, entre os leitores da grande imprensa, não conhecia a importância hierárquica dos três políticos citados? Definitivamente, mais uma vez, contrariando um dos slogans das Organizações, ‘o que pintou de novo não pintou na manchete do Globo‘. O que podemos ver, no entanto, é uma entrevista esburacada, sem sustentação interna e que nada acrescenta ao que já foi escrito sobre a crise política.

Todos sabemos que é a edição que confere sentido às informações contidas em uma matéria. Longe de ser mero procedimento técnico, o ordenamento do conteúdo é pautado por determinações ideológicas do veículo. No caso da entrevista, isso salta aos olhos. Basta que, tal como faz o jornal, pincemos alguns trechos do depoimento de Silvio Pereira. Escolhamos outros, diferentes dos selecionados pelo Globo, para elucidar a dinâmica:

1. ‘Não me conformo de o PT pagar todo o pato. Se investigassem a fundo realmente veriam isso. E o governo nada fez de errado’;

2. ‘Só não mexi com os fundos de pensão. Os maiores ficaram com Gushiken. Mas não houve nada de errado com os fundos’;

3. ‘Foi uma grande mística [a distribuição dos cargos]. De 7.900 pessoas que se inscreveram no sistema que eu montei, para toda a base aliada, com cargos e perfis técnicos, ficaram mais de 90% de fora. Foi um sistema legítimo’.

Organizando o movimento

Ora, com base nas afirmações acima, a manchete poderia ser ‘Ex-dirigente do PT revela: o governo nada fez de errado’. Haveria alguma distorção quanto às declarações do entrevistado? Será, enfim, o jornalismo uma atividade que comporte práticas discursivas efetivamente isentas? Creio que a resposta a estas questões já foi dada em marcos históricos bem distintos. As evidências empíricas há muito tempo desmontaram o mito da objetividade. Mas voltemos ao assunto que move nosso pequeno artigo.

Deixemos, então que o jornal fale de suas reais motivações. Segundo Soraya Aggege, jornalista que entrevistou Pereira, o que levou o Globo a procurá-lo ‘foi mostrar como vive o ex-secretário um ano após a crise do ‘mensalão’’. Uma espécie de ‘onde anda você’, muito comum nas editorias de esporte e seções dedicadas ao mundo artístico, mas raro, senão inédito, no campo político. Mas por que logo ele? Havia tantos outros atores… Alguns, com predicados de barítono, como o ex-deputado Roberto Jefferson, certamente não se furtariam a atender à imprensa. Para os propósitos do jornal, porém, tinha que ser um ex-dirigente do partido. Alguém com conhecimento da máquina que pudesse, rompendo o silêncio, reiterar o que era por todos sabido como se novidade fosse. Uma legítima farsa, modalidade teatral que, desligada de princípios éticos, às vezes ganha conteúdo de denúncia à revelia do autor. Foi a isso que o Globo dedicou seis páginas na sua roupa de domingo.

Publicada na véspera da reunião do Conselho Federal da OAB, que decidiria se a entidade encaminha ou não o pedido de impeachment de Lula, a entrevista é emblemática. Mostra, sem qualquer disfarce, seu real objetivo. O que se lê na página 9 não deixa qualquer margem de dúvida. ‘As declarações de Sílvio Pereira – que repercutiram ontem mesmo porque a edição de O Globo começa a ser vendida nas bancas do Rio a partir das 15h – deram novo fôlego à crise’.

O que impressiona é a capacidade premonitória do jornal. O que é publicado sábado permite adivinhar o que aconteceria na segunda-feira. E não estamos na seção de horóscopo. Mais uma vez a família Marinho vem a público anunciar que organiza o movimento. Orienta o carnaval e, na medida do possível, inaugura um monumento no Planalto Central do país.

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Professor de Sociologia da Facha, Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/05/2006 Rosana Santos

    Cetramente não é o jornalismo que sai ganhando com armações. Muito bom o artigo. Pena que os bons artigos não enalteçam nossa imprensa. Simplesmente não podem. Temos que melhorar muito.

  2. Comentou em 10/05/2006 Daniele Cristina Sousa Santos

    Digníssimo professor, obrigado por trazer e difundir a realidade e a consciência sobre o que está acontecendo. É lamentável ver ‘profisionais’ da comunicação como robôs alienados ou meros escravos de seus patrões. Sinceramente, acho que estas pessoas além de não saberem o significado e peso da palavra jornalismo, não têm mais ideologia (se é que sabem o que isto também). São como máquinas que para trabalhar se abastecem de dinheiro. Custe o que custar. Infelizmente, é lamentável.
    Desta vez o tiro do ‘Império’ saiu pela culatra. Ponto para nós!
    E depois de hoje…ponto para nós de novo!
    E a luta continua…
    Saudade das aulas!

  3. Comentou em 10/05/2006 André Caetano

    O segundo trecho do depoimento do Silvinho citado nesse artigo deixa claro: o ex-ministro Gushiken exercia influência nos grandes fundos de pensão! Ora, isso é negado ‘perempitoriamente’pelo ex-ministro e pelo governo e, até então, apenas Roberto Jefferson e Henrique Pizzolato dos 40 do mensalão confirmavam essa influência. Essa afirmação, vinda de um ex-dirigente do PT, acrescenta, sim, ‘ao que já foi escrito sobre a crise política’. Mas essa entrevista realmente tem buracos: se Silvinho não mexia com os fundos de pensão e os maiores ficaram com o ex-ministro então quem ‘mexia’ com os pequenos?

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