Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O verdadeiro jornalismo patriótico

Por Marcelo Csettkey e Marcelo Gil em 01/06/2004 na edição 279

No dia 20 de fevereiro de 2002, o jornal americano The New York Times denunciou uma investida do governo Bush com a intenção de criar um órgão de comunicação que disseminasse uma imagem positiva dos EUA para o mundo. O artigo tinha um conteúdo forte e incisivo:

(…) A guerra contra o terror global não é travada apenas na área militar, mas também no intercâmbio internacional de notícias e de informação (…), mas isso deve ser feito de maneira mais sensata, sofisticada e honrada do que a forma enganosa que o Pentágono tem em mente (…). Os planos que estão sendo desenvolvidos, pelo novo e orwelliano escritório de influência estratégica, prevêem plantar notícias falsas na imprensa estrangeira e outras atividades secretas para manipular a opinião pública.

A força do artigo levou o Pentágono e a Casa Branca a voltarem atrás e o órgão foi desfeito. Pelo menos oficialmente. Três meses após esse primeiro enfrentamento, a mídia despertou de um torpor patriótico, e, com ajuda da revista Time – ‘The Bombshell Memo’, da agente Coleen Rowley, do FBI, de 3 de junho de 2002 –, tomou consciência da gravidade dos fatos omitidos pela Casa Branca durante oito meses, e os denunciou em uníssono. Acuado, e em situação difícil, o governo Bush, no mesmo mês de maio, anunciou a iminência de um ataque terrorista de proporções devastadoras. O vice-presidente, Dick Cheney afirmara, na época que os ataques seriam ‘inevitáveis’. Todos ficaram a esperar o ataque que não aconteceu e, depois de arrefecidos os ânimos sobre os questionamentos de eventuais falhas na prevenção dos atentados, nada mais foi falado sobre esse iminente ataque devastador.

Em 25 de maio de 2003, os líderes do Senado americano afirmaram que a Casa Branca poderia ter exagerado a importância da ameaça representada pelo Iraque, e que os serviços de inteligência também poderiam estar errados em suas conclusões. Bush, irritado com essas afirmativas dos senadores, acusou-os de ‘não estarem interessados na segurança do povo americano’. O senador Tom Dashle exigiu pedido formal de desculpas ao povo americano e aos senadores democratas. Porém, Bush manteve sua acusação, afirmando: ‘Minha mensagem, é claro, é que os senadores que estão mais interessados em seus interesses especiais devem prestar atenção nos interesses gerais para proteger o povo’. (sic) (O Globo, 26/9/2002)

No dia 3 de junho do mesmo ano, a CIA concluiu que provavelmente a al-Qaida atacaria usando armas biológicas, químicas ou nucleares para causar pânico. E que usaria também a ‘bomba suja’ para espalhar material radiativo no ar. Não houve nenhum ataque e nenhuma bomba suja até hoje. Também nada foi falado a respeito.

Hoje todos sabemos que a alegações principais para a invasão do Iraque eram mentiras grotescas. O último bastião que sustentava essa farsa era a propalada crueldade com que Saddam Hussein tratava os inimigos. Seymour Hersh, em recente artigo na tradicional revista New Yorker, faz cair o pano da grande farsa da ética americana no tratamento de prisioneiros de guerra.

Fontes e fontes

Novamente o New York Times mostrou coragem. Os tambores de guerra cessaram de bater na grande imprensa e, em substituição a eles, uma autocrítica fundamental para oxigenação. O jornal Folha de S. Paulo, em 27/5/2004, comentou o mea-culpa do jornal americano:

O The New York Times publicou ontem um mea-culpa em que critica a sua própria cobertura do Iraque, afirmando que deveria ter sido mais cético em relação às informações passadas por dissidentes do regime do ditador deposto Saddam Hussein. Em texto assinado ‘pelos editores’, o jornal disse ter descoberto ‘situações em que não foi tão rigoroso quanto deveria ter sido’. ‘Em alguns casos, informação que parecia controversa à época, e que parece questionável agora, foi qualificada de maneira insuficiente ou não recebeu confrontação. Olhando para trás, gostaríamos de ter sido mais agressivos no reexame das afirmações [feitas pelas fontes] à medida que novas evidências surgiam ou deixavam de surgir.

Com esse ‘mea-culpa’ revigora-se uma ótica mais crítica e verdadeiramente patriótica – acho que já vimos esse filme antes, em 69, quando o mesmo Hersh fez o povo americano acordar com as imagens do massacre de My Lai. Entretanto, o secretário de Justiça dos Estados Unidos afirmou novamente que a al-Qaida ‘está quase pronta’ para cometer um grande atentado em território americano.

