Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O triste fim de James Watson e da liberdade de expressão

Por Paulo Bento Bandarra em 06/11/2007 na edição 458

Evelyn Beatrice Hall, que escrevia com o pseudônimo de S. G. Tallentyre, citado em Os Amigos de Voltaire, resumiu sua posição em vida: ‘Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizeres.’ Coisa fundamental no desenvolvimento humano e na busca pela verdade e pelo debate de idéias. Afinal, calar sempre foi um modo de proteger o falso e impedir de prosperar a verdade! Apesar de se alegar que Galileu foi calado porque a verdade embaraçaria a posição da Igreja, o mais provável é que a crença no geocentrismo era tão grande e tão pacífica como uma verdade que as pessoas que assim pensavam consideravam que estavam calando uma heresia sem sentido. Era uma ofensa ao senso comum e à devoção a Deus que deveria ser legitimamente eliminada nem que fosse por meio do fogo.

Outro escritor, Hermann Hesse, lembra, no seu O Lobo da Estepe, que o oprimido de ontem, quando atinge o poder, passa a ser o opressor de hoje. Verdades que a história sempre nos ensina, mas que os homens sempre estão a esquecer. Os cristãos oprimidos pelos romanos, passaram a oprimir todos os outros, de pagão a qualquer mero divergente. Assim como os protestantes, depois de queimados, passaram a queimar católicos. Comunistas e socialistas mataram para libertar o homem da escravidão capitalista, e passaram a ser opressores maiores do que aqueles que alegavam ser o mal. Os judeus acusam países de terem se negado a receber pessoas que queriam fugir dos nazistas. Hoje Israel anuncia que repatriará a todos os refugiados que cheguem de Darfur. Os donos da verdade sempre estão dispostos aos maiores crimes para defender as suas falsas verdades como sendo definitivas. É aí que mora a importância da liberdade de crença, de expressão e de opinião. Para que os que podem estar trazendo uma nova visão de libertação e de uma forma de visão diferente, esta possa ser conhecida pelas pessoas que achavam que a terra era chata ou imóvel e não havia nova forma de entendê-la.

A dúvida metódica

Trocando idéias com um jornalista que aproveitara sua coluna, uma semana após todos terem caído de pau em James Watson, chutando cachorro morto, portanto, o mesmo defendeu que o mesmo tinha tido a liberdade de manifestar a sua opinião. Para mim não faz sentido que alguém que seja execrado pela mídia sem o uso de argumentos, que é ‘desconvidado’ para dar palestra, que perde o emprego que tinha há 40 anos e solicitado que se estude um meio de retirar mesmo o seu merecido prêmio Nobel, dado há mais de 40 anos, como se o que ele fizera jus pelas suas descobertas inovadoras não mais a merecesse, seja considerado ‘livre’ para expressar as suas idéias, seus argumentos. Foi, inclusive, obrigado a se aposentar e a se recolher em quatro paredes para cumprir o seu ostracismo decretado pela mídia, que tenha tido garantido a liberdade de alguma coisa. Assim como ocorreu com a âncora Eva Herman, demitida do seu emprego e expulsa de um programa (gravado) não são compatíveis com o que se entenda como liberdade de pensamento e de opinião. Liberdade seria exercida com Galileu, exemplo histórico do absurdo a que pode chegar a censura de Estado ou o linchamento popular, condenado pelo senso comum, ao se apresentar o contraditório, os argumentos contra, a exposição porque determinado ponto de vista encerra uma visão errada e falsa. Jamais a censura, a execração pública, a demissão e perseguição a que estes exemplos sofreram. O que se está dizendo é que Galileu teve respeitada a sua opinião porque foi poupada a sua vida. Não só não se dá mais a vida pela liberdade de expressão, com nem mesmo se defende o direito ao trabalho e aos títulos conquistados quando os novos intolerantes se sentem irritados.

O sábio já sabe que não sabe e quem se dedica à pesquisa não leva consigo a certeza dogmática, mas a dúvida metódica como ferramenta. Esses conceitos do conhecimento, que nos foram enunciados por Sócrates e Descartes, mostram que a procura da verdade exige muitos caminhos certos ou errados, mas todos são esforços que se complementam na convergência das descobertas.

Argumentos justos

A tolerância traz essa acepção de Voltaire no seu Dicionário Filosófico: ‘É o apanágio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices, é a primeira lei da natureza.’ Em 1666, o filósofo empirista John Locke publicou Essay Concerning Toleration (Ensaio sobre a tolerância), escrito no século 17. Seria um tempo mais calmo do que hoje em que Theo van Gogh foi morto a tiros na rua, em que o escritor Salman Rushdie foi obrigado a viver escondido, em que os chargistas tiveram uma repercussão enfurecida no mundo islâmico, que o mesmo mundo tentou obrigar o papa a pedir desculpas pelo que expressara?

