Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DO LEITOR > MÍDIA & PODER

Olhar d’além-mar

17/02/2004 na edição 264

Segundo me apercebi, o autor deste artigo [‘Sem perspectiva histórica’, remissão abaixo] é advogado, mas não deve estar muito atento à história e aos sinais da sociedade analisados numa perspectiva global. O seu texto reflecte os clichés típicos dos defensores da economia selvagem de mercado, uma espécie de tatcherismo poeirento, porque nem sequer hoje é esse o discurso do capitalismo selvagem. É muito mais sofisticado e muito mais elaborado. Não existe nenhum paralelo entre Lula e Lech Walesa.

A sociedade de onde emerge o polaco não é mesma de onde emerge o presidente brasileiro. Lula vem de uma sociedade constituída por poucos muitíssimo ricos e milhões muitíssimo pobres. Walesa vem de uma sociedade onde existiam pessoas carenciadas de certos bens de consumo mas todos tinham o suficiente para prover às suas necessidades básicas, situação que não é a do Brasil. Na Polónia existia um nível de formação cultural e técnica mais ou menos homogéneo e abrangente de toda a sociedade, o que também não é o caso do Brasil, onde essa formação, por enquanto, só é acessível a algumas elites e a uma classe média sempre cercada pela ameaça da pobreza.

Também não têm paralelo nem a conjuntura política em que um e outro chegam ao poder. Walesa tem um percurso relâmpago, apoiado pelos milhões da CIA, por vários serviços secretos, pelo Vaticano e pelas grandes multinacionais. Esgotou-se rapidamente porque não era um político nem tinha um pensamento político e muito menos era um sindicalista verdadeiro. Foi um instrumento que, uma vez usado, aqueles poderes deixaram cair. Lula tem um percurso de décadas. Construiu o seu caminho passo a passo, com inteligência e coerência.

Quem não tem futuro não é o Lula. Quem não tem futuro é o Brasil sem Lula, ou outro político do mesmo tipo, que certamente ainda não existe. A referência à globalização e às facilidades que ela oferece aos empresários brasileiros é outro equívoco. Os empresários brasileiros não têm nada a lucrar com a globalização. Quem lucra são as multinacionais dos países desenvolvidos que deslocalizam as suas indústrias para aproveitarem a mão de obra barata dos países pobres.

Mão de obra barata, infelizmente, já as empresas brasileiras têm no seu país. Lula é o único que pode assegurar, de uma forma democrática, a passagem sem traumas, de uma sociedade maioritariamente de excluidos para uma sociedade mais humanizada, mais justa e mais equilibrada. Se tal não acontecer – a História ensina-o – a explosão social é inevitável. E uma explosão social num país com 200 milhões é uma grande explosão. Ninguém se salva.

Lula foi a oportunidade de o Brasil se encontrar consigo próprio, com os seus valores e com a sua auto-estima. Mas também foi a oportunidade para aqueles que geraram tanta desigualdade se encontrarem com a sua consciência e terem também a sua oportunidade. Em pouco mais de um ano Lula elevou o prestígio do Brasil a um nível nunca antes atingido.

Por muito que custe a todos que gostam muito do Brasil – e sou um deles – o prestígio internacional do Brasil tinha origem apenas nos seus futebolistas, nos seus escritores, nos seus intelectuais e no seu povo alegremente sofredor. Não nas suas instituições, nem nos seus políticos, nem nos seus banqueiros.

Augusto Vilela

 

No interior é pior

Excelente texto. A influência do poder na mídia brasileira é enorme e perversa, e os veículos acabam praticando o chamado ‘jornalismo oficial’. No interior, a situação é ainda pior.

Aqui em Limeira, SP, existem dois jornais diários. Um é oficial mesmo e é governo até debaixo d’água (independentemente de quem seja governo), o outro até tenta seguir uma linha mais independente, mas esbarra sempre nas pautas fornecidas pelo poder público. Um terceiro jornal existiu em 2001, eu fazia parte da redação e até tentamos seguir uma linha mais independente, voltada realmente para o leitor.

Tínhamos colunas em que o povo se manifestava, dávamos muito espaço à sociedade civil (entidades, ONGs, etc.) para divulgar seu trabalho, enfim, envolvíamos a população em nosso trabalho, fazíamos um jornal para o povo.

O problema é que o jornal era de um ex-vereador, que não entendia nada de jornalismo e começou a querer utilizar o veículo para criticar o prefeito da época, pressionando a redação bem ao estilo ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’.

Resultado: o jornal começou a adotar uma linha tendenciosa, arrumou uma grande encrenca com as chamadas ‘forças vivas’ da cidade e acabou fechando as portas por falta de anunciantes. Hoje, infelizmente, temos toda a mídia da cidade pautada pelo oficial e pelas ocorrências policiais, o que é deplorável, lamentável e péssimo para a educação e a informação do povo. Mas afinal, não é isso que os governantes almejam?

Rodrigo de Proença Guidi, jornalista, Limeira, SP

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