Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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IMPRENSA EM QUESTãO > DANÇA DA GUERRA

O índio na imprensa

Por Luciano Martins Costa em 22/05/2008 na edição 486

A fotografia de um índio pintado para a guerra e usando um telefone celular, publicada na quinta-feira (22/5) na Folha de S.Paulo, é o retrato acabado de como a imprensa ainda enxerga as populações nativas do Brasil.


A foto ilustra reportagem sobre protesto da comunidade indígena do oeste paulista – guaranis, kaigangues, krenakis e terenas – contra a mudança da sede regional da Funai para a região sudeste do estado, a cerca de 500 quilômetros de distância.


Para a imprensa, índio que usa celular é branco. O noticiário conduz à discussão sobre a inimputatilidade dos índios, garantida pela Constituição.


Em outro episódio envolvendo indígenas, os jornais induzem à criminalização da agressão de um grupo de caiapós contra o engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernandes Rezende, coordenador do estudo para a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
Na terça-feira (20), o engenheiro foi espancado por um grupo de caiapós e sofreu um golpe profundo de facão no braço direito quando defendia a construção da barragem, durante o encontro ‘Xingu vivo para sempre’.


Estratégia sustentável


A notícia de quinta-feira é que a Polícia Federal deve investigar quem comprou sete dos quase cem facões exibidos pelos caiapós. Os jornais insinuam que alguns facões foram comprados por integrantes das entidades organizadoras do evento, entre as quais se encontram a arquidiocese de Altamira, no Pará, o Instituto Socioambiental e dezenas de ONGs.


Os organizadores condenaram a violência e lembram que os caiapós costumam usar facões, que adquirem no comércio local, mas ainda assim se percebe na imprensa a falta de clareza, que pode induzir o leitor a imaginar um bando de aloprados brancos armando índios para uma guerra contra o progresso.


A Folha de S.Paulo observa que o projeto da usina de Belo Monte, no rio Xingu, começou há vinte anos e sempre enfrentou a resistência dos indígenas e ambientalistas.
Eles temem os efeitos da formação do lago, que deve inundar cerca de 40 mil hectares de terras da reserva, com o desaparecimento de cachoeiras e áreas de floresta. O clima do encontro era tenso também por conta da recente demissão da ministra Marina Silva, que à frente do ministério do Meio Ambiente era vista como uma aliada dos caiapós e ambientalistas.


Segundo a imprensa, o engenheiro Rezende foi agredido logo após defender a construção da usina e dizer a seguinte frase provocativa: ‘Olha, eu moro no Rio de Janeiro. Quem vai ficar sem luz são vocês’. A inabilidade do funcionário da Eletrobrás ilustra a dificuldade com que as autoridades se relacionam com as populações nativas.


A tentativa de criminalizar os protestos contra obras que ameaçam o meio ambiente mostra a incapacidade da imprensa de entender a necessidade de se buscar uma estratégia sustentável para as obras de infra-estrutura de que o Brasil precisa.


Queda-de-braço


A falta de interesse em penetrar nos temas que envolvem a dívida secular do Brasil com seus primeiros habitantes provoca distorções até mesmo no noticiário econômico e político.


Na quinta-feira (22), o Estado de S.Paulo publica o noticiário sobre a agressão ao engenheiro da Eletrobrás também no caderno de Economia, observando que a resistência dos índios atrasa a construção da usina e a chegada do progresso à Amazônia.


O Globo mistura índios a militantes do MST num mesmo caldeirão que chama de ‘incivilidade’.


A Folha já havia usado o título ‘barbárie’ ao noticiar a agressão.


Não há registro de a imprensa ter usado essas expressões para qualificar os massacres de índios por posseiros, ou mesmo o assassinato de ambientalistas e outros protagonistas do conflito que há anos se desenrola na Amazônia.


A questão ambiental também freqüenta o noticiário político, aquecida pela prematura e crescente incompatibilidade entre o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e o ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger. As edições de quinta-feira dos jornais exploram as discordâncias entre os dois, que precisarão conviver em muitos fóruns, já que o ministro de Assuntos Estratégicos é também o coordenador do Programa Amazônia Sustentável.


Depois que Minc atacou o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, Mangabeira Unger defendeu a tese de Maggi de que as terras desmatadas devem ser isentas das novas exigências para concessão de financiamento oficial.


Patrimônio natural


Minc anunciou a criação da Guarda Nacional de Segurança Ambiental, Maggi disse que não cederia policiais de seu estado para a nova força e, na quinta, os jornais publicam declaração de Mangabeira Unger dizendo que é prematura a criação da guarda ambiental. No entanto, nas frases sobre os planos de desenvolvimento para a Amazônia não há grandes discordâncias entre os dois ministros.


O problema é que os jornais se concentram nos desentendimentos, pintando Mangabeira Unger como um acadêmico alienado da realidade e Carlos Minc como um ecochato. Enquanto isso, as soluções para o desenvolvimento de uma estratégia para preservar a floresta vão sendo adiadas.


E a imprensa internacional, mais uma vez, coloca em dúvida a capacidade dos brasileiros de administrar o patrimônio natural que se situa dentro de suas fronteiras.

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/05/2008 Thiago Conceição

    Alexandre Aguiar, tenho certeza se você tentar ler o texto inteiro e interpretá-lo corretamente você entederá como esses genocidas se encaixam na idéia demonstrada. Não desista.

