Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

O complexo de vira-latas

Por Luciano Martins Costa em 12/12/2012 na edição 724

Comentário para o programa radiofônico do OI, 12/12/2012

Na convergência de duas notícias recentes sobre economia e negócios, coça suas pulgas certo complexo de vira-latas que afeta parte da imprensa nacional. Esse conjunto de sentimentos, que reprime a convicção de que o Brasil mudou para melhor na última década, se manifesta diariamente nas editorias de Política, mas é na Economia que ele pretende se apresentar com ares de ciência.

Já se disse mil vezes que a imprensa é a mitologia do nosso tempo. Nestes tempos de desmanche do modelo atrelado à indústria cultural e de muita insegurança quanto ao futuro do jornalismo como o conhecemos na modernidade, revestir essa mitologia com o discurso científico é recurso que conta pontos nas redações.

Sem personalizar, para não reduzir a observação ao nível da fofoca, cumpre apontar os dois fatos: o primeiro deles, a “recomendação” da revista britânica The Economist para a presidente Dilma Rousseff demitir o ministro da Fazenda, Guido Mantega; o segundo, a notícia de que o grupo Bloomberg, pertencente ao prefeito de Nova York, pretende comprar 50% da Economist no pacote que tem como atração principal o jornal Financial Times.

Decisões estratégicas

No primeiro caso, registre-se a profusão de artigos apoiando a “recomendação” da publicação estrangeira, que veio à luz na edição digital de quinta-feira (6/12), sob o título “Quebra de confiança” e a assertiva imperiosa: “Se quiser um segundo mandato, Dilma Rousseff deveria buscar uma nova equipe econômica”.

Na segunda notícia, apenas as repercussões de praxe sobre negociações no setor de mídia.

As opiniões em favor da troca de comando da economia brasileira e de mudança de rumos na estratégia do país têm como argumento comum o desempenho recente do Produto Interno Bruto, considerado pífio pela maioria dos analistas. Expressões como “custo Brasil”, “endividamento das famílias”, “queda no setor industrial” e “desaceleração de preços das commodities”, usadas pela publicação britânica, são argumentos comuns à maioria dos analistas prestigiados pela imprensa nacional.

Algumas vozes discordantes, que começaram a ser publicadas na terça-feira (11/12), observam que a queda do PIB não afetou a continuidade do crescimento da renda dos salários nem se refletiu em maiores taxas de desemprego.

Nos arquivos da década sobre como a imprensa nacional, majoritariamente, tratou as mudanças da política econômica, vale lembrar a enxurrada de críticas às políticas sociais de distribuição de renda. Associadas a outras medidas, como o estímulo à competitividade entre os bancos privados e abertura de crédito, essa estratégia produziu uma nova classe de renda, que sustenta mais de 50% do consumo e mantém a economia em movimento.

Também se pode mencionar a campanha terrorista de notícias sobre uma provável inflação de alimentos, que ocupou páginas e páginas de jornais há quatro anos, as restrições à nova política de juros, as críticas à política cambial, a condenação à estratégica decisão de reduzir a dependência nacional da economia americana, buscando mercados alternativos, e muitos outros temas nos quais a imprensa escolheu majoritariamente a contramão.

Coleção de equívocos 

Os analistas que observam com sentido crítico a política econômica sem emitir condenações a priori ponderam que avaliações do tipo feito pela Economist não levam em conta que o Brasil vive um cenário muito mais complexo do que aquele que é expresso nos números do Produto Interno Bruto.

Os indicadores mais recentes apontam, aliás, um processo de recuperação do PIB, mas essa não é a questão central. A escolha do Brasil nos últimos dez anos foi por uma economia de viés social, na qual o crescimento do país possa se apoiar na redução das desigualdades e na criação de oportunidades para uma faixa mais ampla de brasileiros. O Brasil não pode ser comparado, por exemplo, com o Chile, uma das referências mais comuns nesse tipo de análise.

O dilema da escolha preferencial da imprensa por opiniões conservadoras e limitadas pela crença irracional nos poderes mágicos do mercado é que esse tipo de escolha vai, lá na frente, prejudicar a democracia e a própria imprensa.

Considerando que, como o Direito deve buscar a Justiça e o jornalismo deve buscar a verdade, é na tensão entre a busca e sua improvável realização que se estabelecem as dúvidas sobre a efetividade da democracia.

Um jornalismo feito de premissas que são sucessivamente desmentidas pela realidade atenta contra seu próprio interesse de permanência.

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