Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O (mau) estado da imprensa

Por Luciano Martins Costa em 25/03/2008 na edição 478

Os jornalistas norte-americanos estão mais pessimistas com o futuro da profissão, a imprensa dos Estados Unidos está em situação pior do que no ano passado e praticamente todas as previsões sobre impactos positivos da internet na comunicação de massa falharam até aqui. Essencialmente, neste caso, a realidade desmente, por enquanto, a tese da ‘cauda longa’ – expressão criada pelo físico Chris Anderson, editor da revista Wired, segundo a qual a nova economia deverá substituir a venda em massa de pequena variedade de produtos pela venda em menor escala de uma infinidade de variados produtos.

Com relação à mídia, a tese alimentou expectativas de que uma infinidade de novos veículos superaria a presença massiva dos veículos tradicionais de informação. Com isso, ocorreria um processo de democratização da informação, com um sem-número de meios trabalhando em nichos específicos, a partir do aperfeiçoamento e profissionalização dos blogs e ampliação de ‘supermercados de informação’ aberta, como o Google, provocando a redução da influência dos grandes oligopólios de comunicação. Mas isso não se concretizou, pelo menos no período estudado pelo atual relatório.

Assim, se por um lado não se confirmaram as previsões do relatório anterior, de que milhares de pequenos provedores de conteúdo iriam ocupar o espaço da grande mídia, o número de internautas não representa necessariamente mais dinheiro de publicidade online. Mesmo com muito mais fontes, mais norte-americanos agora consomem mais o que é produzido pelas redações da mídia tradicional do que antes. Os dez websites mais acessados representam melhor a velha oligarquia da mídia do que os novos protagonistas.

Desafio básico

A situação se revela menos otimista para quem esperava um processo de democratização da mídia, mas o ano pesquisado, de 2007, pode representar um período especialmente crítico, com os revezes dos norte-americanos no Iraque, o ressurgimento do pavor nuclear com a crise do Irã e a insegurança trazida pelo desastre do sistema financeiro na explosão de inadimplência do crédito imobiliário. Essa situação de fragilidade pode ter induzido um número maior de pessoas a buscar segurança nas matrizes tradicionais de informação, para fugir do risco das especulações e tomar conhecimento do que o sistema estava fazendo para evitar o desastre maior.

Essas são algumas das constatações do quinto relatório anual sobre o estado da imprensa norte-americana, (State of the News Media 2008), divulgado pelo Projeto para a Excelência em Jornalismo da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Essencialmente, o que mostra o estudo é que o jornalismo sofre as conseqüências de um fenômeno de mercado que pode ser resumido na ruptura da conexão entre sucesso de público e receita publicitária. Assim, além de perder leitores para a internet, a mídia impressa não vê aumentar a receita em seus sites, por mais que aumente a audiência.

A aceitação do fato de que o cenário é mais complexo do que parecia deixa claro para os jornalistas que seu desafio básico é a urgência de reinventar a profissão e o modelo de negócio, ao mesmo tempo em que as empresas continuam cortando recursos, o que inclui a redução da sua capacidade de fazer reportagens e, portanto, de melhor representar essa realidade mais complexa. Howard Weaver, diretor editorial do grupo McClatchy, compara a situação à necessidade de trocar o óleo enquanto o carro corre numa auto-estrada.

Dar sentido à informação

Constatam-se também sinais de que os interesses das empresas de mídia podem ser muito diferentes dos interesses dos jornalistas, o que deve criar uma dificuldade adicional para a mudança do cenário. Para subsistir nas empresas, os jornalistas são obrigados a praticar cada vez mais um jornalismo no qual não acreditam, seguindo táticas ditadas mais por necessidades de negócio do que por conveniência da qualidade jornalística.

Apesar disso, os profissionais da imprensa norte-americana que ainda trabalham nas redações, particularmente na mídia impressa, demonstram algum otimismo obstinado, como um senso de missão, de suportar o período adverso enquanto as empresas resolvem seus problemas. No Brasil, equivaleria a um editor ou repórter usar a expressão ‘relaxa e goza’ – pois pelo menos continua empregado, enquanto a empresa busca modelos mais sustentáveis. De fato, algumas empresas norte-americanas de comunicação começam a inovar e percebem uma conexão maior com seus públicos, o que não era notado alguns anos atrás, observa o relatório.