  2. Comentou em 23/05/2008 Thiago Conceição

    Parece que para todo lugar que olho só há estupidez. Esse país está perdido. O problema é irresponsabilidade. Todos são responsáveis pelas suas ações e responsáveis por buscar melhorar e se corrigir, tanto intelectualmente quanto moralmente. Pessoas como o autor deste texto tratam índios e outros como se fossem bichinhos desprovidos de vontade própria, vítimas impotentes e crianças que devem ser mantidas na ignorância porque o mundo é algo além da sua capacidade de compreensão. Primeiramente os índios devem ser integrados à sociedade, devem aprender a lidar com outros seres humanos civilizadamente (se não for conosco será com gringo), devem enfrentar as conseqüências de suas ações como qualquer outro cidadão e precisam parar com essa malandragem de posar de vítima. Parem com essa história de ‘homem branco’, porque conhecimento não tem cor. Percebam a malícia o do termo ‘homem branco’: isto é associar conhecimento com cor da pele. Logo mantém-se índios e outros do lado fora do conhecimento, pois eles precisam ser o que ‘são’, a sua raça, o seu sangue, e a cultura e conhecimento são coisas de ‘homem branco’. Essas divisões não existem, são apenas criações de pessoas com interesses em nos controlar ou que pensam que podem lucrar de alguma forma. As coisas não precisam ser assim. Pessoas como o Luciano defendem mesquinharias e coisas sem importância, estão perdidos.

  3. Comentou em 23/05/2008 j batista

    BRASIL NAÇÃO DE TODOS OS BRASILEIROS-Nações coloniais, visando satisfazerem seus interesses a qualquer custo, dividiram o mundo. Agora grupos internacionais e brasileiros de ma fé e inocentes uteis, estão dividindo o Brasil, em reservas indígenas, quilombos, depois em terras para os diversos grupos de imigrantes que adotaram o Brasil para viverem e seus filhos. Quando se discrimina o povo, se pratica um crime na formação de uma grande Nação.A Constituição Brasileira não é respeitada, sendo manipulada de acordo com interesses de uma minoria, não se pode dividir o território ou tornar alguns brasileiros privilegiados, os tornando melhores que os outros nacionais. Qualquer lei que contraria a moral, os bons costumes e unidade nacional e uma afronta a Nação. Todos que nasceram no Brasil ou o adotaram como Pátria, SÃO BRASILEIROS, devem ser respeitados e lhes dado oportunidades de igualdades de condições de estudos, trabalho, saúde, segurança, possibilitando que cada um dê melhor de si para progresso pessoal e da Nação Brasileira. A ética, a moral e o patriotismo são os pilares na formação de uma Nação forte e respeitável internamente e internacionalmente.É dever as Forças Armadas manterem a unidade nacional.

  4. Comentou em 23/05/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    A gentinha de classe média, que assiste a filmes americanos onde índios são massacrados por homens brancos, chora, copiosamente por esses crimes. Aguns detestam de morte o Gen. Custer (mas aplaudem o Heleno). Outros desejariam estar na pele do soldado Kevin ‘Tatankha’ Costner, em ‘Dança com os lobos’, para viver em harmonia com a natureza. Há os que se emocionam ao ler (várias vezes) ‘Enterrem meu coração na curva do rio’ e exigem respeito e dignidade para com as culturas autóctones. Tem também os aparvalhados que bradam palavrões contra as matanças de focas, raposas, rinocerontes, orangotangos. Sei de gente que queria se mudar para o Congo para defender primatas ao assistir ao filme ‘Na montanha dos gorilas’. Quero dizer para esses que a violência contra o meio ambiente e contra as populações primitivas é aqui e agora. Está ali na sua esquina e você não vê, pois está em casa, os pezinhos pra cima, ligado à TV a cabo e achando que a violência é em inglês. Entendam as razões e as necessidades de nossos povos, pois por maior que seja a sua violência (?) eles estão só se defendendo. O homem branco não é esse santinho que apregoam por aí, muito pelo contrário. Essa conversa mole de ‘progresso’ é apenas uma justificativa para derrubar árvores, matar índios, extinguir animais e plantas e as reações contrárias são tachadas de ecochatas ou violência contra a civilização. Sinceramente!

  5. Comentou em 22/05/2008 Cristina Oliveira

    Parabéns Luciano!!!! Venho acompanhando seus artigos e concordo inteiramente contigo. Estou no olho do furacão, a poucos quilômetros da Raposa/Serra do Sol, e sei bem como a imprensa pode manipular a população com apenas poucas linhas mal escritas. Que bom ter pessoas como você que, mesmo distantes, conseguem enxergar o óbvio que a grande imprensa, as autoridades deste país e a classe ‘média’ fingem não existir.

  6. Comentou em 22/05/2008 Cristina Oliveira

    Parabéns Luciano!!!! Venho acompanhando seus artigos e concordo inteiramente contigo. Estou no olho do furacão, a poucos quilômetros da Raposa/Serra do Sol, e sei bem como a imprensa pode manipular a população com apenas poucas linhas mal escritas. Que bom ter pessoas como você que, mesmo distantes, conseguem enxergar o óbvio que a grande imprensa, as autoridades deste país e a classe ‘média’ fingem não existir.

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