(…) Segundo o secretário da Justiça dos EUA, John Ashcroft, estes ataques podem estar relacionados às próximas convenções políticas (…) Ashcroft ainda afirmou que a retirada das tropas espanholas do Iraque, devido à repercussão política das explosões de 11 de março na Espanha, pode fazer com que a Al Qaeda tente influenciar a política dos EUA’. (Folha de S.Paulo, 27/5/2004)

O impressionante disso tudo é a precisão de Ashcroft com relação aos motivos e possíveis locais antecipados dos atentados aqui, ali e acolá, prevendo até uma jogada política da al-Qaida. Só que, ao contrário da Espanha, outro atentado em território americano pode beneficiar a política belicista de Bush, que encontraria um novo alento para reagir à queda vertiginosa de sua popularidade, assim como aconteceu após 11 de setembro de 2001, quando o presidente foi catapultado a 90% de apoio pelo povo americano.

Será que a grande imprensa não notou a relação dos ‘iminentes atentados’ com denúncias comprometedoras, ou notou e não quis falar a respeito?

Que lição podemos tirar de tudo isso? Como a grande imprensa conseguirá sair desse paradoxo sufocante que materializa a célebre frase de Hamlet na dúvida do ‘ser ou não ser’? A insistência nas notícias comprometidas com o poder leva o veículo de comunicação ao descrédito e, para recuperar um mínimo de prestígio, recorre a esse ‘mea-culpa’. Em contrapartida, ninguém mais segura a internet e seu novo paradigma.

Por exemplo, aqui no site do OI pudemos escrever um artigo, em setembro de 2003, montando um ‘quebra-cabeça’ que hoje parece ter sido o roteiro usado pela revista Time de 26/4/2004, apresentando a seqüência cronológica das investigações que antecederam o 11 de setembro. Nas páginas 26, 27 e 29 a Time aponta:

1) Em 1995, a polícia filipina comunicou à inteligência americana a prisão, em Manila de um terrorista… (OI, 9/9/2003)

Time: Jan. 1995 The clue in Manila, Philippine police bust a cadre of al-Qaida members… (26/4/2004, pg. 26 )

2) Em janeiro de 2000 (…) reunião da al-Qaida em Kuala Lumpur. Khalid al-Midhar e Nawaf Alhazmi (…) monitorando um telefone celular, a CIA (…) (OI, 9/9/2003)

Time: Jan. 2000 Khalid al-Midhar and Nawaf al-Hazmi arrive Kuala Lumpur, Malaysia (…) al-Qaeda members (…) the CIA monitors them there (26/4/2004, pg. 27)

3) O agente do FBI Kenneth Wiliams (…) notou grande número de estudantes árabes em escolas de aviação nos EUA (…) Em seu memorando enviado ao setor antiterrorismo, em Washington (…) (OI, 9/9/2003).

Time: FBI agent Kenneth Williams sends a memo to two units at FBI headquarters in Washington (…) (26/4/2004, pg. 27)

4) A Escola de pilotagem Pan Am, em Eagan/Minnesota, pediu a investigação de Zacarias Moussaoui (…) preso por estar com seu visto de permanência vencido. (OI, 9/9/2003)

Time: Frenchman Zacarias Moussaoui begins training at a Minneapolis flight school (…) and then have the INS arrest him for staying too long without a visa (…) (26/4/2004 pg. 27)

5) Coleen Rowley, agente e supervisora jurídica do FBI, pediu várias vezes ordem judicial para examinar o computador de Zacarias Moussaoui. Seus pedidos foram rejeitados. Na divisão antiterror (…) (OI, 9/9/2003)

Time: Coleen Rowley the agent who blew the whistle on pré-9/11 complaceny share her prescription (26/4/2004, pg. 29)

Esta seqüência com os mesmos nomes, na mesma ordem cronológica, foi apresentada por nós há oito meses. Também há oito meses afirmamos o óbvio, para os mais atentos, que o governo americano e os serviços de inteligência sabiam do planejamento dos atentados de 11 de setembro. Muitos jornalistas certamente também sabiam disso, mas nenhum ainda havia afirmado. Optaram pelo silêncio – para não enfrentarem as conseqüências de questionar o establishment ou as acusações de impatrióticos. A dedução lógica, objeto do nosso artigo, é que se os serviços de inteligência e a Casa Branca sabiam do planejamento dos atentados e, ainda assim, eles aconteceram, é porque houve permissão.

Resta saber quando a imprensa americana fará, como nós, tal dedução, se antes ou depois das próximas eleições. A atitude do New York Times e a força das denúncias de Seymour Hersh nos fazem acreditar no bom jornalismo capaz de mudar a história. Afinal, não estaremos aqui para sempre, mas nossas palavras, sim.

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Estudantes de Jornalismo

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