Algumas das tendências constatadas no estudo indicam que o jornalismo entra numa fase de dinamismo que altera seu significado tradicional. Com a redução da importância da mídia impressa em termos de volume de informação, e com o aumento da busca por informações online ou por formatos móveis, desaparece o conceito de produto acabado. Como o consumo de notícias se caracteriza agora pela continuidade, os esforços das empresas de mídia se concentram mais no incremento das atualizações, com mensagens curtas enviadas pelos repórteres diretamente para os leitores, através de blogs e boletins, praticamente sem edição.

Essa mudança induz à predominância do jornalismo utilitário, ou jornalismo de serviço, que a rigor produz um desserviço ao público, pois substitui progressivamente a missão mais nobre da imprensa. O relatório lembra que o jornalismo também precisa ajudar o cidadão a entender o que está vendo e provavelmente seu mais importante e menos desenvolvido papel seja oferecer ferramentas para dar sentido à informação e permitir que o cidadão possa usá-la em seu benefício.

Publicitários pouco criativos

Também aparece a percepção de que a agenda da imprensa norte-americana se estreitou, mesmo nos veículos online, e os leitores se queixam de que muitos temas importantes deixam de ser cobertos. Os blogs polarizam o noticiário e as opiniões, provavelmente para satisfazer seus leitores mais fiéis, e com isso se reduz a diversidade dos conteúdos. Nada que o leitor brasileiro também não conheça muito bem. O fenômeno afeta não apenas os ramais online da imprensa, mas principalmente os veículos impressos, muitos dos quais se transformam em palanques de um tema só.

Outra característica observada no estudo indica que o leitor se comporta como a cobaia no labirinto: vai transitando conforme as ofertas de conteúdo satisfazem suas necessidades utilitárias ou sua curiosidade. Portanto, cada página na web deve remeter a outra página, pois o leitor foge dos becos sem saída. Isso faz com que a concorrência antigamente demarcada entre os títulos se infiltra em cada veículo, e cada notícia se transforma em uma home page, cada home page corresponde à primeira página de um jornal ou à capa de uma revista, concorrendo com outra página do mesmo veículo. Disputa-se a atenção do cidadão. A fidelidade do leitor poderá depender menos da tradição de uma marca e mais da capacidade do veículo de mantê-lo entretido entre suas páginas, evitando que migre para veículos concorrentes. Mas os jornais e revistas têm profissionais com essa qualificação?

Em meio à crise geral, as redações começam a ser percebidas como ambientes inovadores, ao contrário da percepção de anos atrás, de que os jornalistas se encastelavam em suas torres e fugiam das mudanças. O relatório deste ano mostra que os gestores são considerados a grande restrição no negócio de comunicação por sua incapacidade de criar modelos mais adequados aos novos tempos, a área comercial é apontada como avessa a inovações e os publicitários são tidos como muito conservadores e pouco criativos.

Cenário complexo e difícil

Como ainda não existem métricas adequadas e seguras para quantificar o valor da mídia digital e os gestores das agências de publicidade só conhecem e se apegam aos métodos tradicionais de mensuração de valor, nada muda. A tendência para o setor, observada pelo estudo, indica que os executivos da publicidade não possuem mais ou melhores respostas do que os jornalistas para o desafio de entender e avaliar a relação entre o cidadão e os novos meios, o que deve indicar a continuidade da confusão e fragmentação, até que surjam novos modelos.

Isso significa perda de receita para todo mundo porque um enorme potencial está sendo desperdiçado enquanto rolam fenômenos de audiência que movimentam milhões de pessoas instantaneamente na internet. O tema é tratado pela primeira vez neste ano, num estudo inédito do ‘Estado da Imprensa’ sobre o futuro da publicidade.

Outras novidades do relatório são uma pesquisa sobre jornalistas nos Estados Unidos e uma análise sobre o conteúdo da imprensa. A rigor, o relatório deste ano, baseado em estudos feitos em 2007, mostra um cenário mais complexo e difícil para a imprensa, gestores e profissionais – ainda perplexos diante das mudanças, ou simplesmente empenhados em fazer funcionar os velhos esquemas de cortar custos, simplificar a coleta e edição das notícias e resolver o mais rapidamente possível para as tarefas de cada dia.

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