Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > NOVOS TEMPOS

O fim do bom senso

Por Luciano Martins Costa em 02/03/2015 na edição 839

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 2/3/2015

A insistência de um grande grupo de parlamentares em conduzir a agenda política na direção oposta ao que indica a evolução da democracia no Brasil pode levar muitos cidadãos a desanimar da vida republicana. Como efeito colateral, também pode ser afetada a reputação da imprensa, ao dar abrigo a certas propostas que significam um retrocesso em conquistas importantes da cidadania.

A leitura dos jornais e a audiência atenta aos principais noticiosos do rádio e da televisão dão a impressão de que o Congresso Nacional se deslocou da contemporaneidade e busca uma ancoragem em algum ponto do século passado. Há uma clara estratégia em curso, que consiste em inserir no senso comum determinados valores que se enquadram melhor em doutrinas religiosas do que nos compêndios legais de um país moderno.

O processo pelo qual se restringe o conceito de razoabilidade a visões de mundo condicionadas por crenças, em lugar do conhecimento, tem o claro objetivo de estabelecer uma interpretação conservadora em questões relativas a alguns dos direitos humanos fundamentais. Por trás desse movimento rosnam propostas reacionárias como a liberação da venda de armas de fogo, a limitação de garantias para homossexuais e a tutela sobre o arbítrio das mulheres.

O diagnóstico e o questionamento desse processo são extremamente difíceis e imprecisos, porque os autores do movimento reacionário fundamentam suas ações numa irracionalidade que encontra um ponto de apoio na fé, enquanto a resistência ao retrocesso precisa elaborar argumentos fundados na razão para discutir essa irracionalidade. Questões como essas, referentes ao tipo de escolha que atende ao interesse de uma sociedade, exigem um trabalho de mediação que, estando nas mãos da mídia tradicional, não produzirá equilíbrio.

Mesmo no campo teórico, há uma enorme difusão de conceitos sobre o que seria o senso comum ou o bom senso. Uma epistemologia do que deve ser considerado como o melhor entre as noções de realidade que a ideologia constrói precisa ser submetida ao teste de origem e validade do conhecimento que fundamenta cada tipo de visão, e já na origem se trava o debate, porque uma das partes está se lixando para o conhecimento.

Onde está a sabedoria?

A epistemologia do senso comum pode ser vista como um sistema cultural, construído por meio da comunicação ao longo da História. Não foi outro o papel da imprensa, em passado recente, ao registrar os passos da humanidade até se chegar consensualmente à convenção segundo a qual deve haver um processo civilizatório. No entanto, a adesão de um grande número de indivíduos de determinada sociedade a esse conjunto de valores depende de o sistema comunicacional estar a serviço desse movimento em direção à modernidade.

Se os indivíduos que têm uma convicção oposta, segundo a qual esta sociedade deve se submeter a critérios religiosos no ordenamento de suas normas, conseguem se organizar num dos pilares da República, o país perde o rumo. Será preciso uma ação enérgica dos demais poderes para reconduzir os legisladores na direção do respeito aos pressupostos da Constituição que definiu o que deve ser o Brasil sob uma democracia.

O bom senso se constrói com a cidadania, que transforma a experiência do cotidiano em balizamento para o futuro. O sentido de cidadania instiga o indivíduo a dar o melhor de si em sua ação e em suas reflexões. O contrário disso é o caminho apontado pelas forças reacionárias que se instalaram no Congresso Nacional – usando o instrumento democrático do voto para condicionar a democracia a seus juízos.

A dificuldade de agir contra aquilo que parece, do ponto de vista da cidadania, como irracionalidade, também é provocada pelo alto grau de subjetividade que a crônica da política impõe à narrativa das disputas de poder. A imprensa precisa se manter ao lado da modernidade, mas pode ser atraída por vantagens pontuais na banda do conservadorismo, se isso significar uma influência maior no jogo político.

Essas são as razões básicas pelas quais o leitor crítico de jornais e atento espectador do noticiário na mídia televisiva tem a impressão de que o bom senso e a sabedoria se ausentaram de Brasília.

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