‘Quem se bate pela liberdade, bate-se pela sua e pela dos outros.’ Quem se bate pelo ponto pessoal para ganhar no grito, na determinação legal da sua verdade, se bate apenas para si. Não vai lutar pelos outros. A tolerância permite todos os debates sem precisar transformá-los em riscos de vida ou de liberdade, como em geral acontece nas controvérsias em que predomina o espírito oposto.

Não adianta falarmos em tolerância e paz se sempre se reage em tom de guerra e de verdade insofismável. Não são os argumentos que matam, mas a falta do uso dos mesmos. As idéias não irão morrer porque não falamos nelas em público, apenas prosperarão às escuras onde não se pode refutá-las. Há menos conflito entre os que discutem conhecendo o assunto e muitas vezes é a desinformação, ou a falta de clareza das idéias, que leva ao desatino. Quem examina a história das idéias, verifica que elas nascem, florescem e morrem. Muitas delas mais tarde ressurgem e percorrem as mesmas etapas. Não adianta matá-las prematuramente pela intolerância, mas sim pelo uso dos argumentos justos.

‘Que os homens se lembrem…’

Vítimas do holocausto do passado, hoje são acusadas pela esquerda de serem os opressores dos palestinos de hoje. Acusados pelos nazistas de explorarem o povo alemão para justificar a sua perseguição, hoje são acusados por Norman G. Finkelstein e Noam Chomsky, ambos judeus, de buscarem bilionárias indenizações pela via da chantagem.

Os homossexuais, que se consideram vítimas de preconceito de ontem, mesmo sem ter havido qualquer lei de condenação à cadeia de quem defendesse a homossexualidade como normal no século 20, desejam impor uma lei que envia para a cadeia qualquer um que criticar a sua prática, agora considerada como verdade absoluta e inconteste. Ai de quem falar para um filho que poderá a vir ser processado e colocado na cadeia por ter orientado ‘mal’ o seu filho. Ou religiosos, que deixarão de poder ensinar a sua moral aos seus seguidores, pois isto agora desagrada os que se acham donos da verdade certa e definitiva. A liberdade de opinião de que se utilizam hoje deve ser banida pela lei, para os outros, agora que se aproximam do poder.

Prece pela tolerância

‘Não é mais aos homens a quem eu me dirijo. É a você, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos. Que os erros agarrados à nossa natureza não sejam motivos de novas calamidades. Você não nos deu coração para nos odiarmos nem mãos para nos enforcarmos. Faça com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira. Que as pequenas diferenças entre as vestimentas que cobrem nossos corpos, entre nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas e nossas opiniões insensatas, não sejam sinais de ódio e perseguição. Que aqueles que acendem velas em pleno dia para te celebrar, suportem os que se contentam com a luz do sol. Que os que cobrem suas roupas com o manto branco para dizer que é preciso te amar, não detestem os que dizem a mesma coisa sob um manto negro.

Que aqueles que dominam uma pequena parte deste mundo, e que possuem algum dinheiro, desfrutem sem orgulho do que chamam poder e riqueza e que os outros não os vejam com inveja, mesmo porque você sabe que não há nessas vaidades nem o que invejar nem do que se orgulhar. Que eles tenham horror à tirania exercida sobre as almas, como também execrem os que exploram a força do trabalho. Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos violentemos em nome da paz.

Que possam todos os homens se lembrar que eles são irmãos’.

(François-Marie Arouet, cognominado Voltaire) – Uma das brilhantes cabeças do iluminismo, defensor intransigente da livre expressão do pensamento.

Métodos passados

Don Primo Mazzolari (1890-1959), presbítero, escritor e antifascista italiano, escreve no seu Sobre a Tolerância: e outros Ensaios: ‘Podemos estar juntos, trabalhar juntos e amarmo-nos sem que seja necessário ter o mesmo pensamento, a mesma opinião política, o mesmo altar.’

Liberdade científica não é cada qual acreditar no que quer, mas usar os meios para demonstrar a sua tese. Não é calar os outros por se sentir ofendido por dizer que está errado. Liberdade de expressão não pode ser impedida por quem não quer ouvir falar que tal coisa que acredita é errada, tolice, ou falsa. Tal importância, mesmo contra a tradição da interpretação constitucional vinda de outras condições sociais e políticas, o princípio liberal, como síntese dos direitos da pessoa humana em confronto com o interesse nacional superiormente interpretado. A liberdade do espírito deve ter aqui a sua sede. Mas o clima dessa liberdade é a tolerância, que enobrece os debates e assegura a convivência. A liberdade não tem o seu aprimoramento pela limitação. A tolerância não se estimula com o abrigo da intolerância atual.

Silenciar James Watson, Eva Herman, revisonistas e críticos da homossexualidade não foram vitórias da verdade, mas assim como silenciaram Salman Rushdie, são vitórias da falta de argumentos e correção das idéias. Foi o uso dos métodos passados, que pensávamos enterrados depois do iluminismo, mas que ainda vivem no nosso modo de enfrentar as opiniões divergentes.

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Médico, Porto Alegre, RS

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