Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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O parto da montanha

Por Ivan Berger em 12/05/2009 na edição 537

Em meio ao pessimismo que cerca o futuro dos jornais, não deixa de ser louvável que nem todos se entreguem ao desânimo e ao conformismo que normalmente antecedem o ocaso das coisas. Há pouco mais de um ano escrevi aqui (‘Um jornal para cardíacos‘) sobre a decadência aparentemente inexorável de um dos mais tradicionais jornais regionais do país, o matutino A Tribuna, de Santos (SP), mas, contrariamente ao consagrado axioma de Murphy – nada é tão ruim que não possa piorar um pouco mais –,eis que o mesmo vem, por assim dizer, renascendo das cinzas, com mudanças que embora elementares deixam transparecer a disposição de recuperar o terreno perdido.

Ainda que defeitos e cacoetes tipicamente provincianos continuem arraigados, mesmo os mais desatentos têm percebido que o jornal melhorou consideravelmente a partir da chegada do novo editor, Wilson Marini, em meados de 2008. Além de uma bela reforma visual, dentro da tendência mundial de diagramações leves e diversificadas, com a valorização da fotografia, o ganho mais importante foi mesmo de conteúdo – e aí a redescoberta da pólvora –, direcionado a temas de mais apelo junto ao leitor. Assim, já é possível ver cobranças e fiscalizações mais veementes até sobre questões pertinentes aos órgãos e poderes públicos, acostumados a anos de tratamento parcimonioso e por vezes subserviente por parte dos veículos da casa.

Deitado em berço esplêndido por décadas a fio, graças a uma hegemonia mantida muito mais pela falta de concorrência à altura do que propriamente por méritos jornalísticos, há algum tempo o grupo controlado pela família Santini vive em função de seu braço televisivo, a TV Tribuna, afiliada da Rede Globo. Já o centenário matutino não escapou da crise que vem vergastando o setor, com sua tiragem despencando para cerca da metade do registrado nos bons tempos – declínio agravado pela brutal queda de qualidade oriunda da política de contenção de gastos.

A ficha caiu há cerca de dois anos, quando finalmente se percebeu a premência de uma reestruturação editorial que viesse restaurar a credibilidade afetada por anos de jornalismo burocrático e, sobretudo, deslocado de seu foco natural. De lá para cá, praticamente um novo jornal vem se desenhando – modesto, é verdade, dentro das limitações mencionadas, mas pelo menos mais engajado e sensível às causas locais. O que por si só se constitui num grande avanço, considerando os antecedentes de comodismo e dependência de material fornecido por agências de notícias em detrimento de assuntos de mais interesse da população.

Evitar encrencas

Abrangendo uma região com mais de 5 milhões de habitantes, entre a Baixada Santista, Litoral Norte e Vale do Ribeira, a guinada deu-se a partir da percepção de que a mudança não poderia ser meramente cosmética, como de outras vezes, na ilusão de que é possível fazer jornalismo sem investir em qualidade e comprometimento com o leitor. Coisa que o jornal não vinha fazendo há muito tempo, a ponto de perder espaço até mesmo para o tablóide popularesco Expresso Popular, lançado pelo próprio grupo há seis anos exatamente para priorizar o noticiário doméstico.

Estabelecidas as novas coordenadas, o jornal cuja superficialidade e omissão no trato das coisas locais eram motivo de constrangimento para a própria categoria, aos poucos não só vem mudando esse conceito como desfazendo a impressão de que a região seria um oásis em meio ao generalizado caos nosso de cada dia. Desmistificação que tem vindo à tona graças a abordagem mais séria em torno de uma realidade que não difere muito da dos grandes centros urbanos, e para a qual o jornal vinha voltando às costas.

De fato, a fama de região próspera, conhecida por seu porto, pelo pólo industrial e qualidade de vida, se não chega a ser imerecida, escamoteia a mesma problemática retratada pela grande imprensa diariamente mas reportada em nível de sucursal, ou seja, com pouco destaque nacional. Tanto é que a Baixada Santista normalmente só é manchete da mídia quando se trata de futebol ou das condições de suas rodovias e praias em véspera de feriadões.

Razão pela qual já não era sem tempo que o mais importante e tradicional jornal da região resgatasse o papel do qual vinha se desviando ao longo dos anos, por motivos que não vem ao caso detalhar, partindo de uma pauta básica mas valorizada pela disposição de efetivamente correr atrás das notícias, em vez de esperar que estas lhe caiam no colo. Desnecessário dizer que os benefícios a população foram imediatos, em função de um desempenho mais responsável e condizente com os velhos tempos de um jornalismo que deixou saudades.

Desempenho que pode e precisa ser aprimorado, é claro, sobretudo no sentido de quebrar certos tabus dos quais o jornal sempre preferiu se esquivar, de acordo com o perfil conservador e elitista do grupo. Daí a pouco lisonjeira fama de jornal para cardíacos que se formou dentro de sua própria redação, relativa a aversão a temas mais delicados e indigestos, em especial os da alçada política. Mesmo agora, ainda que as evidências de corrupção, tráfico de drogas e mazelas políticas saltem aos olhos, talvez seja esperar demais que o velho e bom jornalismo investigativo faça parte do projeto de recuperação em curso.

Afinal, além de não ser a praia dos Santini, cujo interesse jornalístico sempre se resumiu às relações públicas e ao colunismo social, abraçar uma linha editorial mais agressiva não é apenas uma questão de vontade, pois de boas intenções, como se sabe, o inferno está cheio. Para tanto, além de idealismo e desprendimento, seria preciso apostar na formação de profissionais capacitados e com autonomia suficiente para exercer a profissão – requisitos que a casa não costuma valorizar. Ou, pelo menos, não mais do que a preocupação em evitar encrenca e com o balanço financeiro.

Creminho de brinde

Vai daí que ainda há uma longa estrada a pavimentar para A Tribuna consolidar a recuperação que recém se esboça. Longa e de mão única, de acordo com opiniões abalizadas como a do renomado jornalista e escritor Gay Talese, um dos expoentes do chamado novo jornalismo que revolucionou a imprensa décadas atrás, para quem os jornais não estão necessariamente fadados à extinção, desde que invistam em diferenciais como qualidade e, principalmente, não aposentem o proverbial faro investigativo. Atributos que nem a avassaladora concorrência da internet pode substituir (ver, neste Observatório, ‘Manual do repórter‘).

Nesse sentido, não deixa de ser curioso que justamente a seção mais popular do jornal – a de Esportes – seja a que mais destoe do padrão desejável, ao se comportar como se apenas a cobertura de Santos interessasse aos leitores, com os demais clubes grandes irreversivelmente em segundo plano. Sem falar no enfoque superficial e tendencioso, típico daqueles jornaizinhos interioranos que se sentem na obrigação de vestir a camisa do clube da cidade, com direito a pieguices como deixar as críticas e fofocas por conta de um torcedor fictício, que pontifica numa coluna diária sob o prosaico apelido de… Tainha.

Enfim, pensando bem, se esta é a única maneira de o jornal exercer o salutar exercício da crítica, às favas a estética e o bom gosto, que mais vale uma tainha na rede do que um cardume passando ao largo. Aliás, diante do mal-afamado maneirismo do jornal, talvez fosse o caso de recrutar o tal Tainha para fazer plantão na área política ou, melhor ainda, requisitar os préstimos de outro colega de escamas, o Robalo, que como sugere o próprio nome deve conhecer ainda mais o riscado.

Brincadeiras à parte, a agnosia do jornal em relação à política doméstica ficou mais patente recentemente com o abreviamento de uma discussão particularmente interessante, versando sobre a ascendência da gestão do prefeito João Paulo Papa (PMDB) junto a vereança municipal de Santos. Apoio que levou a ex-prefeita e vereadora mais votada do último pleito, a petista Telma de Souza, a denunciar um suposto regime de autêntica vassalagem na Câmara Municipal ao atual alcaide, notadamente no que diz respeito à aprovação de contas, no caso as de 2005, cuja rejeição pelo Tribunal de Contas do Estado aponta para irregularidades que o jornal, para variar, preferiu não esmiuçar.

Além do costumeiro enrosco nas prestações de contas do Executivo, que se repete ano após ano, e indiferentemente aos mais variados indícios de maracutaias que sempre acabam em pizza, uma espécie de lei velada da mordaça parece vigorar em torno dos temas mais pungentes. Especialmente sobre os esquemas fraudulentos que proliferam em vários segmentos da vida pública e privada da Baixada, verdadeiros icebergs cujas pontinhas de vez em quando os veículos mais influentes se dignam a tratar. Esquemas que apontam para o binômio que sintetiza os males que mais afligem nossa sociedade: a corrupção no meio político e o tráfico de drogas.

De qualquer forma, já há o que ler em A Tribuna além dos classificados, de matérias esparsas e alguns colunistas consagrados que resumem o magro cardápio de até outro dia. Em suma, já dá para comprar o jornal sem se sentir lesado, ainda mais quando acompanhado de um creminho da Natura de brinde, como me sucedeu outro dia. Bem informado e com a pele hidratada a preço de banana, melhor custo-benefício, impossível.

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Jornalista, Santos, SP

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