Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > COBERTURA ELEITORAL

O voto da imprensa

Por Washington Araujo em 28/10/2010 na edição 613

Se existe uma coisa positiva a ressaltar da nossa atual legislação eleitoral são as regras e procedimentos a serem observados pelos partidos políticos ao fazer uso do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. E seu caráter positivo, louvável e utilitário, é que através desses programas nos é possível verificar nas propagandas políticas tradicionais quem são e o que desejam os agentes que as emitem, sejam eles quem forem.


Além de ter uma idéia do que defende este ou aquele partido, sabemos mais de sua ideologia, dos princípios que defendem, das causas que abraçam ou das que repudiam. Geralmente escondem mais do que revelam sobre sua maneira de pensar o poder e de entender o real significado de vir a ser governo. Mesmo assim, sabemos de suas estratégias discursivas, de suas mudanças ideológicas e do contorcionismo verbal e imagético que protagonizam para estar em conformidade com o que resulta das sondagens à sociedade, realizada principalmente através do que chamamos de pesquisa de opinião pública.


Fato luminoso


Podemos guardar em nosso imaginário que João Sena é estatista, Pedro Azevedo é privatista, Ana das Dores é conservadora e Laura Fonseca é liberal; e podemos ver seus rostos, suas falas, os depoimentos que apresentam em seu favor, as imagens de sua biografia que desejam realçar… tudo isso é facilmente aferido nos programas eleitorais. Depois que os assistimos começamos a fazer a refazer nossos próprios juízos valorativos. É quando chegaremos a conclusões, muitas vezes desconcertantes como estas:


1. João tudo fez para esconder que é a favor de presença maior do Estado na economia; falou coisas que, se formos averiguar com calma, nem ele mesmo acredita;


2. Pedro quando diz que é contra qualquer tipo de privatização está querendo mesmo é dizer que venderá as jóias da Coroa no primeiro momento em que tiver o poder político em suas mãos;


3. Ana sempre foi a favor do aborto, mas quem a vê e ouve na telinha parece até desconhecê-la: foi alfabetizada com frases do tipo ‘aborto é crime’, ‘aborto é bárbaro’, ‘aborto é coisa de gente distante de Deus’;


4. Laura que sempre posou de liberal é a farsa em pessoa e tudo fará para beliscar um grupo de eleitores aqui e outro ali.


Ainda assim, só podemos continuar jogando confetes sobre a existência de regras claras e tanto quanto possível equânimes sobre os programas eleitorais. E isso é assim porque na maioria das vezes essas propagandas são emitidas sem que os receptores tenham a mínima condição de perceber quem as emitiu; e muito menos desvendar o que desejam estes agentes que veiculam seus ideais e concepções, tendo sempre o cuidado de permanecerem anônimos e cobertos pela capa tecida com os mais valiosos fios da hipocrisia contida na frase ‘somos um veículo de comunicação (rádio, jornal, revista, canal de tevê) politicamente independente e sem nenhum compromisso, a não ser com nossos leitores, ouvintes e telespectadores e, a bem da verdade, fazemos questão de declarar que não nos identificamos com nenhum partido ou grupo social’.


O fato luminoso como o sol do meio-dia é que nossos maiores jornais, revistas, emissoras de rádios e tevê têm medo e pudor de dizer o que são, o que pensam, o que sentem, o que querem para o Brasil e para o mundo. Têm pavor de revelar quem são. Porque sabem que chega um momento em que é descabido defender o indefensável, que é nada mais nada menos que alegar independência e isenção quando até os móveis de sua redação e de seu estúdio testificam seu partidarismo político, sua torcida com aquele silêncio estridente para que seu candidato seja consagrado nas urnas.


Plantar notícias


E o que vimos nos últimos meses no Brasil? Vimos a comédia jornalística de sempre: jornais e revistas servindo como linhas auxiliares de coligações políticas, com seus melhores jornalistas trajando trajes de gala de empedernidos militantes. Vimos a pantomima de encenada por uma distraída bolinha de papel praticamente ser alçada ao panteão dos grandes atentados que vez por outra colocam em risco nossa democracia (em seus renovados 25 anos) e em xeque nosso estado de Direito.


Mas, é inegável, tivemos um avanço espetacular neste campo de claro-fosco-escuro: o jornal O Estado de S.Paulo declarou em editorial o que já era de conhecimento público – seu apoio oficial e formalizado, em texto tão exuberante quanto agressivo, à candidatura de um dos postulantes ao Palácio do Planalto. Muito anos atrás, a revista CartaCapital fez o mesmo. E tanto para o jornal quanto para a revista não foi o fim do mundo. Ou melhor, foi apenas o começo de uma relação mais transparente e fidedigna entre os dois pólos da comunicação – o emissor e o receptor.


Porque se existe algo ultrapassado e inaceitável nos dias que correm, fim da primeira década do século 21, é essa história de negar ‘o que se é’ em troca da quimera, mais conceitual que prática, de que ser independente – mesmo sem ser – é o que há de melhor a ser percebido pela sociedade. Afinal, de tanto o feio dizer que é bonito será que ele conseguirá ser visto como bonito? E depois, qual o problema de tentar agir eticamente na relação com o público-alvo que em primeira instância é a própria sociedade, ao invés de sustentar discurso que simplesmente não mais se sustenta?


Julgo importante destacar que alinhar a verdade do discurso com a verdade da prática jornalística requer responsabilidade moral acima de qualquer outro predicado. Afirmar em editorial – o espaço por excelência para afirmação dessa natureza – que o meio de comunicação está apoiando no presente certame eleitoral o candidato João ou Pedro ou então a candidata Ana ou Laura significa realmente isenção e independência e não seu contrário. E o contrário é deliberadamente passar a contaminar a atividade jornalística com militância político-partidária: desenvolver pautas que favoreçam seu candidato e prejudiquem seus adversários; plantar notícias que mobilizem os apoiadores de seu candidato e façam o contrário com os dos seus adversários; com o pretexto de se tratar de matéria eminentemente opinativa, instruir colunistas a assestar suas baterias três a quatro vezes por semana na defesa de seu candidato oficial em – como seria de esperar – permanente colisão com as demais candidaturas.


Mal verdadeiro


A propósito, passei a ver com outros olhos o Estadão logo após a leitura de seu libelo ‘O mal a evitar’, publicado numa edição dominical (26/9/2010). No texto, os proprietários do longevo diário paulista abusaram de animosidade e truculência. Pior, combateram a truculência com o dobro dela e, ao invés de administrarem antídoto ao veneno inoculado, decidiram usar dosagem além de excessiva do próprio veneno. De qualquer forma, retirando-se desabafos e mágoas reprimidas contidas no mencionado editorial, o jornal ao menos em algo se portou de forma absolutamente sábia e oportuna.


Foi quando declarou que ‘há uma enorme diferença entre ‘se comportar como um partido político’ e tomar partido numa disputa eleitoral em que estão em jogo valores essenciais ao aprimoramento se não à própria sobrevivência da democracia neste país’. E isto, infelizmente, é o que ocorre hoje em nossa imprensa mais vistosa (outra forma, menos pesada e cheia de carga negativa, de carimbar nossa grande imprensa).


Ao observador imparcial ficou a sensação que nossa ‘imprensa mais vistosa’ se portou em 2010 mais como partido político. A meu ver, este é que seria o verdadeiro mal a ser evitado. E, no entanto, tinha outra opção bem mais palatável e assertiva: ter tomado partido numa disputa eleitoral de tal magnitude.

******

Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem